domingo, setembro 30, 2007

Previdência dos servidores alimentará especulação

Escrito por Henrique Júdice

No último dia 06, o Poder Executivo enviou ao Congresso um projeto de regulamentação da reforma do regime previdenciário dos servidores públicos, aprovada em 2003. Trata-se de uma compensação ao setor financeiro pelo aparente fracasso de suas aspirações de liquidação do sistema de proteção social da Constituição de 88.
O PLC 1992 segue todas as diretrizes defendidas pelo lobby financista reunido no Plano Diretor do Mercado de Capitais (PDMC). De maneira menos drástica, faz com o dinheiro do regime dos servidores o que as entidades reunidas no PDMC querem fazer também com o do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), que abrange os trabalhadores cobertos pelo INSS.
Ruim para os servidores, ruim para as contas públicas
O projeto faz cair por terra a idéia de que a reforma de 2003 serviria para corrigir disparidades entre as aposentadorias e pensões do serviço público e aquelas pagas pelo INSS, ou que se prestasse a conter gastos com benefícios de valor elevado. Ele amplia os problemas que aquela reforma supostamente vinha remediar.
É verdade que o projeto limita os proventos pagos pelo regime do funcionalismo ao teto do INSS. Ao fazer isso, entretanto, o PLC 1992 limita também ao mesmo valor a incidência de desconto previdenciário sobre os vencimentos do funcionalismo. Hoje, o governo federal desconta 11% (R$ 550) do salário de um servidor que ganhe R$ 5.000 para pagar-lhe, no futuro, uma aposentadoria de 3 ou 4 mil reais (já que a mesma reforma de 2003 mandou calcular o valor desta pela média das remunerações recebidas durante toda a vida). Com a mudança proposta, poderá descontar do salário deste mesmo servidor no máximo 11% (R$ 330, mais ou menos) do teto do INSS (pouco menos de R$ 3.000) para pagar-lhe uma aposentadoria de valor muito próximo (os mesmos R$ 3.000).
Esta alteração é ruim para os cofres públicos, tanto a curto quanto a longo prazo. A longo prazo porque, como vimos, a redução da despesa futura com o pagamento de benefícios será menor que a queda da arrecadação (presente e futura). A curto prazo, porque a arrecadação presente cairá, mas o gasto atual com o pagamento de aposentadorias e pensões não. Como os atuais aposentados e pensionistas do setor público conservarão o direito ao valor de seus proventos, o governo terá que gastar mais para cobrir a diferença entre o total desses proventos e o que recolhe sobre o contracheque dos funcionários ativos.
Roda da fortuna
O sistema previdenciário do funcionalismo tem duas partes (servidores e governo). O dinheiro gasto por uma é revertido à outra: os servidores descontam para o governo, o governo paga os servidores aposentados. Onde está a mágica capaz de fazer que os dois lados percam dinheiro?
A resposta é a mesma de várias indagações semelhantes que se podem fazer desde o início do Plano Real: setor financeiro. O que o PLC 1992 faz é incluí-lo como terceiro participante da relação, transferindo dinheiro tanto dos cofres públicos quanto dos contracheques do funcionalismo para fundos de capitalização e corretoras de valores mobiliários. Seu Artigo 15 prevê que “a, provisões e fundos dos planos de benefícios, resultantes das receitas previstas no art. 10 desta Lei deverá ser realizada mediante a contratação de instituições autorizadas pela Comissão de Valores Mobiliários - CVM para o exercício da administração de carteira de valores mobiliários” e que a aplicação desses recursos “será feita exclusivamente por meio de fundos de investimento atrelados a índices de referência de mercado”. Em linguagem corrente, isto significa que: a) o governo fica obrigado a aplicar na bolsa de valores o dinheiro arrecadado para, supostamente, custear aposentadorias de seus funcionários; b) além disso, fica obrigado a contratar intermediários (corretoras privadas) para realizar e administrar essas aplicações. administração dos recursos garantidores
Para supostamente garantir ao funcionalismo uma aposentadoria maior que aquela que lhe será paga pelo governo, o projeto de lei transfere a esses fundos privados o desconto sobre a diferença entre o salário do servidor e o teto do INSS. Voltando ao exemplo anterior, o servidor que recebe R$ 5.000 e que hoje desconta R$ 550 para o governo passará a descontar R$ 330 para os cofres públicos e os restantes R$ 220 (ou um pouco mais, ou um pouco menos, dependendo das condições estabelecidas pelos fundos) para esses fundos de capitalização. Um servidor que ganha R$ 10.000 descontaria para o governo os mesmos R$320, mas o valor destinado aos fundos de capitalização passaria para R$ 770.
Os fundos e corretoras disporão desse dinheiro – num volume de dezenas de bilhões de reais – sem sequer informar ao servidor quando ele receberá, no futuro, a título de aposentadoria: de acordo com a estruturação dos planos de benefícios proposta no PLC 1992, tanto ele quanto o governo contribuirão sobre um percentual determinado de seu salário (contribuição definida), mas o valor de sua aposentadoria ou pensão dependerá do rendimento que o fundo de capitalização lhe conceder (benefício indefinido). Novamente, não são apenas os servidores que perdem, mas também os cofres públicos: o governo terá que contribuir para os planos de capitalização com um percentual de até 7,5% da remuneração do servidor (o que não ocorre hoje).
Na exposição de motivos do PLC 1992 - subscrita pelos ministros da Fazenda, Guido Mantega; Planejamento, Paulo Bernardo; e Previdência, Luiz Marinho – , esses ministérios, responsáveis por sua apresentação à presidência da República, admitem que “a mudança de regime terá um impacto negativo nas contas públicas no curto prazo, na medida em que o governo deixará de receber a contribuição sobre a parcela da remuneração do servidor entrante que ultrapassar o teto, e terá um gasto adicional, na medida em que passará a contribuir para o regime complementar, capitalizando reservas individuais para os servidores”.
Mais adiante, admitem o real objetivo do projeto ao assinalar que “o porte e o elevado potencial de acumulação de recursos deste novo investidor institucional poderá estimular a demanda por ativos no mercado financeiro e de capitais, viabilizando o fortalecimento do mercado secundário de títulos e promovendo maior liquidez, requisito essencial para o desenvolvimento desses mercados.”
Patrimonialismo de mercado
A festa dos bancos e corretoras começa antes mesmo da implantação do novo sistema. Para centralizar a arrecadação das contribuições que serão repassadas a eles, o projeto cria uma entidade chamada Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp). De acordo com a exposição de motivos elaborada pelos três ministérios, “a implantação da FUNPRESP implica em custos iniciais significativos decorrentes da contratação de pessoal, aquisição de softwares, hardwares, consultorias contábeis e atuariais, etc”. Essas “consultorias contábeis e atuariais” são prestadas, via de regra, por empresas vinculadas ao próprio mercado de capitais. Para remunerá-las – segue a exposição de motivos – , “o Projeto de Lei autoriza, então, no seu art. 26, que a União realize um aporte inicial de recursos no montante de até 50.000.000,00 (cinqüenta milhões de reais) a título de adiantamento de contribuições futuras.”
Além disso, o projeto cria mais um nicho de promiscuidade entre a administração de recursos do Estado e os interesses do setor financeiro: a diretoria-executiva da Funpresp, que terá em suas mãos o poder de distribuir entre diferentes fundos e corretoras os recursos arrecadados pela entidade. O controle desses cargos é muito atraente, portanto, para os bancos e corretoras – que procurarão colocar neles, a exemplo do que já fazem em órgãos como Banco Central, CVM e BNDES, seus executivos e homens de confiança. O PLC 1992 - que regulamenta a reforma que ia acabar com as aposentadorias de marajá no serviço público – garante aos diretores-executivos da Funpresp remuneração “em valores compatíveis com os níveis prevalecentes no mercado”, que pode chegar até 30 mil reais.
Além da “modernidade” neoliberal consistente numa mal disfarçada privatização de parte do sistema previdenciário dos servidores, as entidades do mercado financeiro (bancos, corretoras, consultorias) recorrem também a formas mais antigas e tradicionais de apropriação privada de recursos públicos, como contratos administrativos e altos salários. O “adiantamento” de R$ 50 milhões para a contratação de consultorias é justificado pelos ministérios da Fazenda, Previdência e Planejamento sob a alegação de tratar-se de prática corrente de entidades de previdência privada. A remuneração da diretoria da Funpresp, com a velha história da “administração pública gerencial” - como se o serviço público devesse funcionar nos moldes da grande empresa privada. Resta saber o que os arautos da “administração gerencial”, como o sr. Bresser Pereira, e os “especialistas contas públicas” que pregam o desmanche da Previdência, como os srs. Raul Velloso e Fabio Giambiagi, diriam de uma empresa altamente endividada e com boa parte de seus gastos correntes comprometidos que decidisse usar dinheiro de sua folha de pagamento para jogar na bolsa. É isso que eles propõem para o Estado brasileiro e é o que o governo está fazendo.


Henrique Júdice Magalhães é jornalista, ex-servidor do INSS e pesquisador independente em Seguridade Social. Porto Alegre (RS).
Fonte: Correio da Cidadania

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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