segunda-feira, junho 19, 2006

'Nas águas do Velho Chico pescamos vida e dignidade'

Adital - Carta dos Pescadores e Pescadoras da Bacia do Rio São Francisco"O peixe sumiu. E o pescador vai no mesmo caminho..." Esta a grande constatação inicial do I Encontro de Pescadores e Pescadoras da Bacia do Rio São Francisco, acontecido de 16 a 18 de junho de 2006, em São Caetano do Retiro, na cidade de Salvador - Bahia, com a participação de 61 pessoas. Eram 36 pescadores e 25 pescadoras, de 25 Colônias, Associações, Coletivos, Grupos de Trabalho da Pesca, Federações, de cinco estados (MG, BA, PE, SE e AL), a Confederação Nacional dos Pescadores e o MONAPE - Movimento Nacional dos Pescadores. Como apoio e assessoria estavam o CPP - Conselho Pastoral dos Pescadores, a CPT - Comissão Pastoral da Terra, o APD/CERIS - Assessoria a Projetos / Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais e o PPA - Projeto Peixes Pessoas e Águas. E como co-patrocinadora a CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviços. Esteve presente o Ministério Público Estadual da Bahia / Coordenadora do Projeto São Francisco, Dra. Luciana Khoury. "Nas águas do São Francisco pescamos vida e dignidade" era esse o tema-lema do encontro, manifesto nas palestras, debates, poesias, cantos e celebrações. Razão também desta Carta às autoridades, ao povo sanfranciscano e de todo o País - denúncia, proposta e compromisso de luta.
A causa principal do aparente "sumiço" do peixe e ameaça de extinção do pescador está na imposição de um modelo de "desenvolvimento" capitalista predador. No Brasil, mesmo com todas as reciclagens, este capitalismo continua selvagem, sem limites. A devastação humana e ambiental segue desenfreada, a serviço da acumulação mundial de capital, a despeito de avanços do ambientalismo e da legislação ambiental. Em pouco mais de 60 anos o São Francisco, de exuberante fonte de vida tornou-se um rio condenado. E com ele, o povo que dele depende para viver.
Um caso exemplar: mais de 100 toneladas de peixes adultos já morreram, de Três Marias-MG abaixo, em conseqüência de comprovada contaminação por rejeitos tóxicos lançados pelo processamento de zinco da Votorantim Metais. Os pescadores têm sido os maiores prejudicados.
As barragens, para a produção de energia elétrica, artificializou o rio e o fez refém da CHESF - Cia. Hidrelétrica do São Francisco (e da CEMIG - Cia de Energia Elétrica de Minas Gerais). Foi o início do fim da pesca e dos pescadores artesanais. Como se não bastasse, novos barramentos estão sendo anunciados, levando angústia e descrença às comunidades afetadas.
Outro braço do Estado Federal na região, a CODEVASF - Cia. de Desenvolvimento do Vale do São Francisco, pôs-se a serviço de empreendimentos que mais degradam do que preservam o rio, suas águas, suas terras e suas gentes. A fruticultura irrigada para exportação é o mais conhecido e desastroso exemplo, comprovado até por estudos patrocinados pelo Banco Mundial.
A pesca artesanal deixou de ter importância para os políticos, planejadores e agentes do desenvolvimento, se é que um dia já lhe deram a devida importância. Tida como fadada à extinção, é tratada como um problema lateral, quando não simplesmente ignorada. De fato, no Brasil, ao contrário de outros países, não há uma política para a pesca artesanal, apenas programas compensatórios e integracionistas ao modelo de produção industrial e mercantil. Até no atual governo - opção eleitoral da maioria dos pescadores organizados -, uma inédita Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca mal disfarça a opção pelos grandes projetos, baseados em concentração de capital e no emprego de tecnologias agressivas ao meio-ambiente, a desprezar e substituir o modo e a cultura tradicionais das comunidades pesqueiras. Há uma intencional ignorância de que mais de 60% do consumo interno de pescado no Brasil provêm da pesca artesanal.
Ao nos ignorar no São Francisco, estas políticas, reféns do mercado, impõem a aqüicultura (de espécies exóticas e não migratórias, como a tilápia-do-Nilo e o camarão-da-Malásia) em tanques-rede e o peixamento (de espécies nativas) como "solução salvadora" para a pesca artesanal dada como em extinção. Uma extinção induzida e promovida. Um "genocídio cultural". Um "ecocídio".
Essa a mesma lógica que nos tem dificultado ou impedido o acesso às terras e as águas do São Francisco - rios, lagoas marginais, várzeas, ilhas, vazantes e mangues. E que não consegue disciplinar e condicionar o uso destas áreas pelo gado de latifundiários e os monocultivos comerciais, nem reprimir o cultivo de maconha, que tantos transtornos e inseguranças têm trazido às nossas comunidades ribeirinhas.
Pelas mesmas razões compreendemos as dificuldades que temos tido de acesso às condições dignas de vida e trabalho - moradia, educação, saúde, crédito, beneficiamento e comercialização do pescado, previdência social, e outras mais - Direitos Humanos fundamentais. Do mesmo modo, as crescentes e injustificadas restrições ambientais que são impostas às nossas atividades de pesca e agricultura nas ilhas e vazantes do rio. E não se trata do defeso na época de desova dos peixes, que esse quase todos nós já incorporamos e apoiamos.
Ao menosprezar, em nome de duvidosa modernidade, as comunidades tradicionais do São Francisco e seu modo secular de lidar com os bens naturais, ignora-se que somos essenciais para a conservação e utilização sustentáveis da diversidade biológica e da própria identidade regional e nacional. Este também o sentido de nosso alerta às autoridades e à nação brasileira. Não admitimos ser relegados a relíquias históricas, folclóricas, curiosidade turística!
Felizmente, a troca de informações e experiências neste encontro levou-nos também à constatação de que, apesar de tudo, mesmo combalido, o rio São Francisco ainda está vivo. A recente volta do peixe no Baixo e no Lago de Sobradinho reflete a incrível capacidade de recriação da natureza, quando as cheias, ainda que não mais generalizadas em todas as regiões, renovam as espécies nativas nas várzeas e lagoas marginais, que chamamos "criadeiras". Renovam também nossas esperanças de continuar existindo e contribuindo para a perpetuação da vida.
E nos animam a apresentar nossas propostas e reivindicações:
1) Suspender os anunciados projetos de novas barragens no rio São Francisco. Há alternativas de produção energética e barragens aceitáveis somente as pequenas nos afluentes, nos locais de baixo impacto sócio-ambiental e que cumpram também funções hidro-ambientais favoráveis ao rio.
2) Suspender o Projeto de Transposição, optando-se por formas alternativas de acumulação e gestão eficiente e democrática das águas existentes e suficientes para o verdadeiro desenvolvimento de todo o Nordeste semi-árido.
3) Desenvolver, com urgência e prioridade absoluta, um autêntico Programa de Revitalização da Bacia do Rio São Francisco, que leve em conta a experiência e a opinião das comunidades locais e que implemente:a) combate à poluição, com tratamento dos esgotos de todas cidades ribeirinhas e mais rigorosas exigências e punições ambientais às empresas poluidoras, a começar pela Votorantim Metais, em Três Marias-MG;b) mapeamento, regularização e arrecadação das terras públicas da União e dos Estados na Bacia do rio São Francisco, priorizando a cessão de uso às comunidades tradicionais (ribeirinhas, pescadoras, vazanteiras, indígenas e quilombolas), com privilégio da criação de Reservas Agro-Extrativistas e exigência efetiva de projetos sustentáveis para a cessão de uso privado, com vigência em períodos mais curtos e sob fiscalização mais rigorosa;c) garantia, mediante legislação específica, do livre acesso de pescadores e vazanteiros às ilhas, várzeas, mangues e vazantes;d) programas de educação ambiental em todas as comunidades rurais e escolas urbanas e formação de Agentes Ambientais Voluntários;e) criação de Comitês Gestores da Pesca por região da Bacia;f) realização de um Censo Comunitário pesqueiro, marisqueiro e vazanteiro na Bacia, acompanhado de um mapeamento das lagoas marginais;g) ordenamento da pesca nas regiões da Bacia, com especificidade para as lagoas marginais;h) estudos e medidas cabíveis para a implantação de uma Vazão Ecológica nas barragens e na foz, de modo a garantir a manutenção da biodiversidade, a sustentabilidade da pesca artesanal e a continuidade das comunidades tradicionais;i) mais rigorosa aplicação da legislação ambiental, fiscalização eficiente e punição exemplar dos infratores.
Sabemos que estas reivindicações dirigidas às autoridades dependem de nossa organização e pressão. Por isso, assumimos como compromissos de luta:
1) Trabalho de base nas comunidades ribeirinhas, informando, conscientizando e organizando os pescadores e pescadoras para adesão e reforço da luta em torno de nossas bandeiras;2) Mobilização social e política da população em torno destas bandeiras, de modo especial o impedimento das novas barragens e do projeto de transposição;3) Divulgação de nossas propostas, reivindicações e lutas;4) Construir a partir da base e conseguir aprovação e vigência de um Acordo de Pesca na Bacia do São Francisco;5) Realizar encontros regionais em 2007 e um II Encontro de Pescadores e Pescadoras da Bacia, em 2008, para avaliar e replanejar nossas lutas e conquistas.
Contando com aliados e parceiros, vamos continuar pescando vida e dignidade, no São Francisco, para salvação do rio, de seu povo, da nação brasileira e do planeta!
Salvador, 18 de junho de 2006.

Nenhum comentário:

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas