domingo, janeiro 30, 2022

Pelas beiradas

 



Lula atrai tucanos para uma antiga ideia dele sobre volta do bipartidarismo no país

Por Dora Kramer

A necessidade de uma alteração radical na qualidade e na quantidade do sistema partidário brasileiro é daquelas unanimidades sobre as quais muito se fala e nada se faz. Todas as ditas reformas políticas ensaiadas de 1997 para cá, lá se vão 25 anos, foram feitas na base do quanto mais se muda, mais fica tudo como está.

O ex-senador Jorge Bornhausen quando presidente do PFL (atual DEM, em via de incorporação ao União Brasil) dizia que a reforma política real e necessária não sairia nunca porque era tarefa dos políticos, resistentes a mudar as regras pelas quais eram eleitos. Muito se tentou, mas pouco se conseguiu.

Houve algumas modificações pontuais, boa parte delas derrubada ou reformulada por decisões da Justiça e/ou por ação do próprio Congresso. Suas altezas têm por hábito alterar normas a cada eleição. Sempre com o cuidado de não tocar em questões de fundo como voto obrigatório x facultativo, presidencialismo x parlamentarismo e sistema majoritário x distrital.

O ex-presidente Luiz Inácio da Silva faz agora movimentos que de início parecem direcionados apenas à montagem da candidatura e campanha presidenciais, mas, se examinados na perspectiva de ideias já defendidas por Lula, podem ter um alcance mais ambicioso.

Logo nos primeiros dois anos de seu primeiro mandato no Planalto ele difundiu a tese de que o Brasil estava destinado a ter dois, no máximo três, partidos fortes. Depois Lula abandonou o assunto, mas aquilo ficou ali, intocado numa prateleira da história.

A história agora me volta à mente, inclusive porque estava presente numa dessas ocasiões em que Lula discorreu longa e veementemente sobre o tema. Dizia até que, naquele cenário por ele presumido, PT e PSDB tenderiam a caminhar juntos. Diante da surpresa geral, amenizou e fez a seguinte emenda: não falava de fusão entre as duas legendas, e sim da união entre “alguns” petistas com “alguns” tucanos.

Não soa familiar aos leitores atentos ao noticiário político-eleitoral que registra dia a dia o vivo interesse de Lula na companhia dos tucanos hoje visivelmente desconfortáveis num PSDB que já não é mais aquele da fundação e dos tempos de poder?

O ex-presidente posa para fotos e pede reuniões com o antecessor e, segundo ele, artífice da “herança maldita”, Fernando Henrique Cardoso. Faz encontros com o senador Tasso Jereissati, procura o ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira, lança convites a Arthur Virgílio Neto — um dos mais duros opositores aos governos do PT quando no Senado — e, no lance mais midiático da temporada, propõe ao antigo oponente Geraldo Alckmin dividir agora com ele a chapa presidencial.

Catedrático na arte de não dar ponto sem nó, Lula faz tudo isso em público. Dispensa o lusco-fusco dos bastidores para exibir sob as luzes do palco sua capacidade de farejar a chance de açambarcar o espólio do tucanato, valioso do ponto de vista simbólico, embora possa estar em baixa no quesito conquista de votos.

O petista ainda não obteve da velha guarda do PSDB nada muito além de fotografias e manifestações um tanto constrangidas de apreço aos gestos (ensaiados) de desprendimento. Mas já conseguiu tirar do caminho um forte concorrente ao governo de São Paulo ao patrocinar um voo da mosca azul ao redor da cabeça de Alckmin.

O petista que já mordeu agora assopra os velhos e tradicionais adversários valendo-se da fragilidade, da insatisfação e da ausência de unidade reinante no ninho. Vai cevando vaidades, comendo o mingau pelas beiradas de maneira paciente e dissimulada.

Se alguns dos alvos da sedução acreditam que Luiz Inácio da Silva pretenda mesmo lhes abrir espaços de poder real caso volte à Presidência, recomendo que apurem os ouvidos para escutar o que os petistas defensores desse experimento ao molde de aliança dizem atrás das portas sob a garantia do anonimato.

No PT, forasteiro não é parceiro. É servidor de quem se espera obediência aos ditames do rei. O mesmo conceito aplicado aos ainda potenciais aliados quando Lula foi eleito sem maioria no Congresso, precisou deles para governar, depois se esforçou para os descartar, mas pagou o preço na denúncia do mensalão e mais à frente um impeachment.

Isso porque Roberto Jefferson, MDB, Centrão e companhia tinham sustentação partidária forte. Não é o caso dos atordoados tucanos, em fase de completa dispersão.

Revista Veja

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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