sexta-feira, dezembro 31, 2021

O balanço do primeiro ano de acordo comercial pós-Brexit




Um ano após pacto com a UE, exportações britânicas para o bloco despencaram. Os prognósticos mais catastróficos não se cumpriram, mas a situação do Reino Unido não parece das mais promissoras.

Por Nik Martin

Escassez de alimentos, trabalhadores estrangeiros deixando o país e postos de gasolina vazios. O Reino Unido certamente teve seu quinhão de contratempos desde que terminou há um ano o período de transição do Brexit – destinado a suavizar a saída do Reino Unido da UE.

Uma crise na cadeia de abastecimento, agravada pela falta de caminhoneiros e outros trabalhadores de países da UE, deixou as prateleiras dos supermercados britânicos vazias, gerou longas filas nos postos de gasolina por várias semanas em setembro e até mesmo o abate e eliminação de milhares de porcos.

As novas regras que regem o comércio UE-Reino Unido entraram em vigor em janeiro de 2021, exigindo formulários alfandegários de quatro páginas para todas as mercadorias e certificados sanitários para carnes e laticínios. Como resultado, as exportações britânicas para a UE caíram quase 15% nos primeiros dez meses do ano, de acordo com a agência de estatísticas da UE, a Eurostat, enquanto as exportações agroalimentares do Reino Unido caíram mais de 25%.

Culpa do Brexit ou do coronavírus?

Tudo isso aconteceu enquanto o país lutava contra a então nova variante delta do coronavírus, que fez o Reino Unido enfrentar seu terceiro lockdown nacional. Embora o governo insistisse ser impossível separar o Brexit do efeito da pandemia, muitos economistas discordam. "O que podemos dizer é que a perda notável do comércio do Reino Unido com a Europa continental não foi espelhada no comércio do Reino Unido com o resto do mundo", sublinha Iain Begg, pesquisador do Instituto Europeu da London School of Economics (LSE).

O Brexit deveria colocar um fim à burocracia da UE, mas em vez disso, a papelada adicional aumentou os custos de exportação, que afetaram duramente muitas empresas sediadas no Reino Unido e na UE.

Pequenas empresas britânicas, em particular, disseram que suas vendas para a UE despencaram. Simon Spurrell, cofundador da Cheshire Cheese Company, disse ao jornal britânico The Guardian recentemente que o acordo comercial pós-Brexit foi o "maior desastre que qualquer governo já negociou". Alguns varejistas da UE pararam de receber pedidos do Reino Unido.

'Problemas nas cadeias de abastecimento, acirrados por Brexit e pandemia, deixaram prateleiras vazias nos supermercados britânicos'

"São as pequenas empresas que sofrem com a papelada excessiva, não os gigantes como a Nissan", diz Begg, se referindo à montadora japonesa que renovou seu compromisso em manter a produção no Reino Unido, apesar das incertezas do Brexit.

Sim, mais burocracia!

A burocracia deve ficar muito pior a partir de janeiro, quando o Reino Unido colocar em vigor mais burocracia para importações da UE, antes que estas sejam carregadas em trens ou caminhões para o Reino Unido. Os planos tinham sido adiados três vezes no ano passado para evitar mais problemas para as empresas.

Para piorar ainda mais as coisas para o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, seu principal negociador do Brexit, Lord David Frost renunciou neste mês. Alguns analistas especularam que a saída foi acelerada pela pressão sobre Johnson para adotar uma abordagem mais branda nas negociações com Bruxelas, já que uma guerra comercial total pairava sobre várias questões espinhosas.

Assuntos pendentes

O acordo comercial pós-Brexit deixou muitos "assuntos pendentes", de acordo com Begg, incluindo a respeito da Irlanda do Norte, da pesca e de serviços financeiros. A City, distrito financeiro de Londres, é grande contribuidora para a economia britânica e foi, segundo o especialista, "quase negligenciada" nas negociações do Brexit. A City está tentando obter o que é conhecido como equivalência com a UE – onde os dois lados aceitam os regulamentos um do outro. Mas o think tank Institute of Government acredita que um acordo permanente é atualmente improvável.

A disputa entre o Reino Unido e a França sobre os direitos de pesca nas águas entre Reino Unido e UE deve persistir, enquanto o protocolo da Irlanda do Norte – uma medida para evitar uma fronteira rígida entre o território britânico da Irlanda do Norte e um membro da UE, a República da Irlanda – será apenas ser resolvido quando Londres admitir que o Tribunal de Justiça Europeu pode decidir sobre litígios comerciais.

"O resultado ideal para a Irlanda do Norte seria se a fronteira se tornasse quase invisível", diz Begg, em entrevista à DW. "Há um movimento nesse sentido, mas nunca será 100%, porque a lógica diz que você deve ter uma fronteira em algum lugar."

A ministra do Exterior britânica, Liz Truss, assumiu o comando das negociações do Brexit no Reino Unido. Truss é encarregada de manter o apoio dos eurocéticos dentro do Partido Conservador a respeito da direção do Brexit, enquanto evita acirrar o antagonismo em relação a Bruxelas.

'Ministra do Exterior britânica, Liz Truss, assumiu as negociações do Brexit após a renúncia de David Frost'

Ideia de "Reino Unido Global" desanima

Poucos pontos positivos surgiram sobre um Reino Unido Global – a promessa de que o Brexit permitiria ao Reino Unido impulsionar seu comércio com o resto do mundo. Um acordo de livre comércio com os Estados Unidos permanece ilusório, especialmente desde a derrota eleitoral de Donald Trump, e o estreitamento dos laços comerciais com a China estão fora da mesa por enquanto, devido às tensões políticas sobre Hong Kong.

Embora os britânicos tenham fechado novos acordos com o Japão, Austrália e Nova Zelândia, "é mais uma questão de 'quem liga para isso?'", segundo Begg, já que os três países representam uma pequena parcela das exportações do Reino Unido. "Mesmo se dobrarmos essa parcela, ela ainda continua minúscula."

O acordo comercial pós-Brexit, no entanto, não levou a algumas das piores previsões de "fim do mundo". Em vez da perda de meio milhão de empregos, o Reino Unido ainda tem uma grande escassez de trabalhadores -- depois que o Reino Unido acabou com a liberdade de movimento de cidadãos da UE. Em vez de uma queda prevista de 18% nos preços dos imóveis, os valores das propriedades britânicas atingiram um recorde histórico este ano, subindo mais de 20% desde o referendo de 2016.

Os residentes do Reino Unido terão que esperar mais oito anos para ver se eles estarão 4,3 mil libras (R$ 32,4 mil) mais pobres até 2030, como previsto, mas o Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR) do Reino Unido acredita que o Produto Interno Bruto (PIB) sofreu um golpe de 1,4 % desde o referendo de 2016 e, a longo prazo, o PIB britânico será 4% inferior ao que seria caso o divórcio não tivesse ocorrido.

Muitos creem que o Brexit pode ser desfeito

Apesar das manchetes sombrias, da campanha política e de uma pesquisa recente mostrando que 60% dos britânicos agora acham que o Brexit foi "ruim" ou "pior do que o esperado", as chances de o Reino Unido voltar à UE continuam improváveis, segundo Begg.

"Toda a saga do Brexit foi tão dolorosa na política interna do Reino Unido que não vejo qualquer desejo de uma volta tão cedo", afirma.

Do lado da UE, "não consigo ver isso acontecendo em uma geração, muito menos em um futuro próximo". O economista  avalia que o Brexit "causou enormes dificuldades e desperdiçou uma quantidade incrível de tempo [para os Estados da UE] quando havia outros problemas urgentes".

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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