quarta-feira, junho 25, 2008

Ruth Cardoso morre aos 77 anos em São Paulo

Ex-primeira-dama foi vítima de um infarto. Em vida, ela se dedicou ao trabalho social durante os oito anos da gestão FHC


SÃO PAULO - A ex-primeira-dama e antropóloga Ruth Cardoso morreu na noite de ontem, aos 77 anos, vítima de um infarto em seu apartamento, em São Paulo. A informação foi confirmada pelo presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). Mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ela havia sido internada no último fim de semana no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, mas recebeu alta anteontem, após ter sido submetida a um cateterismo.
Ruth havia tido problemas cardíacos antes e estava internada para realização de vários exames, a pedido de seu cardiologista. A assessoria da ex-primeira-dama informou no dia seguinte ao da internação que os resultados do cateterismo mostraram que não haveria necessidade de uma intervenção cirúrgica. Por causa da internação de Ruth, FHC não compareceu no último domingo à convenção municipal do PSDB.
O Palácio do Planalto divulgou nota em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamenta a morte da ex-primeira-dama Ruth Cardoso: “Recebi com surpresa e pesar a notícia do falecimento de dona Ruth Cardoso. É difícil acreditar que aquela intelectual determinada que conheci muitas décadas atrás, com convicções firmes, gestos nobres e ao mesmo tempo sensibilidade para o drama da desigualdade social, tenha nos deixado. É uma grande perda para o país”.
O PSDB cancelou os eventos em comemoração aos 20 anos do partido, programados para hoje. “Estamos de luto. Não há o que comemorar”, disse Guerra, ao site oficial do PSDB. “É uma perda muito grande para o PSDB e para o Brasil. Ela era uma grande personalidade, uma pessoa admirável. É um consenso entre todos os brasileiros que dona Ruth fará muita falta ao país”, complementa.
Luto oficial - O governador de São Paulo, José Serra, decretou luto oficial de três dias no estado. “A Ruth era uma pessoa muito especial, para sua família, para seus amigos, para nosso país. Um exemplo de dignidade, delicadeza, inteligência e carinho pelas pessoas. É uma dor imensa a que sinto nesse momento. Nossa, como vai fazer falta”, declarou Serra, em nota divulgada pelo Palácio dos Bandeirantes.
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), também divulgou nota destacando que a ex-primeira-dama foi “um exemplo da mulher contemporânea, capaz de conciliar uma intensa atividade pública como intelectual, pesquisadora e docente a uma vida familiar que era um exemplo de austeridade, retidão e grandeza”.
“Depois de muitas décadas ensinando gerações de estudiosos das ciências sociais no Brasil, como primeira-dama, ela encontrou energia para criar a Comunidade Solidária, um projeto importantíssimo que se enraizou no país e que será uma herança genuína e duradoura ao lado de sua importante obra acadêmica. A seus familiares, expresso a solidariedade de todos os paulistanos neste momento de dor”, acrescenta a nota de Kassab.
Na mesma linha de Kassab, o presidente da Assembléia Legislativa do estado de São Paulo, deputado Vaz de Lima (PSDB) ressaltou que durante toda a sua vida, Ruth Cardoso foi um exemplo de seriedade intelectual, moral e política. Segundo nota divulgada por Vaz de Lima, dona Ruth “produziu uma vasta e fundamental obra para a compreensão da realidade brasileira em suas diversas dimensões”. Destaca ainda que ela “levou para a vida pública uma inabalável determinação para encontrar e construir caminhos para superar os graves problemas sociais de nosso país”, afirmou. (AE)
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Uma vida pelo social
Quando assumiu o posto de primeira-dama em 1995, a professora e pesquisadora Ruth Correia Leite Cardoso se destacou desde o início pelo temperamento discreto. Bem diferente da então mulher do presidente Fernando Collor de Mello, Rosane Collor, envolvida em escândalos nos anos em que esteve à frente da Legião Brasileira de Assistência (LBA) e conhecida pelo estilo espalhafatoso com o qual aparecia na mídia.
Nascida em 19 de setembro de 1930, em Araraquara, no interior paulista, dona Ruth, como ficou conhecida, obteve título de doutora em antropologia em 1972 pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Dos estudos acadêmicos voltados à juventude, movimentos sociais, cidadania e trabalho, retirou toda a experiência para a forte atuação que teve junto aos movimentos sociais nos oito anos da gestão de Fernando Henrique Cardoso.
No primeiro ano de FHC no comando do Palácio do Planalto, Ruth Cardoso funda e preside a ONG Comunidade Solidária (atual Comunitas), ligada ao combate à pobreza e à exclusão social, cargo que abandonaria somente em 2002, com o fim do segundo mandato do marido. Atualmente, era membro do conselho diretor da entidade.Ruth Cardoso conheceu FHC no início dos anos 50, nos tempos em que o futuro presidente era um dos mais proeminentes estudantes de sociologia da USP. Casaram-se em 1953 e tiveram três filhos. Após a conclusão do doutorado em antropologia, dedica-se quase que exclusivamente aos trabalhos acadêmicos, publicando diversos livros sobre voluntariado, movimentos de imigração e sociedade civil organizada, entre outros temas.
Ainda nos anos 70, conclui pós-doutorado em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova York (EUA), e passa a atuar como professora e pesquisadora de diversas instituições do Brasil e do exterior. Entre elas, a USP, a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, ligada à Unesco, a Universidade do Chile e a Universidade de Berkeley, na Califórnia, sempre vinculada aos estudos dos movimentos sociais.
A ex-primeira-dama era ainda membro associado do Centro para Estudos Latino-Americano da Universidade de Cambridge (Inglaterra) e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo. Ruth Cardoso assumiu ainda cargos de grande relevância, a exemplo da presidência do Conselho Assessor sobre Mulher do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e integrou a direção das comissões da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre o impacto da globalização na sociedade.
Nos últimos anos, rompeu o silêncio ao qual se impôs após o fim da era FHC, para protestar contra o que considerou “exploração política” no caso das investigações, comandadas pela Casa Civil, sobre gastos pessoais de familiares de FHC nos dois mandatos do ex-presidente.
Freqüentemente lembrada pela cautela com a qual permaneceu no posto de primeira-dama, nas poucas vezes em que se manifestou em público, a antropóloga ficou conhecida pela frases de efeito, uma delas bastante utilizada pelos líderes de ONGs nos anos 90: “Política social não se faz somente com dinheiro. É necessário ter muita criatividade para possuir sempre idéias novas”.
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Políticos baianos lamentam morte
Osvaldo Lyra
Políticos baianos lamentaram ontem a morte da ex-primeira-dama Ruth Cardoso. O governo do estado emitiu uma nota oficial de pesar. Através de sua assessoria de imprensa, o governador Jaques Wagner disse que, “em nome dos baianos, levava um abraço solidário ao ex-presidente Fernando Henrique e a toda a sua família pela perda de uma pessoa que soube desempenhar o papel de primeira-dama ao longo dos oito anos do governo do marido”.
De Zaragoza, na Espanha, por telefone, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), também lamentou profundamente a morte de Ruth Cardoso. Segundo o ministro, ele possuía uma relação “muito próxima com ela” e com o ex-presidente da República, mesmo após o fim da gestão FHC. “Com a morte da ex-primeira-dama, o Brasil perde uma mulher que contribuiu e muito para o país”, destacou.
Grandeza - O líder do Democratas na Câmara Federal, deputado ACM Neto, ressaltou a importância de Ruth Cardoso para o desenvolvimento social brasileiro. “Seja como intelectual, seja na militância das causas sociais, principalmente na educação, a dona Ruth ficará marcada na história. Como primeira-dama, ela pôde exercer com grandeza seu papel ao lado do marido. Sem contar que ela foi responsável pela construção de uma rede social consolidada, através da Comunidade Solidária”. O deputado ACM Neto lembrou ainda que ela foi responsável pela fundação de diversas organizações não-governamentais (ONGs) com fins sociais, como o Comunitas, que combate a pobreza e a exclusão social.
O ex-prefeito de Salvador e presidente da executiva estadual do PSDB, Antonio Imbassahy, disse estar bastante triste com a morte da ex-primeira-dama. De acordo com ele, “dona Ruth possuía uma visão humanista, tendo introduzido práticas modernas na construção de oportunidades para muitos brasileiros que viviam à margem da sociedade”. O presidente estadual tucano lembrou ainda da postura discreta da ex-primeira-dama e da passagem dela pela Bahia. “Tanto aqui em Salvador quanto no interior do estado, ela se encontrava conosco para discutir projetos e programas voltados aos jovens. Portanto, é uma perda que todos sentiremos”.
Fonte: Correio da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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