quarta-feira, novembro 28, 2007

Capítulo final



Fonte Nova terá na demolição o seu epílogo


Jony Torres
A morte de sete torcedores provocada pela falta de manutenção adequada em suas estruturas foi o último capítulo da outrora imponente Fonte Nova. A decisão de demolir o estádio e construir uma nova praça esportiva no mesmo local foi anunciada ontem pelo governador Jaques Wagner. O custo da obra, orçada inicialmente entre R$300 milhões e R$350 milhões, será bancada através de uma parceria público-privada (PPP) ou com recursos do próprio estado.
O novo empreendimento não deve se limitar à prática de esportes como atletismo e futebol, possibilitando também a utilização da infra-estrutura para o funcionamento de um shopping center e um estacionamento. Através da assessoria de comunicação do governo do estado (Agecom), Wagner informou que já tem um projeto em análise. “Todos sabem da minha inclinação em implodir a Fonte Nova. Isso já foi dito diversas vezes antes da tragédia do domingo”, declarou.
Indefinição - A determinação de construir um novo estádio foi anunciada pelo governador na Suíça, após a confirmação pela Fifa, no mês passado, do Brasil como sede da Copa do Mundo em 2014. Segundo Wagner, algumas empresas já manifestaram o interesse em financiar o novo estádio.
Com a interdição da Fonte Nova, ainda não se sabe onde será realizado o jogo da Seleção Brasileira pelas eliminatórias para a Copa de 2010. Também não há data para o início ou o término das obras. Segundo especialistas, somente o processo de planejamento, implosão e retirada do material deve durar seis meses.
Depois de fazer uma vistoria na Fonte Nova, o presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia da Bahia (Crea-BA), Jonas Dantas, achou que seria muito elevado o preço para colocar o equipamento novamente em condições de uso. “É uma avaliação preliminar, mas, no mínimo, seriam gastos uns R$200 milhões para requalificar este estádio. São necessários muitos reparos estruturais”, afirmou.
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Duelo de tricolores
Apesar das cinco decisões nacionais realizadas no estádio, as arquibancadas da Fonte Nova abrigaram o maior público oficial de sua história em um duelo de tricolores. Em 1989, o Bahia venceu o Fluminense por 2x1, diante de 110 mil pessoas. Não havia lugar para mais ninguém e os torcedores ficaram espremidos. Poucos pisavam o chão, mas a maioria vibrou de alegria com a classificação para a final. Duas semanas depois, com Bobô no campo, veio o posterior título de campeão brasileiro, o único do tricolor desde o início da disputa do certame em 1971. No mesmo gramado, quatro anos depois, o Vitória perdeu para o Palmeiras e ficou sem o mesmo título que o rival.
O campo ainda foi invadido por centenas de torcedores do Bahia no final de 2006, quando o time não conseguiu superar o Ipatinga e permaneceu na terceira divisão. Na ocasião, 40 pessoas saíram feridas, parte das arquibancadas foi depredada como prenúncio de uma tragédia.
O estádio passou quase todo o ano de 2007, total ou parcialmente interditado, mas foi reaberto pela Sudesb. O resto é história. No último domingo, o Bahia subiu para a segunda divisão, sete torcedores morreram e a Fonte Nova sofreu seu derradeiro golpe.
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Vitórias, derrotas e tragédias
Inaugurada no dia 28 de janeiro de 1951, diante de 25 mil torcedores, a Fonte Nova foi palco de vitórias, derrotas e tragédias. O primeiro triunfo foi do Botafogo, por 1x0 sobre o Guarani, na época dois tradicionais clubes do futebol baiano, corroídos pelo tempo como o próprio estádio. O então governador, Otávio Mangabeira, deu o pontapé inicial para a viabilização do equipamento, ao qual emprestou o nome e de onde se despediu do governo.
O apelido Fonte Nova vingou pela força do uso popular. Dizem os historiadores que, mesmo antes da inauguração, o termo comum já vencia o nome de batismo, graças a três fontes de água que existiam na região. Durante muitos anos, principalmente na década de 60, foi palco para conquistas inesquecíveis de Bahia, Vitória, Ypiranga, Galícia, Leônico e Fluminense de Feira de Santana.
Em 1971, ganhou seu anel superior e a forma com a qual hoje se despede do cenário esportivo nacional. Mais de 6.500 m³ de concreto, 1,2 milhão de toneladas de ferro e 44.989 sacos de cimento foram usados na realização do projeto do arquiteto Diógenes Rebouças. A grandiosidade da obra e o clima de tensão durante a ditadura militar, além da aceleração do ritmo dos trabalhos, provocaram dúvidas sobre a sua segurança.
A população estava receosa. Mesmo assim, 90 mil ingressos foram vendidos e, diante do presidente Emílio Garrastazu Médici, ocorreu o que ninguém esperava, mas muitos temiam. No dia 4 de março, um boato ou o sobrevôo de um avião ou ainda problemas na estrutura dos holofotes provocaram uma correria e um tumulto nas arquibancadas, o que deixou pelo menos dois mortos e dois mil feridos. No entanto, acredita-se que um número bem maior de pessoas tenha perdido a vida naquele dia.
Fonte: Correio da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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