domingo, janeiro 30, 2022

“Todos que governaram com o Centrão se lascaram”, diz Ciro Gomes, ao expor seu programa

Publicado em 30 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

PDT oficializa a pré-candidatura de Ciro Gomes a presidente com promessa de  rever reforma trabalhista e reeleição - Jornal O Globo

“Petrobras será a maior empresa de energia”, diz Ciro Gomes

Camila Zarur e Jussara Soares
O Globo

Pré-candidato ao Palácio do Planalto pelo PDT, Ciro Gomes chega à sua quarta eleição presidencial apresentando a experiência como trunfo e reafirmando a maior parte das convicções que expôs quatro anos atrás, quando saiu da disputa em terceiro lugar, com 12,5% da preferência do eleitorado. Em entrevista ao GLOBO, ele diz que está negociando uma aliança com Marina Silva (Rede) e revela que, para o posto de vice, sonha com uma mulher ligada a pautas sociais.

No trato com o Congresso, defende uma relação em novos termos — e usa o fim da reeleição como argumento para atrair parlamentares. Para ele, o país pagará um preço alto se o sistema político continuar como está: “O Brasil está ameaçado de ser uma ex-nação”.

O senhor foi candidato à Presidência em 1998, 2002 e 2018 e perdeu. Hoje, está atrás de Lula e Bolsonaro e empatado com Moro. Por que acredita que agora poderá vencer?
Há um tempo natural na política que você tem que construir. O Lula só ganhou na quarta eleição. Sinto que a cada dia fica mais madura a possibilidade de eu ser presidente. Eu sou, sem qualquer falsa modéstia, um olho em terra de cego. Tenho a biografia limpa e sou o mais experiente. O Lula é um animal político genial e sabe que na hora em que eu colar a Dilma com ele, as pessoas vão lembrar a data em que entraram no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), vão lembrar a data em que perderam o emprego. O Moro e o Doria são viúvas do Bolsonaro.

Quais falhas o senhor cometeu nas campanhas anteriores que pretende corrigir agora?
Todo mundo comete falha. Um candidato em campanha fala pelos cotovelos, e o antagonismo fica ali vigiando. Eu não posso me desculpar de erros, alguns de 20 anos atrás. E, acredite, eu aprendi muito. Você imagina, agora, o Lula está fazendo a proeza de juntar o (Guilherme) Boulos e o (Geraldo) Alckmin em São Paulo. Daí só pode sair crise.

Hoje estão na disputa o Bolsonaro, que fez o Auxílio Brasil, e o Lula, do Bolsa Família. Como quebrar a polarização?
Essas políticas compensatórias não têm centralidade. Elas são coadjuvantes importantíssimas, porque 129 milhões de pessoas comem precariamente no Brasil, e 20 milhões passam fome. Sabe qual é o público alvo do Auxílio Brasil? 17 milhões de pessoas. O Auxílio Covid, o que o Congresso votou, atingia 40 milhões de pessoas. Por isso que, ao fazer o Auxílio Brasil, a avaliação de Bolsonaro segue em queda. A memória afetiva do Lula é que ele criou isso (o Bolsa Família). A memória afetiva do Bolsonaro é nenhuma. Cada vez que o Bolsonaro aumenta esse negócio, ele aumenta a memória afetiva do Lula.

O senhor defende o fim da reeleição. Qual modelo vai propor?
Terei apenas um mandato de quatro anos, e eu abro mão da minha própria reeleição, em troca da reforma. A reeleição virou uma causa ancestral não confessada do impasse entre um presidente reformista e um Congresso reativo, porque, se eu acerto a mão, eu praticamente ganho a reeleição.

O senhor faz críticas às alianças feitas com o Centrão pelos governos do PT e de Bolsonaro. Como vai governar?
Quero que o Congresso concorde comigo para a gente enfrentar os lobbies poderosos do baronato, da plutocracia, e que a gente mande esse pacote de reformas direto a um plebiscito popular. Pronto. O Itamar Franco governou assim. Eu governei assim.

O senhor governou um estado…
Mas não deu certo? Collor foi cassado, Fernando Henrique nunca mais venceu uma eleição nacional nem o PSDB, que governou com essa gente. Lula foi parar na cadeia, Dilma foi cassada, Michel Temer saiu pela porta dos fundos, e todos eles governaram com essa gente. E Bolsonaro está desmoralizado governando com essa gente. Todos se lascaram. Ou seja, se repetir isso, o Brasil está ameaçado de ser uma ex-nação.

O PDT negociava com o PSB, que está conversando com o PT. O PSDB e o Cidadania anunciaram que estão em conversas avançadas. O União Brasil está sendo disputado pelo Bolsonaro e pelo Moro. Como estão as suas conversas para alianças?
Eu sou uma pessoa vetada pelo quadro conservador brasileiro, e não é pelos meus defeitos. É por esse conjunto de ideias reformistas que eu defendo. Então, isso se reflete na política. Cadê as alianças do Doria? Cadê a força eleitoral do Doria? Eu tenho conversado com o (Gilberto) Kassab (PSD). Será que ele vai vir para mim? O que eu posso fazer é dialogar.

Qual é o perfil de vice que o senhor procura?
Seria alguém ao Sul, Sudeste, uma mulher, vinculada a essas questões sociais. Mas isso só vai acontecer em julho. Será que eu vou conseguir uma aliança? Se eu não conseguir, solução caseira. Eu e Marina (Silva) temos conversado. Mas lá dentro (da Rede) há outra tensão grave. A Rede, que não queria nem ouvir falar do Lula, agora está dividida.

Membros do seu partido defendem que, se sua candidatura não deslanchar, o PDT deveria retirá-la.
Mentira. Faz parte da estratégia de bastidor do gabinete de ódio do Lula fazer isso. Ele opera dentro de todos os partidos sem nenhum tipo de escrúpulo para causar esse tipo de psicologia. Acabamos de ter uma convenção aberta, 800 convencionais participaram. Não apareceu nenhuma mãozinha para dizer “olha, vamos poupar o Ciro, ele está muito cansado”.

Dentro da bancada do PDT no Congresso, há parlamentares próximos a Lula e próximos a Bolsonaro…
Vão ter que sair do partido. O partido não aceita bolsonarista aqui dentro, ponto final.

O senhor vê a possibilidade de ter uma aliança mais à frente com outros candidatos da terceira via?

Simone Tebet (MDB) tem um grande valor. Não conheço as propostas dela, mas eu sei que ela tem espírito público, honradez, raiz republicana. Acho que o Brasil devia dar uma oportunidade de ouvi-la. E (Luiz Felipe) d’Avila é um camarada que tem o neoliberalismo doutrinário, mas é um republicano decente. O resto é tudo viúva do Bolsonaro. E deixaram de ser Bolsonaro por oportunismo.

Em um eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro, em quem o senhor votaria?
No Ciro Gomes.

Nem cogita essa hipótese?
Nenhuma hipótese. Remember 2018. (Na última campanha eleitoral, o pedetista não se engajou na campanha de Fernando Haddad, do PT, no segundo turno)

O senhor trouxe para a sua equipe o ex-marqueteiro do PT João Santana, que foi condenado por irregularidades na campanha da presidente Dilma. Isso não gera incômodo?
Nenhum. Ele nunca foi condenado por corrupção. Nem Sergio Moro, em suas arbitrariedades, o condenou por corrupção. Pelo contrário, o absolveu. A condenação dele se deu pelo famoso caixa dois. Ele era o marqueteiro mesmo e fez as campanhas, e o seu patrão pagou por fora. Isso é um crime. Ele pagou caro e já extinguiu a pena. É um amigo querido por quem eu tenho um afeto enorme.

A sua campanha lançou o slogan “A Rebeldia da Esperança”. Trata-se de uma estratégia contra as críticas que recebe por seu temperamento?
Talvez seja simplesmente a assunção de quem eu sou mesmo, porque eu sou uma pessoa indignada. Sou rebelde mesmo. Nunca cometi uma arbitrariedade. Me julguem. Não é pitoresco que, sobre um homem com 40 anos de vida pública, tudo o que digam é que ele é destemperado, passional? Chega a ser honroso.

O senhor tem falado em mudar a política de preços e a gestão da Petrobras. Qual a sua proposta exatamente?
Eu vou transformar a Petrobras na maior companhia de energia do mundo. Ela deixará de ser uma petrolífera para ser uma empresa de energia limpa.

O senhor vê alguma possibilidade de privatização da Petrobras?
Eu vou é reestatizar a Petrobras. Como a minha política de preços vai causar um abalo no valor das ações, vou anunciar como fato relevante, junto com o edital, que o governo brasileiro vai comprar ações para ter 60% do capital da companhia.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Excelente entrevista, mostrando que Ciro Gomes é um candidato que tem consistência e pode ser o representante da terceira via. Sua proposta de “reestatizar” a Petrobras e transformá-la na maior empresa de energia limpa do mundo é realmente do interesse nacional. Mas quem se interessa? (C.N.)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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