domingo, janeiro 30, 2022

Amazônia: miçangas, espelhos e subdesenvolvimento

 




Em um instigante artigo publicado no jornal O Globo de 9 de janeiro, intitulado “Miçangas e espelhos”, o economista paraense Mário Ramos Ribeiro tocou em um ponto crucial sobre os debates referentes ao futuro da Amazônia: o fato de tais discussões se darem majoritariamente fora da região e com reduzida participação dos seus habitantes, aí incluídas as lideranças políticas, empresariais e da cidadania em geral.

Segundo ele, os povos amazônicos assistem à distância as discussões sobre o futuro de sua economia e sequer têm a oportunidade de participar delas. Portanto, propõe, “não seria demais meditar sobre o subdesenvolvimento da Região Amazônica, a fim de evitar erros e prejuízos irreversíveis”.

Ribeiro não é um mero diletante, como muitos “defensores” da Amazônia que residem a milhares de quilômetros da região e conhecem a sua realidade apenas superficialmente, apesar de, quase invariavelmente, serem as referências mais solicitadas para se manifestar sobre o seu futuro, principalmente, pela mídia. Ex-presidente do Banco do Estado do Pará, ele foi secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional (governo Temer) e é atualmente professor de Economia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Assim sendo, suas avaliações são dignas de atenção:

    A questão econômico-ambiental, central à Amazônia, hoje é esta: como integrar a economia da região a sistemas dinâmicos em inovação e tecnologia capazes de aumentar a produtividade total em harmonia com o meio ambiente? Ora, como se sabe, essa questão é exatamente a mesma que aflige qualquer outra economia nacional ou regional do planeta! Mas ela se torna dramática quando se verifica que a integração da Amazônia a tais sistemas econômicos está fora de cogitação das políticas públicas que lhe são mundialmente oferecidas.

    Em verdade, nem mesmo a alternativa de participar desse debate é dada à população amazônica. Há um claro conflito entre o bem público regional (integração da economia amazônica às cadeias mundiais de inovação e tecnologia limpas) e o bem público mundial (uma economia descarbonizada). Se o bem público regional será sacrificado em benefício de um valor maior para toda a humanidade, a economia regional deveria ser compensada por ser impedida de escolher entre as alternativas de investimento e consumo descarbonizados a que o resto do mundo tem livre acesso. A compensação serviria para evitar que a subcidadania se agregasse ao já penoso subdesenvolvimento.

Em seguida, ele critica o modelo da “bioeconomia” que está sendo proposto como “compensação” aos amazônidas, como, supostamente, “a única forma de ser superada a troca onerosa (trade-off) entre a atividade econômica e o meio ambiente”:

    (…) Essa alternativa inviabiliza a elevação da qualidade de vida na Amazônia. A “bioeconomia” confunde projeto de pesquisa com modelos de desenvolvimento; ela é apenas uma atividade de extrativismo rebatizada, com baixíssimo valor adicionado, cuja oferta de produtos raramente integra cadeias de valor substantivo. Não à toa, o extrativismo sempre foi apendicular ao desenvolvimento econômico e jamais o substituirá.

    Se é essa “bioeconomia” que é a nova top model do ambientalismo romântico, então devem-se colocar com urgência as barbas de molho, pois não é esse o caminho de inserção da Amazônia no paradigma da destruição criativa. Lembre que foi por essa árdua trilha — em que as inovações permitiram a emergência de novos sistemas econômicos, com melhores padrões de bem-estar — que antes caminharam as regiões e os países desenvolvidos.

Para ele, o desenvolvimento da região não pode prescindir de “internalizar economicamente inovação e tecnologia”, Caso contrário, conclui, “sob a dominância da ‘bioeconomia’, resta à Amazônia receber uma grande oferta de miçangas e espelhos”.

As considerações de Ribeiro foram endossadas pelo filósofo, administrador e consultor de empresas amazonense Alfredo Lopes, cofundador do portal Brasil Amazônia Agora, em um artigo publicado dois dias depois. De acordo com Lopes: “Sua inquietação procede, pois as manifestações, em âmbito mundial sobre os destinos da Amazônia nunca foram tão prolixas e ao mesmo tempo tão estéreis. Multiplicam-se as soluções de algibeira, tiradas do colete da superficialidade e do achismo que levam a lugar algum.”

Todavia, ele critica a generalização feita por Ribeiro em relação à bioeconomia:

    (…) É inaceitável tratar a economia da biodiversidade como extrativismo rebatizado. A comparação apressada denota um absoluto desconhecimento de muitas das ações já em andamento que postulam a bioeconomia como matriz econômica baseada em inovação tecnológica. Essa matriz resulta de uma convergência de saberes da nanobiotecnologia em consonância com tecnologia da informação e da comunicação…  Bioeconomia não é extrativismo disfarçado, é mimese do bioma e da bioética, onde a dinâmica natural e florestal vira paradigmas a serem utilizados como ferramentas da inovação tecnológica, reunindo a nanobiotecnologia, tecnologia da informação e da comunicação.

E cita exemplos da própria região:

    A Convergência Tecnológica de que precisamos é o nosso desafio e a melhor saída para uma obviedade surpreendente (vide https://www.cidp.pt/revistas/rjlb/2020/5/2020_05_0557_0578.pdf). Aqui na Amazônia, essa discussão está apresentando rápidos avanços, com produtos e procedimentos altamente inovadores e grandes impactos econômicos e sociais. Veja a questão do açaí, a solução de infraestrutura do Grupo Bertolini. As chamadas TICs [tecnologias de informação e comunicações] e a revolução das nanotecnologias possibilitam grandes sinergias, produzindo resultados espetaculares e inimagináveis há bem pouco tempo. O laboratório nacional de nanotecnologia em São Carlos (SP), da Embrapa Instrumentação, que era uma fantasia faz poucos anos, hoje atende as empresas de fabricação de preservativos, pneus e produtos hospitalares. Elas encomendam clones da floresta amazônica a partir da seringueira, a Hevea brasiliensis, coletadas no Rio Juruá (Amazonas), onde brota uma espécie considerada perfeita em sua configuração biomolecular. Isso não é extrativismo e sim um acontecimento científico e tecnológico de manejo florestal sustentável que qualquer país civilizado que investe e respeita o conhecimento gostaria de chamar de seu. O economista Denis Minev, atualmente CEO do Grupo Bemol, acredita que em breve o Brasil vai entender, degustar e abraçar a Amazônia, suas oportunidades e potencialidades. Quem sabe, este assunto possa substituir o debate estéril da política menor nas próximas eleições e ganhe o fôlego e a abordagem de que a Amazônia precisa para emprestar sua grandeza à construção do país.

Desafortunadamente, tais iniciativas isoladas ainda estão longe de serem integradas em um amplo processo inserido em políticas públicas voltadas para o pleno desenvolvimento da região. Em um artigo anterior, de dezembro de 2019 (“Amazônia, a pátria de novos empregos”), o próprio Lopes já havia sinalizado um requisito fundamental para isso: “(…) É preciso envolver num grande projeto o setor privado, a universidade e o poder público. É inaceitável que o Brasil tenha menos de 1% de seus cientistas atuando na Amazônia, onde o mundo civilizado está de olho desde a descoberta da América. Os países centrais já teriam posto milhares de cientistas e laboratórios para planejar e implantar um futuro mais saudável e mais próspero.”

Em essência, apesar de divergências pontuais, tanto Ribeiro como Lopes vocalizam uma clara percepção de que o pleno desenvolvimento da Amazônia não poderá quedar vinculado aos espelhos e miçangas provenientes do exterior, na forma de instrumentos financeiros condicionados a conceitos simplistas e equivocados de sustentabilidade, como pensam muitos. Em outras palavras, terá que ser decidido e implementado pelos brasileiros e, principalmente, pelos amazônidas.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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