SÃO PAULO - O delegado federal Protógenes Queiroz denunciou ao Ministério Público Federal que foi afastado do inquérito Satiagraha. Em documento de 16 páginas que protocolou na Procuradoria da República em São Paulo, o delegado queixou-se formalmente sobre "obstrução às investigações do caso".
Na representação, ele tenta desmontar a versão da cúpula da Polícia Federal. Por ordem expressa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a corporação divulgou trechos gravados de reunião fechada para tentar afastar a suspeita de pressões políticas sobre a investigação.
A Operação Satiagraha, deflagrada no dia 8, desmontou o que a PF chama de "organização criminosa", que seria comandada pelo banqueiro Daniel Dantas. Além de Dantas, foram presos o investidor Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta e 15 dos outros 21 investigados. Só dois continuam presos. O esquema envolveria desvio de recursos públicos, corrupção, fraude, gestão fraudulenta de instituição financeira, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Protógenes levou seu desabafo à procuradoria na tarde de quinta-feira, ao mesmo tempo em que a direção-geral da PF divulgava, em Brasília, diálogos selecionados do encontro que ele manteve com superiores na noite de segunda-feira. A reunião ocorreu na sede da corporação, em São Paulo. A parte dos áudios liberada - menos de 3 minutos, de 2 horas e meia de discussão - sugere que o delegado deixou o caso espontaneamente para fazer um curso de especialização. Mas não é isso que ele alega.
Diante da representação de Protógenes, os procuradores da República Anamara Osório Silva e Rodrigo de Grandis pediram a abertura, pelo Ministério Público Federal em São Paulo, de um procedimento administrativo de controle externo da atividade policial para apurar a denúncia do delegado.
A representação, dividida em tópicos, foi distribuída ao procurador da República Roberto Antonio Dassié Diana, coordenador do grupo de controle externo do Ministério Público. No documento, Protógenes afirma ter sido afastado das investigações e queixa-se, principalmente, de falta de recursos humanos e materiais para a condução da investigação.
Íntegra
No início da semana, o diretor de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, delegado Roberto Troncon, já se comprometera a entregar ao Ministério Público a íntegra da gravação feita na reunião da PF, na qual foi decidida a saída de Protógenes do caso Dantas. A gravação será um dos elementos que poderão ser usados para instruir a apuração.
Diana anotou que a representação de Protógenes descreve fatos sigilosos da Operação Satiagraha. "Meu trabalho é abrir um procedimento para realizar a função de controle externo da atividade policial, que constitucionalmente cabe ao Ministério Público fazer", afirmou.
O procurador não quis se manifestar se há crime a ser investigado com base na representação. "Ainda estou analisando os fatos. Vou verificar desde uma possível falta administrativa até um crime", declarou. Ele não descartou a possibilidade de buscar mais informações sobre o caso antes de decidir o destino da representação.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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