quinta-feira, maio 10, 2007

O papa Bento XVI chega hoje ao Brasil com a missão de conter a fuga de católicos

No país que tem mais católicos no mundo - 155 milhões - ocorre diariamente, nas palavras do arcebispo de São Paulo, Odilo Scherer, uma “fuga silenciosa” de fiéis, que começam a encher os templos de outras confissões cristãs que se mostram mais atraentes. E, se uma das principais tarefas de João Paulo II foi desarmar a “teologia da libertação”, o objetivo com que Bento XVI chega hoje ao Brasil se apresenta quase igualmente complicado: deter o exôdo de fiéis que em 30 anos fez a porcentagem de católicos baixar de 91,4% para 73,9% da população. Joseph Ratzinger fez da luta contra o relativismo um dos eixos de seu trabalho doutrinário, primeiro como cardeal e depois como papa, mas em sua decisão de viajar ao Brasil influiu um fato em princípio contrário a esse relativismo: milhões de brasileiros - e de latino-americanos, especialmente no Caribe - optaram por acreditar, com grande intensidade, em outros cultos, especialmente os pentecostais. Estes se caracterizam por apelar mais à emotividade e ao consolo imediato do que à razão e às promessas futuras, em um continente onde convivem diariamente as maiores fortunas do planeta com grandes aglomerações de miséria e desesperança. No Brasil há cinco pessoas que professam o catolicismo para cada uma que se declara evangélica, mas há 17 pastores evangélicos para cada sacerdote católico, e enquanto os primeiros concentram seu trabalho nas cidades os segundos se disseminaram pelo país. Não é por acaso que Ratzinger - que ficará até domingo no Brasil - viaja escoltado por Cláudio Hummes, um cardeal progressista, amigo do presidente Lula da Silva e que, como arcebispo de São Paulo, foi seu rival durante o Conclave de abril de 2004. Bento XVI o nomeou prefeito para a Congregação do Clero, o “ministro” encarregado dos sacerdotes diocesanos em todo o mundo, que são a grande maioria na Igreja Católica; ou seja, colocou no topo da administração da hierarquia quem a criticou durante anos. Também não é conjuntural o fato de o principal ato do papa em terras brasileiras ser a inauguração no próximo domingo - no santuário de Aparecida, a cerca de 200 km de São Paulo - da Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (Celam), onde se encontrarão os bispos que representam a metade dos católicos do mundo. Diante deles, Ratzinger, pouco amigo de discursos retóricos, definirá as linhas de ação da Igreja Católica na América Latina para os próximos anos. Muitos bispos esperam referências a políticas sociais em um continente onde continuam sendo muito necessárias. O problema será abordado durante o encontro que Lula e o papa terão amanhã, segundo anunciou o presidente brasileiro, que bem pode servir de amostra da igreja no Brasil: o presidente declara-se católico, mas de esquerda. Conhece tanto cardeais como importantes teólogos progressistas. Tem uma filha fora do casamento, mas se confessa devoto de São Francisco de Assis e da padroeira do Brasil. Lula explicou que pretende “discutir com o papa as políticas sociais que estamos desenvolvendo no Brasil para que ele, como a pessoa mais importante da Igreja Católica, possa ajudar a disseminar essas boas políticas públicas pelo mundo”. No entanto, o papa chega à América Latina consciente de que desta vez o principal rival está no campo contrário e não no próprio. A “teologia da libertação” não conseguiu vencer sua disputa com o Vaticano, e Roma a considera uma etapa praticamente superada. Prova disso é a importância que os brasileiros voltaram a ter na hierarquia depois de 27 anos - que coincidiram com o pontificado de João Paulo II - em que estiveram excluídos tanto da presidência da Celam como de outros órgãos de decisão institucional. Horas antes de voar para seu país a bordo do avião papal, o cardeal Hummes indicou outro tema, em princípio fora da agenda, que poderá marcar a nova viagem de Bento XVI: a “preocupação” do papa com a aliança ideológica entre Fidel Castro e o presidente venezuelano, Hugo Chávez. Em uma entrevista concedida no domingo a um grupo de mídia do Brasil, o cardeal advertiu contra “o populismo e a demagogiA?Ø??????????a”, que em sua opinião estão se ampliando, “quando se pensava que a América Latina conseguiria fortalecer suas democracias”. Interpelado sobre se Chávez entra nessa categoria, Hummes respondeu: “Claro. Também é a forma como se relaciona com Cuba. Tudo isso preocupa”.
O roteiro do papa Bento XVI no Brasil
O papa Bento XVI chega hoje a São Paulo e ficará hospedado no Mosteiro de São Bento. Ele desembarcará no aeroporto internacional de Guarulhos, por volta das 16h30, e será recepcionado por autoridades brasileiras. Do aeroporto, seguirá de helicóptero até o Campo de Marte, onde o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL), entregará a chave da cidade. O trajeto do Campo de Marte até o mosteiro será feito pelo papa-móvel. A previsão é que Bento XVI chegue ao mosteiro por volta das 19h, e entre pela basílica de São Bento. O abade do mosteiro, d. Mathias Tolentino Braga, recepcionará o papa na basílica e o levará até a capela do Santíssimo, onde farão uma oração. Depois, Bento XVI será levado até a sacada da sala de visita do Colégio São Bento, onde fará uma saudação para quem eventualmente estiver no largo São Bento. No dia seguinte, Bento 16 terá um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, depois, com jovens no estádio do Pacaembu. No dia 11, o papa participará de uma missa no Campo de Marte, também em São Paulo. Na ocasião, o frei franciscano Antônio de Sant’Anna Galvão (1739-1822), o frei Galvão, será canonizado por Bento XVI. No mesmo dia, o papa terá uma reunião com o episcopado brasileiro. No dia seguinte, ele seguirá para Aparecida (SP), onde ficará hospedado no Seminário Bom Jesus. Na cidade vizinha ao santuário de Aparecida —Guaratinguetá—, Bento XVI visitará um centro de recuperação de viciados em drogas, a Fazenda da Esperança, e, depois, já na basílica de Nossa Senhora Aparecida, rezará um rosário. No dia 13, o papa celebrará uma missa de abertura da 5ª Celam (Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe), dará início aos trabalhos da conferência e discursará aos presentes no encontro. No mesmo dia, ele regressa ao aeroporto internacional de Cumbica, em Guarulhos (Grande São Paulo), para o embarque de retorno a Roma. A Celam prossegue até o dia 31 de maio. Esta é a segunda vez que Bento 16 visitará o Brasil. A primeira foi em 1990, quando ocupava o cargo de prefeito da Congregação da Doutrina da Fé. O então cardeal Joseph Ratzinger assistiu na época a um encontro de bispos brasileiros. Às vésperas da chegada do papa ao Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, em entrevista a 154 emissoras de rádio católicas, que o Estado não pode ficar alheio ao problema do aborto, embora ele próprio seja contrário à interrupção voluntária da gravidez. Na entrevista, Lula disse que os jornais não têm “ética” para se desculpar com aqueles que foram acusados injustamente, rebateu as críticas da CNBB à política econômica, atacou indiretamente o MST e afirmou que pedirá à base do governo que não aprove a redução da maioridade penal para 16 anos. Sobre o aborto, Lula disse que tem duas posições. Eu tenho a posição de pai e de marido, e de cidadão, e tenho um comportamento de presidente da República. São duas coisas totalmente distintas. Primeiro, eu tenho dito, na minha vida política, que sou contra o aborto. Tenho dito publicamente. E tenho dito publicamente que não acredito que ninguém faça aborto por opção ou por prazer. É importante que a gente saiba dimensionar quando uma jovem desesperada, numa gravidez indesejada, corre à procura de um aborto... Se nós tivéssemos, no Brasil, um bom processo de planejamento familiar, de educação sexual, possivelmente nós não tivéssemos a quantidade de gravidez indesejada que temos no Brasil hoje. Entretanto, quando ela existe, o Estado precisa tratar isso como uma questão de saúde pública, porque a história também nos ensina que, muitas vezes, no desespero e por falta de orientação, muitas meninas se matam precocemente. Eu conheço casos de meninas que perfuraram o útero com agulha de fazer tricô... O Estado não pode ficar alheio a uma coisa que existe, que é real, e não dar assistência para essas pessoas.” Lula foi questionado sobre o documento da CNBB com críticas à política econômica. “Até a Conferência Nacional dos Bispos (do Brasil) pode cometer injustiças. Eles também não são pessoas acima da normalidade do ser humano. ” E elogiou o atual momento econômico.
Na era Bento XVI, padre Marcelo grava clássicos
O rock e a música pop receberam a condenação do então cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI. A música clássica e o canto gregoriano, por outro lado, foram consagrados por ele como apropriados para a liturgia católica. Coincidência ou não, o padre-cantor Marcelo Rossi, pop-star da Igreja Católica brasileira, começa a preparar sua estréia na música clássica, num projeto desenvolvido pelo maestro João Carlos Martins. Eles se conheceram há poucas semanas para acertar a participação do padre em uma apresentação no clube A Hebraica, da comunidade judaica de São Paulo, em 15 de maio. Logo a conversa progrediu para o projeto de um CD ainda este ano. “A idéia é fazer Bach visitando Tom Jobim”, conta o maestro. “Quero que tenha um repertório que o padre Marcelo possa cantar algumas peças de Bach”, disse, citando o famoso coral “Jesus, alegria dos homens”. O compositor alemão barroco Johann Sebastian Bach, nascido em 1685, era protestante e autor de vasta obra sacra. João Carlos Martins é católico, mas não frequenta a igreja e se diz fã de padre Marcelo, que já gravou sete CDs de música religiosa com arranjos populares, vendendo 8 milhões de unidades. Para o padre Marcelo, essa é a frente que faltava na sua experiência artística. Ele atuou no cinema, apresenta programas religiosos em rádio e TV e está ansioso com a música clássica. Para a gravação do CD ele fará treinamento vocal, informou o maestro. O padre-cantor chegou a receber em 2002 o prêmio pop Grammy latino para música cristã, estimulando ainda mais controvérsia sobre sua pregação - que ele defende como “totalmente ortodoxa”. Padre Marcelo vai se apresentar na sexta-feira ao público católico que fará vigília no Campo de Marte, na capital paulista, antes da missa em que o Papa vai canonizar frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil.
Bento XVI tenta manter aproximação com a juventude
O papa Bento XVI tem tentado manter a aproximação com a juventude estabelecida por João Paulo II, numa clara preocupação com o futuro da Igreja Católica. Ele deu continuidade às jornadas mundiais da juventude, megaeventos criados em 1985 pelo papa polonês como uma nova evangelização, um instrumento para fortalecer os jovens católicos. Segundo o vaticanista Ignazio Ingrao, a juventude continua muito importante para o Vaticano, mas Bento XVI encontrou uma maneira própria de se comunicar com os jovens. Na sua avaliação, a mensagem do papa atual mostra continuidade com o magistério de João Paulo II, mas por meio de relações mais pessoais, em vez de contatos com as grandes massas. “Seu discurso, no entanto, é muito mais exigente, principalmente, do ponto de vista moral”, afirma Ingrao. “O papa está tentando construir uma relação nova, diferente, com a juventude. Ele diz coisas difíceis, mas usa palavras simples com grande poder comunicativo.” O consultor do Vaticano e delegado da Pastoral Juvenil de Roma, Cesare Bissoli, lembra que Bento XVI teve sua primeira prova frente à juventude quatro meses depois de ser eleito papa durante a jornada de Colônia (Alemanha), sua primeira viagem ao exterior após assumir o trono de São Pedro. “O encontro foi feito com alguma incerteza, porque muitos jovens compareceram em nome da memória de João Paulo II”, lembrou. “Mas, apesar de ser mais sóbrio e não ter o mesmo carisma, Bento XVl não decepcionou. Quando fala aos jovens, ele é encorajador.” Numa visita ao Vaticano, o arcebispo de Maringá, Anuar Battisti, revelou que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) está lançando um documento sobre evangelização da juventude brasileira. “O jovem gosta de novidades, de ser desafiado na proposta evangélica. A Igreja está preocupada com isso”, disse dom Anuar, que também é presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e Vida Consagrada da CNBB. “Nesse documento, vamos apresentar aos jovens o verdadeiro rosto de Cristo e do Evangelho.” Durante a sua visita ao Brasil, o papa se reunirá com 30 mil jovens brasileiros, amanhã, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, e receberá formalmente o pedido para que a Jornada Mundial da Juventude de 2011 seja realizada no Brasil. Conforme o vaticanista Ignazio Ingrao, esse encontro será uma prova interessante para o papa, que estará próximo de uma realidade muito diferente da européia. Bento XVl, de acordo com Ingrao, deverá falar de temas sociais, de justiça, do crescimento das seitas religiosas, assuntos que até agora pouco apareceram em seus discursos nos dois anos de pontificado. Ele deverá também fazer um chamado aos jovens brasileiros a retornar ao que o Vaticano considera a autenticidade da mensagem do Evangelho, da mensagem cristã católica.
CNBB defende missa pela internet
A nova direção da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), considerada de perfil moderado, vai apresentar ao papa Bento XVI, durante encontro com bispos em Aparecida (167 km de SP), um projeto nacional de evangelização que propõe discutir a possibilidade da transmissão on-line de missas. O ato da eucaristia transmitido por meio de recurso audiovisual, contudo, “não tem valor espiritual”, segundo o próprio Bento XVI afirmou em seu documento Sacramentum Caritatis (Sacramento do Amor), de fevereiro deste ano. Além da transmissão de missas na internet, a possibilidade de promover cursos de teologia por videoconferência é defendida pelos novos presidente e secretário-geral da CNBB, d. Geraldo Lyrio Rocha e d. Dimas Lara, como meio de atrair jovens e divulgar a fé cristã. A internet, um dos cinco temas do documento “Evangelização da Cultura”, aprovado pela CNBB, será debatida durante os primeiros dias da 5ª Conferência Geral do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano). “Não dá mais para falar em evangelização dos jovens sem discutir a internet. É um assunto muito novo para todos nós, é necessária a consciência de cada fiel para não usar (a Internet) de forma indevida. Mas é óbvio que o uso da internet para divulgar a fé é um dos principais temas para o encontro em Aparecida”, afirmou o secretário-geral da CNBB, d. Dimas Lara. Apesar de o próprio Vaticano ter página na internet há 10 anos, a missa assistida em casa “não permite o encontro do fiel com o Senhor”, como admite o padre Augusto César Pereira, da comissão de comunicação da CNBB, com base na exortação “Sacramento do Amor”. Bento XVI reforçou no documento a necessidade de o fiel estar presente nas missas. “Neste ato (missa) pessoal de encontro com o Senhor amadurece logo também a missão social contida na eucaristia e que quer romper as barreiras não só entre o Senhor e nós, mas também e sobretudo as barreiras que nos separam uns aos outros”, disse o papa. “Eu pessoalmente considero que 15 minutos de tempo para divulgar a fé cristã por meio A?m?a?h??????¹????????%da TV ou computador tem efeito catequizador maior que uma hora de missa”, afirmou Pereira, que comanda a paróquia São Judas Tadeu, no Jabaquara (zona sul). O novo presidente da CNBB defende a internet como instrumento de evangelização. Mas d. Geraldo, em sintonia com o discurso papal, diz que “sem a experiência de um encontro vivo com Jesus Cristo nas celebrações das missas ninguém se torna seguidor dele.” O bispo considera, entretanto, que a igreja tem de aprender a explorar melhor a internet. “Os próprios jovens que usam tão bem esse instrumento devem ser os divulgadores de Cristo nos espaços virtuais.”
Juventude baiana faz maratona rumo a São Paulo para saudar o pontífice
Movidas pelo desejo de unir os corações em oração junto ao papa Bento XVI, mais de 100 pessoas devem deixar, até amanhã, a capital baiana com destino a São Paulo. Entre elas, um grupo de 25 jovens do Movimento Católico Pontos Coração, que partirão nesta madrugada com o objetivo de participar do encontro com jovens, no Estádio Municipal do Pacaembu, e da cerimônia de canonização do beato Frei Galvão, prevista para a manhã de sexta-feira, no Campo de Marte. O papa desembarca hoje à tarde no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Para poderem estar mais próximos do Papa, os jovens tiveram que se esforçar para arrecadar fundos. Foram mais de 30 dias de promoção de rifas e atividades. “Contamos também com doações de algumas entidades. Alguns jovens tiraram do próprio bolso o valor da passagem. Um esforço válido para ver de perto o papa”, disse Esperança Pardo, 28, missionária e assistente de comunicação do Pontos Coração. Em São Paulo, o grupo se hospedará em uma das sedes do Pontos Coração e em uma casa cedida por uma amiga do Movimento. “Nós ficaremos divididos entre a casa da sede e a casa cedida gentilmente por esta senhora. Nos programamos para participar do encontro, no Pacaembu, e da canonização do Frei Galvão”, explicou. Pensando em economizar nas passagens, todos devem viajar por volta das 3 horas da madrugada. O primeiro grupo, composto pelo padre Gaëten Jaire, da Paróquia de Santana, no Rio Vermelho, e mais dois jovens já viajou na madrugada da última segunda-feira. Outras sete pessoas viajaram na madrugada de hoje e o último grupo viaja às 3 horas da madrugada de amanhã. “O grupo foi dividido por questões mesmo de passagens. Tentamos economizar ao máximo para que os valores arrecadados fossem o suficiente para a nossa alimentação e outras despesas por lá”, completou Pardo. A volta está prevista para a madrugada do próximo domingo e segunda-feira. Missionária do grupo, a administradora Ana Carla Pedra, 28 anos, disse ser motivada pelo desejo de orar em conjunto com outros membros da Igreja. “Estarão todos lá unidos em uma só fé. Acho que, nesse momento, seremos um só coração juntos em um mesmo propósito. Uma só família”, disse. Ana não irá levar nada, em especial, para que o papa abençoe, como farão muitos católicos. Para ela, a razão maior é estar diante da presença de sua santidade. “Acho que o que vale é a presença do papa entre nós. É sentir a presença dele e ouvir o que ele tem a nos dizer. Acho que essa é a verdadeira razão dessa viagem, é a oportunidade de percebermos que fazemos parte de um só corpo perante a Igreja”, disse. A argentina Valéria Rivero, 26 anos, está em Salvador há 7 meses. Integrante do grupo, ela viajou na madrugada de hoje cheia de expectativas. “Estamos há um mês programando esta saída. Acho que será um momento de unir todas as representações da Igreja diante da nossa maior autoridade: o papa”, afirmou. O momento, para Rivero, é de crescimento do catolicismo no Brasil. “Acho que está existindo uma mobilização muito grande dos jovens quanto a visita do papa. Acho que a chegada dele no Brasil deverá reacender a fé dos jovens, poderá despertar os jovens para o amor existente na igreja. É um momento de crescimento em harmonia da fé do povo brasileiro”, opinou.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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