domingo, janeiro 30, 2022

Pistoleiros ficha limpa

 




Por Rafael Soares*

Quando foi morto numa operação policial no interior da Bahia, em fevereiro de 2020, o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Adriano Magalhães da Nóbrega (foto) era apontado pelo Ministério Público como o matador de aluguel mais letal e mais bem pago do Rio. Investigadores estimam em mais de uma centena a quantidade de vítimas que o ex-PM fez em duas décadas de carreira no submundo. Nóbrega, entretanto, nunca chegou a ser formalmente acusado da grande maioria desses crimes e morreu sem nenhuma condenação por homicídio nas costas.

O ex-PM não descobriu a fórmula do assassinato perfeito. Muito pelo contrário: indícios de sua participação em vários crimes abundavam, mas foram ignorados pela polícia. Ao longo da apuração que resultou no podcast “Pistoleiros”, lançado em dezembro passado e disponível no Globoplay, coletei provas da participação de Adriano em oito homicídios diferentes entre 2005 e 2011.

Num desses casos, a execução do bicheiro José Luiz Lopes, o Zé Personal, em 2011, a polícia já tinha provas substanciais contra Nóbrega semanas depois do crime: testemunhas apontaram, em depoimento, o ex-capitão como mandante do homicídio, e um de seus capangas mais próximos, cuja voz foi reconhecida por um homem que presenciou o crime, como um dos executores. De lá para cá, nada foi feito. O inquérito vagou por gavetas de autoridades e chegou a ser destruído por goteiras na delegacia. Até hoje, o caso segue em aberto.

Nóbrega não é um caso único. Ao ser preso pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o sargento reformado Ronnie Lessa foi apresentado à sociedade como um matador de aluguel profissional, concorrente do ex-capitão no mercado da morte. Só que, até então, ele nunca havia respondido por homicídio. Somente após sua captura, o MP conseguiu provas de que Lessa havia deixado um rastro de sangue sem ser incomodado: dados obtidos em suas contas de e-mail revelaram que, antes de diversas execuções que aconteceram nas duas últimas décadas e até hoje não esclarecidas, o PM fez buscas na internet por informações pessoais (nomes completos, endereços, CPFs) das vítimas. Agora, o MP quer retomar as investigações sobre esses crimes.

A situação dos matadores de aluguel de ficha limpa ilustra quanto o sistema de Justiça Criminal é falho no Rio: segundo um estudo do MP estadual, só 3,5% dos homicídios cometidos em 2015 no estado tiveram sentença no Tribunal do Júri quatro anos depois. Por outro lado, do total de casos analisados, 60% ainda estavam sob investigação, ou seja, ainda permaneciam sem solução, após quatro anos, e outros 20% já tinham sido arquivados.

Outro levantamento, do Instituto de Segurança Pública (ISP), revela que só 21,2% dos homicídios registrados no Rio em 2018 haviam sido solucionados pela Polícia Civil até o fim de 2020 — ou seja, quatro a cada cinco assassinatos seguiam sem esclarecimento dois anos depois dos crimes.

Os números e a trajetória de impunidade dos pistoleiros escancaram uma verdade inconveniente: as autoridades fluminenses pouco sabem sobre o crime organizado que age no estado. Diante das taxas de resolução incipientes, não é possível, por exemplo, determinar a participação de tráfico e milícia no total de homicídios no estado. Ou estimar o tamanho e o poder do mercado de matadores de aluguel que agem no Rio.

Se não fosse a pressão popular pela solução do caso Marielle, Nóbrega e Lessa provavelmente ainda estariam matando impunemente, abaixo do radar da polícia, do MP e da Justiça. O assassinato da vereadora — e a mobilização que lhe sucedeu — obrigou as autoridades a mexer numa parte do submundo do Rio até então intocada. Mas, claro, eles não eram os únicos atores nesse mercado. Quantos outros matadores de aluguel ainda permanecem nas sombras, beneficiados pela incompetência do Estado?

*Repórter especial do Globo

O Globo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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