quarta-feira, novembro 28, 2007

Foi difícil suportar tanta dor

Muita indignação e comoção marcaram o enterro de quatro das sete vítimas da tragédia da Fonte Nova. O sepultamento foi no final da tarde de ontem no cemitério das Quintas dos Lázaros, Baixa de Quintas. Cerca de duas mil pessoas entre parentes e amigos prestaram a última homenagem aos torcedores do Bahia que foram ao estádio com o intuito apenas de se divertir, mas tiveram suas vidas sacrificadas pela negligência do poder público. Durante o ato, populares pediram justiça. Segundo depoimento das pessoas que estavam no velório, as vítimas moravam na Rua Diva Pimentel, no Retiro e toda vez que tinha jogo do Bahia costumavam ir cada um com sua turma, mas quando se encontravam no estádio procuravam ficar sempre no mesmo lugar. Márcia Santos Cruz, 26 anos, era casada, tinha um filho de apenas um ano de idade que também poderia estar morto. A avó impediu que o neto fosse junto com a mãe. “Minha filha ia a todos os jogos do Bahia, ontem estava muito eufórica, e nem o pedido da mãe para não ir ao estádio a fez mudar de idéia”, disse muito emocionado o pai, Sebastião da Cruz. Segundo ele, a filha estava na companhia do marido que ainda segurou a mulher pela mão na intenção de evitar a queda, mas foi em vão. “Jamais poderia pensar numa tragédia dessa, realmente foi uma fatalidade. Não sei como é que vai ser agora, meu neto era muito apegado a ela, chama o tempo todo pela mãe. Minha filha só queria ver o time do coração jogar, pensou até em comprar uma camisa nova do Bahia para ir assistir ao jogo, mas não teve tempo”, relatou Sebastião. Midiam Andrade dos Santos, 23 anos, trabalhava numa loja de departamento de um Shopping, tinha um filho de cinco anos e deixou quatro irmãos. Os pais não tiveram condições de falar com a imprensa, apenas um dos irmãos da vítima, Maurício Andrade dos Santos declarou que a irmã foi ao jogo no domingo a pedido dos colegas do trabalho. “Ela nem gostava tanto assim de futebol e foi por pura diversão com os colegas. Minha irmã era uma pessoa muito alegre e extrovertida”. Anísio Marques Neto, 28 anos deixou três filhos. O mais novo, com apenas oito dias de nascido. A mãe de um de seus filhos Josilene da Cruz informou que Anísio costumava ir a todos os jogos. “Ele era uma pessoa fanática por jogo e do Bahia então, nem se fala, infelizmente aconteceu essa tragédia”, ressaltou. “Todos nós gostávamos muito dele, ele saiu para comprar uma cerveja quando voltou aconteceu o desabamento”, disse um amigo. Na hora do sepultamento os amigos e familiares de Anísio cantaram o hino do Bahia, como última homenagem ao torcedor tricolor. Djalma Lima Santos, 30 anos, deixou a mulher e um filho de três meses. Era agente de limpeza e trocou o turno do serviço para ir à Fonte Nova. “Um bom filho, muito doce. Ele estava tão contente que até meu netinho ele queria levar, mas não deixei. Ele trabalhou pela manhã e saiu com o vizinho e a mulher que por sorte não morreu também porque ficou um degrau acima do que ele estava, declarou o pai cujo nome é igual ao do filho. Indignado, o amigo de Djalma, Orlando Balbino disse muito revoltado que o governo já sabia que o estádio não tinha estrutura alguma para receber tanta gente. “Foi dito várias vezes na mídia que as condições da Fonte Nova eram precárias, além disso a falta de segurança também, sempre foi um problema por causa do vandalismo que acontecia toda vez que terminava uma partida de futebol. Infelizmente, não levaram a sério agora estamos aqui hoje enterrando amigos, pais de famílias que tiveram suas vidas expostas a uma tragédia que poderia ser evitada”. O governador Jaques Wagner foi até às Quintas confortar os familiares das vítimas, que cobraram medidas enérgicas em relação ao estádio. Wagner por sua vez, admitiu que as obras realizadas no local não foram suficientes e disse que o estádio já foi interditado. Quanto a uma possível indenização disse, o governador: "Vamos analisar evidentemente, se couber ao governo, não iremos nos eximir da responsabilidade”. Em relação aos gastos com o serviço de funerária, a Superintendência de Desportos do Estado da Bahia (Sudesb) foi muito criticada pelos familiares das vítimas. De acordo com o tio de Djalma, Eduardo José dos Santos, a superintendência mandou um representante na hora do enterro. “Fomos na Sudesb hoje (ontem) pela manhã e não encontramos ninguém, chegou aqui faz pouco tempo uma pessoa e se comprometeu ajudar, vamos aguardar uma atitude deles e se não fizerem nada, vamos tomar as providências cabíveis”, protestou. (Por Maria Rocha)
"Chega de impunidade no Brasil"
Dor e consternação de familiares, amigos e vizinhos marcaram o sepultamento de Milena Vasques Palmeira, 27 anos, Jadson Celestino Silva, 25 e Joselito Lima Júnior, 26, ontem à tarde, no Cemitério Bosque da Paz. A tristeza pela perda das vítimas da tragédia na Fonte Nova era compartilhada pelo sentimento de revolta. Entre prantos e soluços, uma reclamação era unânime: a ausência dos poderes públicos e representantes dos órgãos competentes para compartilhar o sofrimento dos familiares. O pai de Milena, o comerciário João Palmeira, que foi ao estádio acompanhado das filhas, estava inconsolado. Se como não bastasse toda a dor de perder a filha mais velha, ele ainda se preocupava com o estado da filha caçula, Patrícia Vasques Palmeira, internada em estado grave no Hospital Santa Izabel, em Nazaré. Marcos Soares, tio das jovens, contou que Milena morreu na queda, mas que Patrícia foi levada para o Hospital Geral do Estado (HGE) e depois transferida para o Santa Izabel. “Ela tinha plano de saúde e optamos deixar a vaga no hospital público para outro que não tinha”, revelou. Uma amiga da família, Luciene Liz, afirmou que o pai das meninas chegou a ver as filhas caindo e que ao olhar para baixo viu Patrícia acenando. Segundo Soares, Patrícia teve fraturas graves na coluna cervical, fêmur, cabeça e em diversas parte do corpo e ainda corre risco de morte. Hoje, ela será submetida a uma cirurgia, mas segundo informações da assessoria de comunicação do hospital ela não corre risco de morte. “Essa foi a segunda vez que ela ia ao estádio. Já Milena era apaixonada por jogos e não perdia um. Perdeu a vida pela sua paixão”, disse, emocionado, ressaltando que a jovem tinha um futuro pela frente. “Ela era muito esforçada. Trabalhava em dois lugares: numa academia e no Instituto Anísio Teixeira (IAT), no Regime Especial de Direito Administrativo (Reda) e ainda encontrava tempo e disposição para estudar porque queria prestar vestibular no final do ano”, completou. O namorado de Milena, Cláudio Machado, lamentou a perda. “Estávamos juntos há nove anos. Tínhamos planos de casar”. Inconformado com o que aconteceu, o primo da vítima, José Edelvandro, disse que “alguém tem que responder por isso. Chega de impunidade no Brasil. Deviam ter tido uma atenção especial para este jogo. Foi um ato ambicioso”. Os primos Joselito, agente de saúde, e Jadson, estudante de administração na Faculdade da Cidade, foram sepultados no mesmo túmulo. Ambos eram filho único. Muito abalada a mãe de Jadson, a escrivã da 4ª Delegacia (São Caetano), Celeste Araújo, acompanhou o velório do filho ao lado do esposo, o motorista Jackson Silva. “Ele era muito brincalhão e amigo. Não perdia uma partida do tricolor. Era fã do Bahia e do grupo Pagodart”, contou um amigo. Eles moravam em Cajazeira VI e no Largo do Tanque, respectivamente. Ontem pela manhã, parentes das sete vítimas fatais do desastre compareceram ao Instituto Médico Legal (IML) Nina Rodrigues para providenciar a liberação dos corpos. Passavam das 10 horas quando os últimos corpos eram retirados e nenhuma assistência havia sido prestada aos parentes. “Disseram que iriam nos dar todo amparo necessário, mas até agora não recebemos ao menos uma orientação, uma palavra amiga, um apoio moral neste momento tão difícil. Tem famílias, inclusive, que não tem o dinheiro do funeral”, reclamou o comerciário Marcos Soares, tio de Milena Vasques. O mesmo sentimento comovia David de Lima Santos, irmão mais novo do agente de limpeza Djalma Lima Santos, que também morreu na queda da arquibancada. David conta que o irmão saiu com um grupo de mais seis pessoas e que apenas quatro retornaram para casa. “Dois sete que foram se divertir três morreram”, disse, ressaltando que a tragédia só não foi maior porque ele decidiu na última hora ficar em casa. “Eu também iria, mas desisti no último momento. Fiquei ouvindo pelo rádio e tomei um choque quando anunciaram a tragédia. Entre os nomes das vítimas disseram logo o do meu irmão”, relembrou. A esposa de Djalma, Valdemira Rosário Pereira, 27 anos, estava com ele no momento do acidente. “Estávamos um ao lado do outro, mas ele pediu que eu ficasse atrás dele no degrau de cima. Pouco tempo depois tudo desabou e eu presenciei ele caindo. Corri lá para baixo para vê-lo como estava, mas os policiais não me deixaram passar”. Revoltada, Valdemira culpa a Sudesb (Superintendência de Desportos do Estado da Bahia) pela tragédia. “Se o estádio não comportava tanta gente porque disponibilizaram tanto ingresso à venda”, questionou. De acordo com ela, a Fonte Nova estava superlotada e não tinha espaço para ninguém se movimentar. “Não havia nenhuma faixa de interdição no anel superior, o que significa que era para ser usado”, salientou.(Por Renata Leite e Catiane Magalhães)
O dia seguinte foi de muita tristeza
Um dia após a tragédia que levou à morte sete torcedores e deixou mais de 50 feridos na Fonte Nova, maior estádio do Estado, o clima era de apreensão e expectativa entre parentes e amigos dos torcedores internados nos hospitais da cidade. Muitos ainda estavam assustados com o drama. Dos 32 pacientes que passaram pelo Hospital Geral do Estado (HGE) na noite de domingo, um morreu instantes depois do acidente, um foi transferido para outra unidade hospitalar, dois permaneciam até a manhã de ontem em estado de observação e um iria passar por uma cirurgia. A maioria dos feridos passou por cuidados e recebeu alta. No Hospital Roberto Santos, quatro pessoas que não foram identificadas permaneciam internadas até a tarde de ontem. O ministro do Esporte, Orlando Silva e o governador Jaques Wagner visitaram algumas vítimas no HGE. Conforme informações do sistema de cadastro da recepção do HGE, foi registrado um óbito na instituição. O torcedor Joselito Lima Júnior, 26 anos morreu minutos depois de chegar de ambulância ao hospital. Entre os pacientes que tiveram alta estavam Abenilson da Mota Oliveira, 30 anos, Antonio Luís da Silva, 44 anos, Fábio Jorge Moreira dos Santos, 24 anos, George Conceição Barbosa, 22 anos, Genilson Santana dos Santos, 27 anos, Jorge dos Santos Anjos, 32 anos, Marcos Paz Macedo, 30 anos, Rômulo Carneiro dos Santos, 27 anos, Ronaldo da Silva Santos, 33 anos. O sistema do HGE informava ainda que a torcedora Patrícia Vasques Palmeira, 24 anos que sofreu várias fraturas foi transferida para o Hospital Santa Izabel. Ela era irmã de Milena Vasques Palmeira que morreu no local. Ficaram em observação os pacientes Roberval Nascimento de Jesus, 40 anos, Jader Landerson Santos de Azevedo, 18 anos e o segurança José Mário Sena Silva, que iria passar por uma cirurgia após ter seu abdome perfurado por um vergalhão. De acordo com o seu cunhado Djalma Francisco dos Santos, 45 anos, que permaneceu de plantão no HGE, durante toda a noite, Mário teria se ferido durante a confusão, quando a torcida invadiu o campo no final da partida. “Ele é um torcedor fanático e foi para o jogo com uma grande galera de Cosme de Farias. Minha esposa até comentou sobre o medo de que algo acontecesse com Mário, pois ele tem problemas de coração. Mas não esperávamos que acontecesse algo tão grave”, lamentou Francisco que foi para o jogo, mas acabou acompanhando a partida pelo lado de fora. O diretor interino do HGE, Antonio Porto Antico, apenas declarou que os pacientes com trauma estavam com quadro de evolução. Um dos líderes da torcida organizada Bamor, João Robson Santos Nascimento, 50 anos esteve no HGE para saber notícias de alguns de seus conhecidos que sofreram o acidente. Segundo Robson, a torcida deve aguardar as decisões do governo e as novas informações para depois realizar algum pronunciamento. “Queremos frisar que o fato não é de responsabilidade da Bamor. A Fonte Nova já tem muitos anos sem passar por uma reforma. Registramos ainda que havia muito mais de 60 mi torcedores. Somos a favor da demolição e da construção de um novo estádio no mesmo lugar”, afirmou. Robson acha que a interdição da Fonte Nova vai ser uma punição e uma tristeza para o torcedor do Bahia que vai ficar por um período sem ter um estádio para torcer. Ele também estava na parte inferior da arquibancada, na mesma direção onde ocorreu o acidente. Conforme contou, o desastre foi muito rápido. “Houve tumulto e correria até sabermos o que tinha acontecido”, relatou. Além do desabamento de parte da arquibancada, que acabou com a morte de sete torcedores, a maioria pertencente a torcida organizada Bamor, cenas indescritíveis de confusão e baderna marcaram o término do jogo. A invasão do campo ocorreu juntamente com atos de vandalismo de centenas de torcedores que retiraram partes da grama, danificaram equipamentos, macas e parte do alambrado. Algumas pessoas se queixaram da insegurança durante e depois do jogo, quando nas ruas próximas ao estádio, ladrões aproveitaram a euforia e a distração de outros para quebrarem vidros de carros e saquearem torcedores. A confusão foi comentada pelo líder de torcida, João Robson, como um fato à parte. Segundo ele, os atos de vandalismo não foram praticados por integrantes da Bamor, mas por torcedores independentes do Bahia. “A todo o momento a Bamor tem orientado os seus integrantes a apenas levantarem o time, mas sem a violência e a depredação do espaço. Conforme relata, a polícia tentou conter a euforia das pessoas que pulavam o alambrado e praticavam danos ao campo de futebol, “mas quando perceberam que era algo incontrolável acabaram desistindo”. Robson lembra ainda que um dos portões foi empurrado por torcedores independentes e que cinco pessoas foram levadas por policiais. Uniformizado com toca e camisa do Bahia, o torcedor Cláudio Luiz Cruz Xavier estava ontem na porta do HGE para saber notícias de um amigo e confessou ter pulado o alambrado para entrar em campo no final do jogo. Ele assistiu o primeiro tempo da partida próximo ao local do desabamento e por sorte passou para o outro lado da arquibancada durante o segundo tempo. Ao ser perguntado sobre a danificação dos equipamentos e do gramado, Cruz apenas sorriu e disse que a emoção explicava o ato. “O Bahia é o meu vício”, afirmou. (Por Lilian Machado)
Fonte: Tribuna da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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