terça-feira, novembro 27, 2007

Bahia apresenta deficiências nas ações de combate à dengue

Estado tem 45 municípios considerados prioritários e incluídos em programa nacional


Mariana Rios

Com 45 municípios considerados prioritários e incluídos no Programa Nacional de Controle à Dengue, a Bahia apresenta deficiências consideradas graves no combate à doença. Menos de 17% destes municípios garantiram seis visitas mínimas aos domicílios, 55% não têm quantidade adequada de agentes de campo e 64% não desenvolveram plano de contingência para situações de epidemia. Os dados foram revelados ontem em audiência pública promovida pelo Ministério Público Estadual, em Nazaré. A apresentação foi feita pela coordenadora de doenças de transmissão vetorial da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), Jesuína Castro. Ela pontuou que Salvador e Camaçari são as cidades que possuem maior risco de ocorrer um surto de dengue. Segundo a coordenadora, os dados do levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde, que incluía ainda Itabuna na lista, estão defasados. “Eles utilizaram o dado do ano passado. Nem Itabuna nem Teixeira de Freitas estão com altos índices de infestação predial”, explicou Jesuína. Mas, dada a situação de descaso descrita, todos os outros 43 municípios também passam a ser considerados áreas de risco.
Números - A dengue vitimou 12 mil baianos este ano, mas o número está subnotificado – segundo a própria Sesab. Até agora, foram registrados 18 óbitos, sendo oito em Salvador. Confirmados, entretanto, são apenas dois na capital e um no município de Luís Eduardo Magalhães. “Cerca de 53% dos prioritários estão com infestação considerada perigosa”, afirmou Jesuína para a platéia esvaziada.
O MP irá mobilizar os promotores do interior para cobrar a adoção das medidas, garantiu a coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Defesa da Saúde (Gesau), a promotora de Justiça, Itana Viana, que solicitou a audiência pública. “Vamos utilizar a capilaridade da instituição para que, pelo menos, os municípios prioritários desenvolvam ações efetivas”, declarou Viana, explicando que o MP instaurou um inquérito civil para apurar a situação da doença no estado.
A pouca participação de órgãos públicos, entidades não-governamentais e movimentos sociais demonstrou, na opinião de Jesuína, como a dengue vem sendo tratada de forma desarticulada. Compareceu metade das mais de 26 representações convidadas. “Temos zonas periféricas com abastecimento crítico, problema com coleta irregular de lixo, fatores que contribuem para a disseminação da doença. Este é um momento público para ouvir todos e discutir estratégias”, pontuou a promotora.
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Contingência fica na gaveta
Além da insuficiência de pessoal, como agentes de saúde, preocupa os profissionais de saúde a possibilidade de chegada em Salvador do quarto sorotipo de doença. “Por ser pólo turístico, pode ser que entre esta variação. Se entrar, teremos uma epidemia como em 2002, quando 30 mil pessoas foram infectadas”, declarou a coordenadora de saúde ambiental da secretária municipal de Saúde, Josélia Sande, confirmando que o plano de contingência não saiu da gaveta.
Em Salvador, foram registrados 1.700 casos clássicos da doença e 17 do tipo hemorrágico. A dengue é causada por um arbovírus (tipo viral transmitido por mosquitos) e são conhecidos quatro sorotipos: DENV 1, DENV 2, DENV 3 e DENV 4. A doença é transmitida pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti, que põe seus ovos em água limpa e parada. Por isso, a importância de tampar e proteger reservatórios de água e evitar o acúmulo do líquido em garrafas e pneus.
Fonte: Correio da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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