domingo, junho 18, 2006

Bahia é campeã nacional em casos de anemia falciforme

Por: Correio da Bahia

Doença genética com prevalência entre afrodescendentes atinge uma em cada 650 crianças nascidas na capital

As hemácias do sangue do portador de doença falciforme têm formato de foice
"Pai, faz essa dor parar". Pais e familiares de pacientes com doenças falciformes têm que aprender a conviver com as crises provocadas pela enfermidade - doença genética, com prevalência na população afro-descendente, caracterizada pela alteração na hemoglobina, pigmento responsável por transportar oxigênio nos glóbulos vermelhos para os tecidos do corpo. Em Salvador, uma em cada 650 crianças nascidas é portadora da anemia falciforme, a mais comum das doenças falciformes, e a Bahia é o estado com maior número de portadores da doença. A dor é conseqüência da falta de oxigênio nos ossos, órgãos e músculos.
Quando o indivíduo é sadio, a hemoglobina F, tipo fetal, com a qual nascemos, vai sendo substituída pela hemoglobina tipo A. No indivíduo com anemia falciforme, os genes possuem uma mutação e não se produz hemoglobina A e sim a S. Com a alteração na informação genética para hemoglobina, o glóbulo vermelho (hemácia) adquire a forma de meia lua ou foice - mais rígido e sem a maleabilidade comum à hemácia saudável. Assim, existe a dificuldade da chegada de oxigênio nos vasos mais finos do corpo, causando a obstrução destes vasos, e comprometendo a circulação sangüínea.
Depois do susto da descoberta - desde 2001, é possível verificar a ocorrência da doença na triagem neonatal, o popular teste do pezinho - é necessário aprender sobre as características desta doença, que não possui cura. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado contribuem para melhorar a qualidade de vida da pessoa com doença falciforme. Foi o que fez Altair Lira, atual coordenador geral da Associação Baiana de Pessoas com Doenças Falciformes (Abadfal). "Do diagnóstico até a primeira crise, aos sete meses de idade de Marília, nossa expectativa é de que não acontecesse nada", recorda Lira, referindo-se à filha de 7 anos.
Com a série de crises - em pouco mais de dois anos foram 12 internamentos -, e os intervalos entre elas, Lira foi aprendendo mais sobre como a doença se manifesta em Marília. "O pneumococo, por exemplo, é 600 vezes mais letal para ela. O primeiro atendimento, em caso de crise, tem que ser feito por pessoal capacitado. Nosso tempo é diferente do tempo dela", contou Lira.
Após o diagnóstico, o tratamento é feito com o uso de penicilina profilática, vacinas usuais e especiais (antipneumocóccica, antivaricela e antimeningocócica) e acompanhamento ambulatorial. Segundo a hematopediatra Silvana Fahel, é grande a variação da doença de indivíduo para indivíduo. Se alguns têm maior tendência às infecções, outros podem sofrer até mesmo um acidente vascular cerebral.
"A família é nossa aliada e é ela que assiste mais de perto e vivencia cada uma das crises. Uma febre, por exemplo, deve ser tratada de forma diferenciada, pois pode desenvolver infecção grave", explica Fahel. É importante que a família informe ao profissional de saúde sobre a condição e medicamentos do paciente, em caso de crises.
Fahel destacou o serviço oferecido pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), e o município, há pouco mais de três meses, disponibilizou para a população duas unidades de atendimento aos portadores de doenças falciformes: na Avenida Carlos Gomes e outra no Vale das Pedrinhas. Outra ação do Programa Municipal de Atenção às Pessoas com Doenças Falciformes, que começou a ser implantado pela prefeitura em março de 2005, é a oferta de medicamentos para controle da enfermidade, como penicilina oral e ácido fólico, que podem ser adquiridos nas duas unidades citadas acima, além de nas unidades de atendimento das Sete Portas e no bairro de Marechal Rondon, assim como na Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Estado da Bahia (Hemoba).
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SINTOMAS
Os sintomas mais comuns da anemia falciforme são: crise de dor nos pequenos vasos das mãos, ossos, tórax, abdômen, icterícia (cor amarela nos olhos), infecções freqüentes na garganta, pulmões e ossos, úlcera de perna, geralmente próxima aos tornozelos, além de seqüestro do sangue no baço, causando palidez e dor no órgão.
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Apoio psicológico à família
A Abadfal, desde 2001, vem dialogando com o governo estadual para a adoção de um programa baiano para os portadores de doenças falciformes. Atualmente, o atendimento a portadores da doença na rede pública de saúde estadual é feito na Fundação de Hematologia da Bahia (Hemoba). Já a associação oferece apoio psicológico à família de portadores de doenças falciformes e todo segundo sábado do mês realiza uma reunião mensal. A próxima acontece no próximo dia 8, das 9h às 12h, no auditório da Fundação Oswaldo Cruz (rua Waldemar Falcão, 121, Brotas). "Buscamos estimular a família, para que faça o teste, e oferecer solidariedade. A doença sobrecarrega principalmente a mãe. Por vezes, a vida do casal fica abalada e os pais enfrentam um outro conflito: o estigma de que passou a doença para o filho", explicou Lira.
Para identificação do traço falciforme, o teste pode ser feito no Hospital Universitário Professor Edgar Santos (Hupes), no Canela, que oferece ainda aconselhamento genético para os pais que possuem traço. "A decisão é do casal, que vai avaliar os riscos e optar pela preferência conjunta", conta Fahel. Os pais, em geral, são portadores assintomáticos de um único gene afetado, é o chamado traço-falciforme, presente entre 6 e 10% da população baiana, a maior porcentagem nacional. Filhos de casais com traço-falciforme têm 25% de chance de desenvolver doenças falciformes.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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