sábado, setembro 15, 2007

Impunidade estimula corrupção

Por Priscila Melo
O artigo 5° da Constituição, que abre o Capítulo I dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, diz que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Ou seja: independente de cor, raça ou classe social, todos devem ser julgados de forma igualitária. Mas, na prática a conversa é outra. Principalmente quando se trata de juízes, promotores, filhos de policiais e políticos. Exemplo desta distorção é o que acaba de acontecer com a juíza Olga Regina Santiago Guimarães, acusada de envolvimento com o tráfico internacional de drogas, que foi premiada com uma promoção no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Mas, no caso de um trabalhador da periferia, pobre, negro e sem acesso à educação superior, a lei é aplicada da forma mais rígida possível. Quem rouba lingüiça no açougue da esquina para não passar fome está atrás das grades. Mas quem desvia milhões dos cofres públicos, no máximo se afasta do cargo e ainda se reelege, aproveitando-se da memória fraca dos brasileiros. No caso da juíza, o Tribunal de Justiça da Bahia tomou conhecimento das denúncias na semana passada e somente na última segunda instaurou inquérito para investigar as acusações. A Polícia Federal encaminhou gravações onde ela aparece em conversas suspeitas com traficantes internacionais. Mas, mesmo assim, ganhou uma promoção e foi empossada como juíza de direito titular da 47ª Vara de Substituições da Comarca de Salvador. Antes de passar pela Vara Criminal da Comarca de Cruz das Almas em 2001, ela passou cinco anos em Juazeiro, onde absolveu uma gang, apontada pela Polícia Federal como envolvida com um esquema de tráfico internacional de cocaína, chefiada pelo dono da empresa de fruticultura Mariad, Gustavo Duran Bautista. A PF descobriu que a empresa era usada como fachada por traficantes e ela justificou a soltura alegando que eles seriam apenas usuários. Já em São Paulo, o promotor Thales Ferri Schoedl confessou ser autor do assassinato do atleta Diego Modanez, que tinha de 20 anos, em dezembro de 2004, no Guarujá, mas, mesmo assim foi premiado pelo Colégio Especial de Promotores de São Paulo sendo mantido no cargo. A decisão foi suspensa pelo Conselho Nacional do Ministério Público, que também afastou o promotor das funções, mas ele continua recebendo o salário de R$ 10,8 mil. Esta foi, até então, sua única punição. Schoedl também é acusado de ferir Felipe Cunha de Souza, em um luau na praia de Riviera de São Lourenço, no litoral paulista, no mesmo dia em que matou o jogador de futebol. O promotor alegou legítima defesa e disse que os dois amigos o teriam agredido depois de fazer insinuações sobre sua namorada. Na época ele chegou a ser preso, mas conseguiu autorização judicial para aguardar o julgamento em liberdade. O mesmo resultado se aplica ao caso do jornalista Pimenta Neves, ex-diretor de Redação de “O Estado de S. Paulo”, assassino confesso da ex-namorada Sandra Gomide, que, apesar de não ser promotor, faz parte da classe das influências. Mesmo tendo fugido e sido condenado, conseguiu um habeas corpus que lhe dá liberdade até o julgamento definitivo. O crime aconteceu em 20 de agosto de 2000, no Haras Setti, em Ibiúna. E não são somente os “poderosos” a serem liberados da pena pela força do próprio poder. A família embarca pelos mesmos meios e também celebram a impunidade. Exemplo disso foi a soltura do estudante integrante da gangue dos grã-finos (todos são de famílias de classe média e universitários), que vai responder pelo crime em liberdade. Acusado de receptação de veículo, Pedro Mercês, de 18 anos, foi preso no dia 11 de julho, junto com outros estudantes, de posse do Fiat Stilo roubado, de placa JQX-6149. Ele é estudante de direito da Faculdade Jorge Amado e filho de um policial federal. A liberdade foi concedida pelo juiz titular da 8ª Vara Criminal, Abelardo Paulo da Matta, com os seguintes motivos: réu primário, bons antecedentes e moradia comprovada, além de não ter sido reconhecido por nenhuma das vítimas de assaltos (apesar de estar com um carro roubado no momento em que foi preso). Para o antropólogo baiano Roberto Albergaria, entre todos os exemplos, é preciso identificar um problema além da impunidade. “A impunidade existe. A mola mestra é mesmo a cumplicidade”, resume, referindo-se ao “coleguismo” da ponta do iceberg, único que, até então, está aparecendo. “A desigualdade nasceu com o Brasil e perpetua até hoje. Não há mudança profunda na estrutura da sociedade. Existe sim, uma desigualdade social, política e das tribos profissionais”, diz. Ele identifica os protagonistas dos escândalos como personagens de um grupo corporativista especialmente nos setores executivo, legislativo e judiciário. “Um deputado não condena o outro e o mesmo se aplica para o médico, o advogado, o professor e o jornalista, por exemplo. Renan Calheiros é um símbolo da lambança brasileira. Faz parte de um corporativismo do Partido dos Traíras (referindo-se ao PT)”, explica o antropólogo. Albergaria critica ainda a forma como Renan é identificado pela mídia. “Ele foi colocado de uma maneira personalizada, quando a culpa não é somente dele. O problema é que existe uma rede de cumplicidade que é sabida, mas não pode ser apontada”, diz. Ele lembra ainda do caso da juíza Olga Regina Santiago: “É muito parecido com o caso do jogo do bicho. Todo mundo sabe quem está envolvido, mas não pode falar”, diz, lembrando que ela também não está só no envolvimento ao qual é acusada. Para Albergaria, o pior de tudo não é Renan, mas sim os cúmplices do Senado. “No Brasil todo mundo quer ser especial. O que existe é uma privilegiatura e não uma democracia”, concluiu o antropólogo.
Na política absolvição é comum
Se entre juízes, promotores, filhos de policiais já existem exemplos comuns, a lista é mais extensa ainda quando se trata de políticos. Ontem mesmo, na tão esperada votação, diga-se de passagem, secreta, o plenário do Senado Federal absolveu, por 40 votos a 35, o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). Ele era acusado de quebra de decoro parlamentar por usar dinheiro da empreiteira Mendes Júnior para pagar pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha fora do casamento. Vale lembrar ainda que o senador responde a outros dois processos de quebra de decoro parlamentar que tramitam no Conselho de Ética da Casa. Entre os tantos, José Genuíno, ex-presidente do PT, que foi denunciado por corrupção, além de ter sido acusado de negociar pagamentos a parlamentares em troca de apoio político, e em seguida renunciou à presidência do partido. Até então, nada de punição. Ele ainda se elegeu como deputado federal. Já o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, acusado de ser o responsável pelo esquema de repasse de dinheiro, não teve tanta sorte assim. Acabou sendo expulso do PT em 2005 e vive tranqüilo, até então, na fazenda do pai em Goiás. A dona do Banco Rural Kátia Rabello, foi acusada de ter viabilizado o esquema de mensalão, montado por Marco Valério. Apesar de ter cometido fraudes ela continua como presidente do conselho de administração do banco. O deputado federal Paulo Rocha foi denunciado por lavagem de dinheiro. Ele teria sacado 920 000 reais do valerioduto. Na época, renunciou ao mandato, mas já se reelegeu. Esses são apenas alguns dos políticos que cometeram crimes recentemente. O Congresso está abarrotado de exemplos como estes.
Os recifes de coral e as mudanças globais
No âmbito dos Seminários Novos e Velhos Saberes, organizados conjuntamente pelo Departamento de Botânica e Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Biomonitoramento da UFBA, a Profa. Zelinda Leão, do Instituto de Geociências (IGEO), ministra hoje o seminário “Mudanças globais e os recifes de coral da Bahia”. Será no Salão Nobre do Instituto de Biologia (Campus de Ondina), às 14 horas. A entrada é franca. Os corais configuram-se como elementos da paisagem da região costeira do Estado da Bahia e estudos desenvolvidos mostram que os recifes costeiros vêm apresentando sinais de degradação. As causas são as ações sinérgicas de processos globais (oscilações do nível do mar e El Niño) e influências antropogênicas. São exemplos a ocupação desordenada da costa, eutroficação dos recifes, poluição marinha, turismo inadequado, super-exploração dos recursos e sobre-pesca, sem mencionar a entrada de sedimento inorgânico oriundo dos rios. Esses fatores serão discutidos e sugestões apresentadas para a execução de atividades de gestão desses ecossistemas, que permitam a manutenção de seus serviços ambientais. Mais informações: 3283-6525.
Fonte: Tribuna da Bahia

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas