sexta-feira, novembro 23, 2007

Investigações da PF tiveram início em 2005

Quadrilha utilizava informações privilegiadas e fraudava licitações através da combinação de preços


Jairo Costa Júnior e Alan Rodrigues
As investigações que resultaram no desmembramento da quadrilha especializada em fraudar licitações públicas começaram em 2005. De acordo com a Polícia Federal (PF), a Jaleco Branco é um desdobramento da Operação Octopus, que gerou também a Operação Navalha, quando foram presos o empresário Zuleido Veras e o ex-prefeito de Camaçari Luiz Caetano.
Segundo a PF, o esquema começou a ser investigado a partir da descoberta de emissão de certidões negativas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) fraudadas para empresas de prestação de serviços, como a Masp, Macrocel e Ascop (ligadas ao empresário Clemilton Resende) e a Pós-data, do ex-presidente do Bahia, Marcelo Guimarães. “Eles (os chefões da quadrilha) conseguiam esses documentos, mesmo estando em débito com o INSS, para participar de licitações públicas”, relatou um dos delegados da PF responsáveis pela operação, cujo nome não foi informado à reportagem.
O modus operandi da quadrilha era baseado numa espécie de cartel da prestação de serviços públicos. Segundo a Divisão de Inteligência da PF (DIP), sediada em Brasília, os empresários fraudavam as licitações através da combinação de preços montada para que o grupo continuasse ganhado as concorrências. Em outras ocasiões, o grupo conhecido como G-8 (que reúne os principais donos de empresas do ramo na Bahia) evitavam que concorrentes vencessem a disputa, através de informações privilegiadas fornecidas por servidores municipais, estaduais e federais.
“Cada empresa tinha sua área própria de atuação, seja no ramo da segurança privada e vigilância, seja no ramo de limpeza ou serviços gerais”, apontou o delegado fe-deral. Há fortes indícios de que os empresários do G-8 emperravam algumas licitações, para obter contratos emergenciais em órgãos públicos, cuja legislação permite a dispensa de licitação. “Desta forma eles continuavam dominando o que chamavam de ‘mercado’”, acrescentou.
As investigações do DIP contaram com escutas telefônicas gravadas, campanas e coleta de documentos feitas com apoio da Diretoria Executiva da PF e da superintendência da Corporação na Bahia, além do INSS, Ministério Público federal e receita Federal. A PF disse ainda que há indícios claros da atuação da quadrilha em outros estados do Nordeste, sobretudo Pernambuco e Sergipe.Secretarias - Dois dos principais órgãos envolvidos na fraude foram a Secretaria Estadual de Saúde (Sesab) e a Secretaria Municipal da Administração. A DIP informou que existem também indícios bastante claros da participação do ex-ti-tular da pasta na primeira metade da gestão do prefeito João Henrique, Luís Carlos Café, embora a PF garanta que não havia, até o momento, nenhuma ordem de prisão contra ele.
Informações ainda não confirmadas pela polícia dão conta de que dois dos 18 mandados não cumpridos até o fechamento desta edição foram expedidos contra o empresário Gervásio Oliveira, fundador da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), e do dono da empresa de prestação de serviço GE, José Tarcísio.
Cálculos da PF apontam que a quadrilha possui mais de cem membros e entre 20 e 25 empresas. Muitas delas serviam de fachada para acobertar o esquema de fraudes e superfaturamento nos serviços de terceirização contratados por órgãos públicos. Todos os integrantes do G-8, segundo a DIP, são amigos há mais de 20 anos.
***
Prisões provocam espanto na Bahia
Duas figuras presas na Operação Jaleco Branco causaram enorme espanto pelos cargos que ocupam: o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Antonio Honorato, também ex-deputado estadual, e a procuradora geral da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ana Guiomar Nascimento.
Segundo a Polícia Federal (PF), Honorato foi preso por intermediar em 2006 a liberação de recursos referentes a contratos de prestação de serviços mantidos por uma das empresas de Clemilton Resende com a Secretaria Estadual de Saúde (Sesab). “Ele (Honorato) pediu à Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz) que pagasse a verba a Resende. As investigações apontam que a contrapartida pela mediação seria o investimento do empresário na campanha do filho do presidente do tribunal (Adolfo Vianna Neto) a deputado estadual”, assegurou um dos delegados federais responsáveis pela investigação.
O advogado do presidente do TCE, o criminalista Fernando Santana, questionou os métodos da PF. Ele declarou não ter como tomar qualquer providência devido à falta de informações do teor dos mandados, mas disse ter procurado se informar sobre o inquérito há quatro meses, sem sucesso. Apesar disso, negou ter conhecimento das acusações. Para ele, “as prisões estão sendo manipuladas como instrumento de coação absolutamente ilegal”. Outro advogado que esteve na sede da PF, alegando prestar solidariedade ao acusado, foi o procurador da Assembléia Legislativa da Bahia, Celson Castro, primo em terceiro grau de Honorato.
Já a prisão da procuradora geral da Ufba, segundo o setor de inteligência da PF, foi a constatação do mesmo esquema de fraudes em licitações da instituição, supostamente conhecido por Ana Guiomar, cuja função é também avaliar e dar parecer sobre a legalidade de qualquer contrato feito pela universidade. Ironicamente, no último dia 15, a advogada elogiou o trabalho da PF durante a desocupação da Reitoria, sem saber que estava sob investigação policial.
Em visita à sede da superintendência regional da PF, em Água de Meninos, o vice-reitor da Ufba, Francisco Mesquita, informou que estava lá para prestar solidariedade à procuradora. Ele se disse “surpreso” com a prisão de Ana Guiomar e garantiu que o trabalho da advogada sempre foi considerado “normal”. Mesquita destacou ainda que a Ufba só se manifestará oficialmente após avaliação do inquérito por parte da Procuradoria Geral da União (PGU).
***
Legião de advogados
Nas primeiras horas da manhã de ontem, os policiais que participaram da Operação Jaleco Branco surpreenderam os alvos dos mandados em suas residências. Na casa do ex-deputado Marcelo Guimarães, no Horto Florestal, vizinhos informaram que às 6h da manhã uma equipe da Polícia Federal (PF) entrou no condomínio. Na empresa Ascop, prestadora de serviços de segurança, localizada em Pernambués, o vigilante Antônio Rodrigues se recusou a abrir o portão e foi detido, mas liberado logo após lavrar o termo de resistência na sede da PF.
Lá, a cada momento novos presos eram conduzidos ao primeiro andar do prédio, muitos com rosto coberto. Em pouco tempo, uma legião de advogados – grande parte deles professores de direito renomados – se reuniu no saguão da Polícia Federal. Todos estavam ávidos por informações sobre as acusações contidas nos mandados, ansiosos para ingressar com pedido de habeas corpus. Sem sucesso.
Guimarães se mostrou um dos mais constrangidos com a prisão. Recusou receber qualquer pessoa, inclusive a filha do ex-deputado e o advogado da família Fábio Pimentel. “Não vejo motivo para a prisão. Ele, assim como os outros acusados, têm residência fixa. Foi uma ação desnecessária do ponto de vista jurídico. A grande questão é se há ou não crime”, disparou Pimentel.
Fonte: Correio da Bahia

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas