quinta-feira, dezembro 30, 2021

Pré-campanha já constrange militares




Ocupação de espaços na máquina pública será alvo de críticas

Por Fernando Exman

No início de setembro, quando a Câmara se preparava para votar o projeto de lei complementar que reforma o Código Eleitoral, oficiais das Forças Armadas não escondiam a satisfação com um determinado trecho da proposta. Apoiavam, com entusiasmo, a inclusão dos militares entre as carreiras que precisariam passar por uma quarentena antes de ingressar na política.

A proposta, claro, não teria o condão de impedir o uso da imagem das Forças Armadas por candidatos e partidos. Isto era lamentado e já estava na conta, por ser considerado inevitável, mas, pelo menos, a iniciativa legislativa era vista como um instrumento adicional para a missão dos altos comandos de impedir a politização das tropas. “Quando a política entra num quartel por uma porta”, ouvia-se nas conversas sobre o assunto, “a disciplina sai pela outra”.

Exército, Marinha e Aeronáutica passavam por mais um constrangimento público patrocinado pelo presidente Jair Bolsonaro, que, ao lado de apoiadores mais radicais, preparava novos ataques às instituições para o Dia da Independência. Já a Câmara corria contra o tempo.

Deputados tentavam alterar algumas regras eleitorais a tempo de implementá-las no ano que vem: além dos integrantes das Forças Armadas, juízes, membros do Ministério Público, policiais federais, policiais rodoviários, policiais civis, guardas municipais e policiais militares teriam que se desligar das respectivas funções quatro anos antes das eleições, caso decidissem entrar na vida pública. A intenção dos defensores da proposta era impedir que tais profissionais obtivessem vantagens na disputa, preocupação legítima, sobretudo depois do observado nas eleições de 2018.

O próprio Bolsonaro é exemplo a ser mencionado. Sua experiência como oficial do Exército acabou em 1988, quando o comportamento do então capitão acabou por levá-lo para a reserva. No mesmo ano ele se candidatou e foi eleito para o cargo de vereador do Rio de Janeiro. Tomou posse no ano seguinte e logo na sequência, em 1990, elegeu-se deputado federal. Não saiu da Câmara até 2018, quando venceu a disputa pelo Palácio do Planalto.

As bancadas dedicadas aos temas de segurança também cresceram. Segundo um levantamento feito pelo “G1” à época, o número de policiais e militares eleitos para o Legislativo - assembleias estaduais, Câmara e Senado - aumentou de 18 para 73 na comparação com 2014.

Por isso, primeiro, a ideia dos deputados era aplicar uma nova regra já na disputa de 2022. Como não houve acordo, calibrou-se o texto e ficou decidido que a regra passaria a valer para o pleito de 2026. Ainda assim, a proposta foi aprovada pela Câmara e depois não avançou no Senado.

É até possível que os senadores deem um novo impulso a ela mirando as eleições municipais de 2024, aprovando-a até outubro do ano que vem, ou alterem o texto para fazê-la valer no pleito de 2026. No entanto, isso não mudará o fato de que novamente a imagem das Forças Armadas será usada na campanha eleitoral, de forma a confundir o eleitor sobre o papel destinado a uma instituição de Estado que nos últimos anos vem tentando se afastar do polarizado ambiente político. Aliás: já está sendo.

Um movimento veio de Sergio Moro. O ex-juiz da Lava-Jato e ex-ministro da Segurança Pública fez questão de participar da solenidade de filiação do general Carlos Alberto dos Santos Cruz ao Podemos, em novembro, quando o oficial da reserva destacou que não representava as Forças Armadas ao sinalizar disposição de entrar na política. Não ficou claro a qual posto ele, ex-ministro de Bolsonaro assim como Moro, irá concorrer. O que ficou evidente foi o receio de governistas com um racha no eleitorado militar: pouco tempo levou até circular a informação de que Bolsonaro quer ter novamente um general da reserva ocupando a vaga de vice na sua chapa, e o nome do ministro da Defesa, Walter Braga Netto, passou a ser citado como opção.

Uma outra novidade será ver o antecessor de Braga Netto, Fernando Azevedo e Silva, na diretoria-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O também general da reserva deixou o governo em março, num momento em que o presidente da República cobrava alinhamento político tanto do auxiliar direto quanto das Forças Armadas. Sua nomeação foi meticulosamente pensada para fazer uma ponte entre a Corte e o universo militar, em meio aos ataques de Bolsonaro contra o Judiciário e as urnas eletrônicas, como se a publicação de seu nome no “Diário Oficial da União” por si só pudesse garantir a estabilidade democrática.

Neste contexto, a competência de Azevedo não é questionada nem por antigos colegas, mas sim, novamente, o emprego de alguém que vestiu a farda por muito tempo - e é relacionado aos militares - para uma missão alheia aos interesses das Forças. Ademais, a presença dele na linha de frente da organização das eleições pode alimentar as críticas ao crescimento exponencial da presença de militares, da ativa e da reserva, em funções estratégicas na máquina pública.

À esquerda, este último ponto já foi definido, inclusive, como algo a ser explorado.

Interlocutores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmam que não basta formular uma norma para regulamentar a entrada de policiais e militares na política. Ou seja, um eventual governo do petista tende a atacar logo o que o partido considera uma militarização da administração pública. "A campanha de 2022 vai ser um suspiro final de um sonho de poder de um segmento que tem, sim, que ter poder, mas subordinado ao papel constitucional que lhe foi definido", comenta uma fonte. "Vamos ter um governo plural. Isso não quer dizer que não haverá militares em espaços estratégicos, mas não como uma regra”, acrescenta.

Aqueles que acumulam salários, mesmo com respaldo legal, devem ser atingidos. E isso nunca ocorre sem que ocorram turbulências.

De qualquer forma, só em outubro o eleitor definirá qual o perfil do governo irá querer a partir de 2023. Até lá, cabe a cada pré-candidato compreender que seus interesses individuais não devem se sobrepor a instituições de Estado, como as Forças Armadas.

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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