domingo, maio 13, 2007

JORNALISMO E DESINFORMAÇÃO

Por Fábio de Oliveira Ribeiro 13/05/2007 às 19:32
Resenha do livro do jornalista Leão Serva.
Leão Serva escreveu um livro que, num país civilizado, seria leitura obrigatória no segundo grau. Além de bem escrita, a obra cumpre a insuperável finalidade de ensinar a ler, a interpretar e a preencher as lacunas dos textos que diariamente circulam com a finalidade de possibilitar ao cidadão exercer sua cidadania. No primeiro capítulo Serva trata do ?pecado original? do procedimento jornalístico. Após descrever de maneira detalhada como os conflitos nos Balcãs se renovam e são sempre apresentados como novidades, demonstrando como o jornalismo expulsa a história do cotidiano do leitor, o autor assevera que as ?...as notícias não deixam ver a história. Ao contrário, o sistema das notícias encobre a lógica profunda que está por trás da cortina de novidade.? Sendo assim, ao ler seu jornal e revista diária lembre-se que toda notícia é como um recorte de uma realidade continua, que a mesma não pode ser corretamente lida sem ser inserida no seu contexto espacial e temporal. No capítulo 2, o jornalista trata das limitações impostas ao jornalismo. ?O jornalismo tem como matéria-prima o fato novo, desconhecido, que pode causar surpresa. E que por isso é confuso, incompreensível, caótico.? Desta definição podemos inferir que, em razão de sua própria finalidade e característica, o jornalismo está fadado a mutilar a realidade e a história. Leão Serva deixa bem claro que ao invés de procurar proporcionar ao leitor uma compreensão profunda dos fatos que enuncia, o jornalismo se preocupa apenas com a novidade. ?A novidade é a alma do negócio da imprensa. Nessa busca pela novidade, mesmo velhos fatos devem aparecer vestidos de novos, maquiados para voltar a surpreender.? Durante o curto período da minha existência, acompanhei os seguintes conflitos militares em que os americanos participaram direta ou indiretamente : Vietnan, Granada, Nicaragua, Panamá, El Salvador, Somália, Iraque, Afeganistão e Iraque novamente. A cobertura das guerras americanas sempre foi feita como se cada conflito fosse uma novidade, não parte da lenta e laboriosa construção de um império global. O imperialismo sempre foi retratado pela imprensa como sendo coisa dos comunistas. Durante a Guerra Fria, não havia espaço para reflexão na grande imprensa. O conflito leste\oeste era retratado como EUA\capitalismo\bem x URSS\comunismo\mal. Mas a Guerra Fria acabou e agora até os capitalistas são comunistas e aliados dos EUA, mesmo assim uma parte da imprensa se recusa a tratar os novos conflitos dos EUA como fruto de seu imperialismo. A lógica do conflito capitalismo x comunismo, foi trocada por outra mais explosiva cristãos x islâmicos. E é evidente que neste contexto os EUA novamente se identificam com o bem, muito embora até as autoridades americanas já admitam que comandam um império. Em seu livro CRONICAS DA ERA BUSH, Eliot Weinberger, relata que um consultor sênior de Bush II disse ao jornalista Ron Suskind que ?...somos um império agora e, quango agimos, criamos nossa própria realidade. E, enquanto você estiver estudando esta realidade, agiremos mais uma vez, criando outras novas realidades, que você poderá analisar também.? Mas é evidente que o imperialismo americano não é novidade (os conflitos do Vietnan, Granada, Nicaragua, Panamá, El Salvador, Somália, Iraque, Afeganistão e Iraque novamente, que o digam). A novidade é que os próprios americanos já admitem o imperialismo americano que a imprensa nega. Não pedirei desculpas pela longo desvio. Na verdade esta digressão é fruto de uma reflexão amadurecida a partir da leitura de JORNALISMO E DESIMFORMAÇÃO. No capitulo seguinte, Leão Serva afirma que através da imprensa ?...o caos se harmoniza, se ?civiliza? nas páginas de jornal ou no noticiário do rádio, da TV, da Internet ou de qualquer meio que se preste à informação.? O jornalista tem razão e não tem. Quando a atenção da cobertura jornalística se divide igualmente em face dos diversos fatos em curso, sua tese pode ser considerada verdadeira. Mas quando o noticiário se concentra freneticamente sobre um único evento a própria imprensa produz um caos artificial em que fatos relevantes continuam a ocorrer sem o conhecimento dos cidadãos (ou em razão deste mesmo desconhecimento). Foi o que ocorreu em relação a visita de Bento XVI o Brasil. A imprensa fez uma cobertura frenética, intensa e incessante dos passos do Papa. Em contrapartida, demonstrou uma imensa falta de interesse pelos outros fatos que também afetam as vidas dos cidadãos. No final de 2006 a imprensa ajudou barrar o aumento abusivo dos salários dos Deputados e Senadores ao fazer a cobertura daquele fato. Pouco depois, em razão de dar muito espaço ao Papa a própria mídia deu aos Deputados e Senadores uma oportunidade de ouro que eles souberam usar para aumentar seus vencimentos e nossas despesas. Como o aumento se tornou fato consumado, a imprensa não se interessará mais pelo assunto porque o mesmo não é novidade. Mesmo que tenham para o contribuinte um impacto financeiro desproporcional à cobertura (aumento dos salários dos Deputados e Senadores x visita de Bento XVI), as notícias são narradas segundo uma lógica. Uma lógica desconhecida do leitor. Por isto Leão Serva esclarece que a ?...a classificação da notícia corresponde a um paradigma, uma associação com outras notícias e uma localização no plano de edição. Essa localização conota já algo sobre aquela notícia, pois o paradigma em que se inclui um texto determina todo o processamento e a compreensão posterior dessa informação pelo leitor - mais ou menos como dizer da reportagem ou do fato em si: ?Dize-me com quem andas e te direi quem és?.? Mas é evidente que nem mesmo o artifício da edição é capaz ampliar os limites do procedimento jornalístico. ?Ao processar as notícias em função de sua capacidade de surpreender, os jornais deixam de buscar em primeiro lugar uma compreensão genuína dos acontecimentos - que poderia tirar a surpresa do leitor diante do fato.? Novidade e surpresa são essenciais à atividade jornalística. É por isto que o jornalismo sozinho não pode nos ajudar a compreender a realidade. A compreensão desta demanda uma profundidade de análise e verificação de antecedentes que são incompatíveis com o dia-a-dia de uma redação. A conclusão a que o autor chega é primorosa. ?A necessidade de surpreender e os procedimentos usados pelo meio para esse fim explicam em parte a existência de tantos leitores que, embora metralhados diariamente por um sem-número de informações, nem por isso compreendem realmente a natureza dos fatos que consomem.? É preciso dar a devida atenção ao vocábulo ?consomem?. Ao usar o mesmo o autor deixa claro que antes de ser um bem cultural a informação jornalística é um produto, uma mercadoria. Em termos marxistas, a notícia seria considerada uma mercadoria muito especial, porque não só produz alienação no seu produtor mas também seu consumidor. No capítulo 4 Leão Serva procura esclarecer de maneira detalhada os procedimentos através dos quais a imprensa produz desinformação. São eles: omissão, sonegação e submissão da informação. ?Pode-se chamar omissão a ausência de informação, de qualquer natureza, causada por falta de condições do órgão de imprensa de obtê-la.? A omissão é, portanto, uma limitação material ou econômica. ?Por sonegação entende-se aquela informação que, sendo de conhecimento do órgão de imprensa, não foi colocada na edição por alguma razão.? A sonegação não é fruto de uma limitação, mas de uma escolha consciente. ?Por submissão entende-se o fato que, embora noticiado, tem uma edição que não permite ao receptor compreender e deter a sua real importância ou mesmo seu significado.? A submissão pode ser fruto de uma limitação material desprezada em benefício da divulgação da informação parcialmente desconhecida. Mas também pode ser fruto de uma escolha consciente de dar menos ênfase a um assunto considerado sensível aos interesses do veículo. Além dos casos de omissão, sonegação e submissão, a informação pode sofrer deformação. Leão Serva classifica corretamente a deformação como um caso extremo de submissão. ?Quando a desinformação gerada por alguns casos de submissão é tão grande que chega a provocar a compreensão errada da informação, isso poderia ser chamado de deformação da informação.? Já a desinformação funcional ?...corresponde a um fenômeno definido pelo fato de que as pessoas consomem informação através de um ou mais meios de comunicação, mas não conseguem compor com tais informações uma compreensão do mundo ou dos fatos narrados nas notícias que consumiram.? Curiosamente, a deformação funcional pode ser produzida pela própria imprensa na media em que a ?...necessidade de surpreender e os procedimentos usados pelo meio para esse fim explicam em parte a existência de tantos leitores que, embora metralhados diariamente por um sem-número de informações, nem por isso compreendem realmente a natureza dos fatos que consomem.? Nos capítulos 5, 6, 7 e 8 o autor trata de diversos outros fenômenos jornalísticos que ajudam ao leitor compreender como a imprensa pode paradoxalmente realizar um propósito diferente do qual a se destina. A saturação e neutralização, redução do fato e de sua compreensão, o volume de cobertura e a forma utilizada pela imprensa também podem desinformar. Apesar de ter assunto para muitas outras linhas, encerro esta resenha e remeto o leitor à obra cuja leitura é fundamental. Fábio de Oliveira Ribeiro
Email:: sithan@ig.com.br URL:: http://www.revistacriacao.cjb.net

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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