domingo, junho 18, 2006

Ação de Diogo Mainardi contra Lula

Por: Reinaldo Azevedo (Primeira Leitura)

Diogo Mainardi, colunista da Veja — ou “Diego”, como a ele se refere José Dirceu —, decidiu interpelar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Justiça. Fez bem. Dado o descalabro que tomou conta do país, nunca ninguém ousou chamar Lula de “bandido”. O mais perto que a linguagem policial chegou do Excelentíssimo foi por intermédio do procurador-geral da República, segundo quem 40 pessoas do entorno presidencial, muitos deles seus amigos de copa e cozinha, formaram uma “quadrilha”, organizaram-se em “bando”, para assaltar os cofres públicos.
Já o presidente parece ter “menas” moderação do que a mídia. Reagindo a uma reportagem de Márcio Aith e a uma coluna de Diogo Mainardi, disse o Excelentíssimo: “Não sei se o jornalista que escreve uma matéria daquelas tem a dignidade de dizer que é jornalista. Poderia dizer que é bandido, mau caráter, malfeitor, mentiroso”.
A reportagem dava conta de que Daniel Dantas havia contratado a Kroll para investigar autoridades do governo. Na esteira de tal investigação, surgiram números de supostas contas secretas de figurões da República no exterior, uma em nome de Lula. A revista não comprou a versão. Relatou o que era o resultado da bisbilhotagem. Na edição da reportagem, publica-se uma entrevista de Diogo com Dantas em que o banqueiro revela que Delúbio Soares lhe pediu alguns milhões de dólares. Mais: afirma que houve uma “sincronia” entre a solução de demandas suas no governo e a contratação de um advogado que é amigo de Dirceu.
Nem Lula nem o PT contestaram Dantas. Ao contrário. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, encontrou-se com ele na casa de um senador, Heráclito Fortes. Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais (o que será isso?), disse que Bastos mantivera com o empresário um “encontro institucional”, o que é, para dizer pouco, um enigma. Vá lá: Bastos, investido do cargo, poderia representar o Estado brasileiro e a Presidência da República. São instituições. Mas e Dantas? Deve ser a primeira vez na história em que alguém, na prática, sugere que o governo praticou extorsão e, em vez de um processo, ganha um lero-lero “institucional”.
Mainardi, vejam vocês, teve a ousadia, “neste país”, de interpelar o presidente da República. Já que o digníssimo se referiu ao conjunto dos textos de Veja tendo chamado seus autores de “bandidos” e “malfeitores”, é justo que venha a público dizer a quem estava se referindo. Que eu saiba, Diogo não rouba nem banana com Neston de seu caçula ou bolacha recheada do mais velho. Aith tampouco. Aliás, são jornalistas que não se empenham em roubar nem um pouquinho da caridade do petismo dominante na imprensa brasileira para se mostrar simpáticos às esferas influentes de opinião.
Lula não se dá bem com esse tipo de “mau-caráter”. Talvez prefira aquele que gosta de prestar servicinhos ao poder em troca de notinhas exclusivas.
A ação é movida pelo colunista da Veja. Até agora, o interpelado não respondeu. Fazendo-o ou não, o “querelante” (é você, Diogo, hehe...) pode dar seqüência à ação, insistindo para que o presidente seja responsabilizado civil e criminalmente pela agressão. Sua defesa vai tentar argumentar que ele não se referia a ninguém em particular, nem a Diogo nem a Aith... Bem, então teria sido a quem? Ao conjunto dos jornalistas? Só aos jornalistas de Veja? Apenas àqueles que não lhe fazem as vontades?
Interessante a ação. “Nunca antes neste país” se havia tratado este presidente como alguém responsável por aquilo que faz e fala. É protegido por uma bolha de inimputabilidade que vai da aritmética (sempre joga os números que lhe dá na telha) à política, desferindo golpes para todos os lados. É visto pelos jornalistas à moda como ele próprio vê os bandidos do PCC: segundo o Demiurgo, quando crianças, os pobrezinhos não tiveram a atenção merecida. Na cabeça do jornalismo, o petista é um “Marcola da sociologia”: como sua mãe nasceu analfabeta (uma fatalidade!), tudo lhe é facultado. O colunista, apropriadamente, lembrou que o homem tem, sim, suas responsabilidades. Ele não pode tudo. Nem tudo lhe é permitido.
Mas vá lá: digamos que Diogo roubasse banana amassada com Neston de seu caçula e bolacha de chocolate de seu mais velho. O Menas poderia ter com ele a tolerância que tem com os “quadrilheiros” da casa. Dia desses, Ricardo Berzoini, presidente do PT, disse que os ditos-cujos, que estão disputando eleições, merecem ser “julgados pelo povo”. Urna, na era petista, virou tribunal criminal. Faz sentido. O mensaleiro que for reeleito está absolvido. Não é possível que quem tunga dinheiro público, faz caixa dois (“coisa de bandido”, segundo Bastos) e superfatura contrato de estatal mereça palavras mais doces de quem pode, no máximo, roubar papa de bebê.
Estou curiosíssimo para saber a quem Lula se referia. Diogo não deve estar menos, uma vez que até moveu uma ação para ter direito a essa iluminação. Se Lula quiser, pode me chamar como testemunha contra o colunista da Veja: eu acuso Diogo de ter roubado o papel que cabia ao jornalismo político e de ter evidenciado com quantos puxa-sacos se constrói uma farsa de Luís Bonaparte. Eu o acuso de integrar um grupo de três ou quatro pessoas e veículos que ousaram, precocemente, desafinar o coro dos contentes.
[reinaldo@primeiraleitura.com.br]

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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