domingo, janeiro 30, 2022

Da professorinha rural à Petrobras

 




Uma prática política pode ser considerada imoral em razão das consequências perversas à coletividade

Por Bolívar Lamounier* (foto)

No começo dos tempos, os deputados gastavam boa parte de seu tempo pleiteando a nomeação de parentes e amigos para a agência local dos correios ou para o ensino primário rural.

As coletividades locais não se importavam com isso, pois de alguma forma tais funções haveriam de ser preenchidas, e não sentiam impacto algum em suas vidas, se o fossem pela influência de algum deputado ou por algum outro meio. 

Reparem que a dimensão dos impactos é fundamental. Uma prática política pode ser considerada imoral não só porque incorpora valores que a sociedade condena, mas também em razão do alcance das consequências perversas que pode produzir sobre a coletividade. 

No plano dos valores, raramente questionamos a atividade dos governos, porque somos um País quase sem religião e moral, no sentido profundo dos dois termos. Somos indiferentes às questões mais importantes que avultam no debate público, mas não vacilamos em qualificar como desonestas as posições de pessoas pelas quais temos antipatia, já sabendo que elas nos pagarão na mesma moeda. Se assim é, de onde, então, poderia vir o impulso para um combate sério à corrupção? Imagino que tal impulso, se e quando vier, terá de vir do interesse individual, quero dizer, do cálculo utilitário de vantagens e desvantagens. 

Em tese, o menos letrado dos ignorantes deveria compreender que um presidente que quase quebra a Petrobras está quebrando uma parte de seu patrimônio e da parte dele que poderia legar a seus filhos e netos. Se lê jornais, deve saber que o Brasil foi obrigado a pagar bilhões de dólares aos acionistas americanos da empresa, mas parece não se importar. Tanto não se importa que aí estão milhões de cidadãos declarando intenção de voto no sr. Luís Inácio Lula da Silva, na esperança até de elegê-lo no primeiro turno. Quer dizer: entre perpetuar o populismo lulo-petista e defender seu patrimônio, os referidos cidadãos optam pela primeira alternativa. Será o caso de dizer que somos uma sociedade de otários? 

Essa interpretação é tentadora, mas vamos com calma. Muitos dos que nos parecem otários são na verdade espertíssimos. Dão de ombros para qualquer embate público porque não têm do que se queixar: são ricos ou já têm seu lugar assegurado entre os privilegiados do serviço público. Pelo que me consta, existem entre os servidores públicos 50 carreiras com um salário médio de R$ 29 mil. Mas e os outros milhões que se dispõem a ver Lula no Planalto por mais quatro ou oito anos?

Lembremos, primeiro, que o Brasil - como dezenas de outros países -, é brutalmente desigual no que toca à escolaridade e ao conhecimento. Os quinze ou vinte por cento situados no topo apreendem e processam os fatos que leem no jornal sem dificuldade. Os quarenta ou cinquenta por cento abaixo sabem ler e escrever, mas não compreendem boa parte das informações a que têm acesso, e por isso se desinteressam delas, inclusive de muitas que podem ter impacto direto em suas vidas. Os quarenta ou trinta por cento inferiores quase nada assimilam, seja porque são faltos em escolaridade, seja porque saem cedo para trabalhar e chegam em casa tarde e exaustos. Não têm, portanto, como apreender os fatos noticiados e muito menos estabelecer alguma conexão entre eles e seus interesses pessoais e familiares.

Mas essa é só uma parte da história. Nas democracias, a política sempre implica negociação. Esta afirmação se aplica à grande maioria das questões que aparecem na agenda pública, mas os negociadores são menos numerosos e muito mais poderosos conforme a importância (vale dizer, o alcance das consequências) que tendem a produzir. Mas a negociação sempre se impõe, sendo, pois, forçoso admitir que haverá situações nas quais um ou mais dentre os protagonistas terão de apoiar alternativas que, no fundo, consideram imorais. Suponhamos que você, uma pessoa moralmente rigorosa, fosse um dia parar na Câmara dos Deputados. Um colega pede o seu apoio para um projeto que você considera ruim ou imoral. Se não for um projeto de grande alcance (um daqueles depreciativamente designados como “meramente municipal”), você tenderá a atender seu colega, pela singela razão de que precisará dele quando for apresentar aquele projeto que acalentava desde a campanha eleitoral. Nos Estados Unidos, isso se chama horse-trading. “Vá lá, o mundo não vai acabar por isso”, é um pensamento que talvez lhe passe pela cabeça. 

Suponhamos, porém, que a situação hipotética de que estamos tratando seja um ataque manifestamente eleitoreiro à uma agência reguladora como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cuja importância a pandemia tem posto em relevo diariamente? Ou uma questão de corrupção em larga escala, como a que se evidenciou na Petrobras - corrupção premeditada para beneficiar meia dúzia de empresários inescrupulosos, desmoralizando nosso País no exterior, afugentando investimentos, impedindo a recuperação da economia e aumentando o desemprego. Em tais casos, você dirá “vá lá, o mundo não vai acabar por causa disso”?

*SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

O Estado de São Paulo

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas