sábado, janeiro 29, 2022

Rússia ainda não sabe se invadirá a Ucrânia, avalia Alemanha

 




Chefe do Serviço de Inteligência Externa da Alemanha, Bruno Kahl, afirma que Moscou ainda não tomou decisão final sobre o país vizinho. Ataque pode ter vários cenários, como apoio a rebeldes separatistas.

A Rússia ainda não decidiu se atacará a Ucrânia, mas está preparada para fazê-lo, disse Bruno Kahl, diretor do Serviço de Inteligência Externa da Alemanha (BND, na sigla em alemão) nesta sexta-feira (28/01), em meio às crescentes tensões entre Moscou e Kiev.

Os russos reuniram tropas estimadas em 100 mil soldados próximo à fronteira com a Ucrânia, mas vem afirmando que não planejam invadir o país vizinho.

"Acredito que a decisão de atacar ainda não foi tomada", afirmou Kahl à agência de notícias Reuters. "A crise pode se desenvolver de milhares de maneiras", acrescentou, listando cenários, como medidas para desestabilizar o governo em Kiev ou para apoiar separatistas no leste e avançar a linha de demarcação.

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, voltou a asseverar, nesta sexta-feira que, "se depender da Rússia, não haverá guerra": "Não queremos guerras. Mas tampouco permitiremos que nossos interesses sejam grosseiramente pisoteados, ignorados", destacou a estações de rádio russas.

Tentativas de acordo

Os Estados Unidos passaram semanas tentando chegar a um acordo com aliados europeus sobre um severo pacote de sanções, caso a Rússia invada a Ucrânia. Não ficou claro se essas negociações atenderiam às exigências do presidente russo, Vladimir Putin.

Kahl se recusou a comentar se e quais sanções devem ser tomadas em caso de ataque, mas apoiou a abordagem da Alemanha de manter Moscou "no escuro" sobre os movimentos que ela pode ter reservado. "É isso que Putin faz", disse o perito em inteligência.

Ele também expressou dúvidas quanto à viabilidade de uma aliança duradoura entre a Rússia e a China, tendo em vista os interesses distintos dos dois países. "No longo prazo, o urso russo não se sentirá confortável nas garras do dragão chinês", afirmou.

Putin deve viajar em fevereiro para a China, para conversar com o presidente Xi Jinping, com foco principalmente na segurança europeia e no diálogo de Moscou com a Otan e os Estados Unidos.

Possível invasão em fevereiro

A declaração de Kahl vem um dia depois de os EUA alertarem sobre a possibilidade clara de a Rússia invadir a Ucrânia em fevereiro.

Na quinta-feira, o presidente americano, Joe Biden, reforçou o apoio à Ucrânia, em conversa por telefone com seu homólogo, Volodimir Zelenski.

Biden reafirmou a "prontidão dos Estados Unidos, juntamente com seus aliados e parceiros, para reagir de maneira decisiva se a Rússia invadir a Ucrânia", declarou a Casa Branca, em nota, frisando que os EUA também avaliam como ajudar a economia ucraniana.

Na quinta-feira, Lavrov criticou os EUA e a Otan não terem fornecido "nenhuma reação positiva" às propostas do Kremlin de reconfigurar a arquitetura de segurança pós-Guerra Fria, conferindo a Moscou uma esfera de influência na Europa Oriental.

Esperanças de solução diplomática

A Rússia prometeu se reunir com altos funcionários da Ucrânia, Alemanha e França em Berlim, em fevereiro, mantendo vivas as frágeis esperanças de uma solução diplomática, que se mostram ainda mais distantes tendo em vista divisões de pensamento dentro da própria União Europeia.

O ministro da Defesa da Letônia, Artis Pabriks, criticou o governo alemão pelo que chamou de recusa "imoral" em permitir que a Estônia enviasse armas de origem alemã para a Ucrânia. 

"Se uma pessoa está andando por um beco escuro, e alguém está prestes a ser espancado, dizer 'quando você for espancado eu chamo uma ambulância', não é apropriado", comparou. Seus comentários atraíram críticas contundentes do veterano eurodeputado alemão Reinhard Bütikofer, do Partido Verde. 

"Esse é o caminho a seguir, Letônia! Vamos transformar a Otan e a UE num pelotão de fuzilamento circular. Isso ensinará uma lição a Putin e Xi [Jinping]. Certo?", escreveu no Twitter, deixando claro tratar-se de sarcasmo.

Citando o próprio passado da Alemanha, na quinta-feira a ministra do Exterior e colíder do Partido Verde alemão, Annalena Baerbock, descartou o envio de armas para o exterior.

Ucrânia minimiza situação

Em meio à crise, autoridades da UE dizem que houve um aumento na desinformação pró-Kremlin, sobretudo desde novembro de 2021. Os veículos pró-governo russo fizeram inúmeras publicações, descrevendo a Ucrânia como um "brinquedo do Ocidente".

Segundo o jornal britânico The Guardian, chega-se a afirmar que Kiev estaria realizando uma campanha de terror equivalente ao domínio nazista, e que os governos ocidentais planeja um ataque químico de "bandeira falsa" na região de Donbas, na Ucrânia.

Enquanto o Ocidente se mantém alerta para uma possível guerra, o governo da Ucrânia tenta minimizar a ameaça. Segundo The Guardian, o ministro da Defesa ucraniano, Oleksii Reznikov, teria declarado nesta sexta-feira que o total de soldados russos perto da fronteira é de cerca de 130 mil, número comparável ao de meados de 2021. Na ocasião, as tropas foram retiradas após exercícios militares intensos.

No entanto, de acordo com uma pesquisa recente, 48,1% da população do país acredita que a ameaça de uma invasão seja real. Além do aspecto geopolítico, há também uma questão econômica nas desavenças entre Moscou e o Ocidente:o gasoduto Nord Stream 2, entre a Rússia e a Alemanha.

O gasoduto foi construído com o intuito de dobrar a quantidade de gás natural fornecida pela Rússia diretamente para a Alemanha via Mar Báltico – ou seja, sem passar pela Ucrânia, tradicional país de trânsito, e que recebe taxas por isso.

Além disso, a Rússia é acusada de estar por trás de uma insurgência de separatistas no leste da Ucrânia, que já matou mais de 13 mil desde 2014, ano em que Moscou também anexou a Península da Crimeia, pertencente ao território ucraniano.

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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