terça-feira, novembro 27, 2007

Desespero e destempero

Por: Carlos Chagas

BRASÍLIA - O diagnóstico não é do PT, muito menos do presidente Lula, de seus ministros e dos partidos da base oficial. Por incrível que pareça, colhe-se no ninho dos tucanos, ainda que em surdina. Falamos da repercussão dos ataques feitos ao governo e ao seu chefe pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Só pode ser desespero, como justificativa do destempero.
Ao declarar no encerramento da Convenção Nacional do PSDB que "não podemos ser liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria", entre mil outras expressões de virulência, o sociólogo dá mostras de estar desesperado. Além, é claro, de haver apresentado demonstrações de senilidade.
A começar por José Serra, Aécio Neves, Cássio Cunha Lima e outros governadores do partido, o Alto Tucanato rejeita os vitupérios do ex-presidente, para os quais só há uma explicação, fora o peso da idade: o seu ego dimensionado ao infinito não aceita estar sendo a próxima sucessão presidencial equacionada sem ele.
Fernando Henrique Cardoso julga-se o maior e mais competente de todos os presidentes da República. Nesse aspecto, iguala-se ao Lula, mas com uma diferença fundamental: o atual presidente é e até poderá continuar sendo, caso adote a estratégia do antecessor, de mudar as regras do jogo depois do jogo começado. O ex-presidente foi e jamais voltará a ser.
Magalomania, esquizofrenia, paranóia - tanto faz o rótulo que a psicologia possa encontrar, mas a verdade é que agredindo o presidente Lula por não haver freqüentado a universidade ou sequer o ensino de segundo grau FHC ofendeu mais de 80% dos brasileiros. Dividiu o País em duas categorias: ele e os que possuem diploma universitário, e o resto.
Em especial os governadores de São Paulo e de Minas, candidatos óbvios à sucessão de 2010, o Alto Tucanato inteiro torceu o nariz ao ouvir o bestialógico elitista do antigo companheiro. Porque fazer oposição, mesmo dura e contundente, é uma coisa. Discriminar, outra bem diferente.
Transformou-se em perplexidade a Convenção Nacional do PSDB, quando poderia ter marcado o início de uma nova etapa rumo ao poder. Deram os tucanos, sem querer, argumentos de sobra para o presidente Lula e o PT sedimentarem a maioria do eleitorado em seu favor: de um lado, a nação dos doutores presunçosos e arrogantes; de outro, o povo.
As semanas também
Mestre Helio Fernandes escreveu, faz muito, que no Brasil o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera. Pois com as semanas parece acontecer o mesmo, com ênfase para os seus finais. No que passou, assistimos o PSDB desligar-se ainda mais do sentimento nacional ao sustentar que só poderão governar o País aqueles que possuem diploma universitário, praticam uma gramática escorreita e falam mais de uma língua.
Para o próximo, anuncia-se a Convenção do PT, imaginando-se o que sairá do diálogo entre os companheiros. Pode ser até a reafirmação da proposta de extinção do Senado, da instituição da democracia direta através de plebiscitos e referendos permanentes, quem sabe até a defesa do terceiro mandato.
Salvo inusitados, Ricardo Berzoini será reeleito presidente do partido, valendo lembrar que sustenta cada uma das posições referidas, com maior ou menor entusiasmo. Dirão os otimistas que o PT não é o Congresso, instância exclusiva para a adoção das barbaridades acima relacionadas, mas uma simples tomada de posição formal ou expressa através de aplausos retumbantes funcionaria como detonador da confusão.
Ainda que não venham a reconhecer, estão os companheiros cientes da inexistência de um nome, em seus quadros, capaz de vencer as eleições de 2010. Apenas se milagres acontecerem tornar-se-ão viáveis Marta, Dilma, Tarso, Jacques ou Patrus. No âmbito do partido, só existe uma solução, o próprio Lula, que continua negando a hipótese de disputar o terceiro mandato.
Obstáculo igualmente intransponível será o do PT aceitar, no primeiro turno, apoiar a candidatura de um aliado, seja Ciro Gomes, Sérgio Cabral, Roberto Requião ou mesmo Nelson Jobim. Aceitar o conselho do presidente Lula de que apenas em 2009 devem cuidar da sucessão equivalerá para os petistas a desprezar a sabedoria do provérbio árabe, de que bebe água limpa quem chega primeiro na fonte.
Não há, entre eles, um só que desde já não se dedique a ilações e estratégias. Sendo assim... Sendo assim, importa aguardar com ansiedade a reunião dos companheiros, de preferência com o auxílio de um "palmômetro" e de um "bobajômetro" para aferir as tendências.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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