domingo, janeiro 30, 2022

Desafios da reaproximação Brasil-Rússia

 




A ostensiva reaproximação com a Federação Russa apresenta ao Brasil dois desafios fundamentais. O primeiro é dar a ela um conteúdo prático, em termos de ampliação das relações comerciais e econômicas e cooperação para o desenvolvimento em várias áreas. O segundo, inseri-la adequadamente no contexto da reconfiguração geoestratégica global em curso, evitando, ao mesmo tempo, enredá-la na armadilha da “Guerra Fria fake” proposta pelos EUA frente à Rússia.

Vislumbrada desde a participação virtual do presidente Jair Bolsonaro na reunião do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, em junho último, a reaproximação entre Brasília e Moscou foi aprofundada no final do ano passado, com as visitas oficiais à capital russa do chanceler Carlos França e do secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, almirante de esquadra Flávio Rocha, e deverá culminar com a viagem do próprio presidente a Moscou, em fevereiro, a convite de seu homólogo russo Vladimir Putin.

A reaproximação coincide com a oportunidade da presença do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas, nos próximos dois anos, o que ajuda a explicar a indisfarçada inquietação manifestada pelos EUA, evidenciada pela iniciativa de uma videoconferência do secretário de Estado Anthony Blinken com França, em 10 de janeiro. Na ocasião, segundo o boletim do Departamento de Estado, Blinken enfatizou o que chamou “prioridades compartilhadas, incluindo a necessidade de uma resposta forte e unida contra novas agressões russas contra a Ucrânia” (Resenha Estratégica, 12/01/2022).

Tal preocupação já havia se manifestado logo após a participação de Bolsonaro no Fórum de São Petersburgo. Em agosto, a Casa Branca enviou a Brasília o conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan e o assessor presidencial Juan González, para reforçar a oferta de elevar o Brasil à condição de “parceiro global” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), dentro de uma agenda que ressaltava uma “presença militar” da Rússia na América Latina, inclusive, na vizinha Venezuela.

Da mesma forma, o reaquecimento das relações bilaterais tem causado incômodo entre segmentos das elites nacionais mais inclinados aos interesses estratégicos e econômicos dos EUA, inclusive na mídia, propensos a reproduzir internamente tais tentativas de gerar um clima de Guerra Fria. Exemplos deste desconforto provêm de notórios “russófobos” midiáticos, Jamil Chade (UOL) e José Casado (Veja).

O primeiro usou sua coluna de 11 de janeiro (“Cúpula entre Bolsonaro e Putin colocará Brasil sob pressão”) para um duplo ataque aos chefes de Estado. Bolsonaro é acusado de viver “um isolamento esplêndido diante da impossibilidade de ser recebido por alguns dos principais chefes de Estado pelo mundo ocidental”, e a visita a Moscou é apresentada como “uma eventual saída” para mostrar “que não foi abandonado no cenário internacional”. Por sua vez, Putin é rotulado como um “oportunista”, que vê o encontro “como uma chance de ampliar sua influência na América do Sul”.

Chade encerra a sabujice com uma chave de pirita (mineral dourado conhecido como “ouro de tolos”): “No Conselho de Segurança desde 1º de janeiro de 2022, a diplomacia brasileira vive sua primeira encruzilhada geopolítica, principalmente se ainda pretender buscar algum status de aliado militar de membros da OTAN. Hora de os profissionais do Itamaraty definirem o rumo da política externa e tirarem as crianças da sala.”

Ele esquece que os adultos retomaram o comando do Itamaraty após a saída de Ernesto Araújo, cegamente comprometido com os interesses estadunidenses que associava a uma ilusória “defesa da civilização cristã ocidental”. Ademais, a reaproximação a Rússia não implica em um alinhamento automático, mas no restabelecimento da política exterior independente, já debilitada durante todo o período da “Nova República”. E esta é a verdadeira preocupação de Washington e seus simpatizantes brasileiros.

O texto de Casado, publicado em 17 de janeiro, explora as repercussões das declarações do vice-chanceler russo Sergei Ryabkov e do vice-presidente do Comitê de Defesa do Parlamento (Duma), Alexei Zhuravliov, sobre uma eventual colocação de armas nucleares em países como a Venezuela, Nicarágua e Cuba, em resposta a um avanço da OTAN na Ucrânia. Em particular, criticou o silêncio a respeito: “Efeitos colaterais já são evidentes para o Brasil, mas o governo e os candidatos à presidência se mostram alheios à realidade.”

A questão é que declarações feitas no calor de discussões diplomáticas frustrantes não devem ser confundidas com probabilidades reais, que exigem análises menos filtradas por preconceitos ideológicos e mais baseadas no conhecimento das circunstâncias concretas.

Ao contrário da estadunidense, a estratégia militar russa é eminentemente defensiva, ainda que não exclua a possibilidade de ações preventivas em casos extremos, e baseada em estritos cálculos de custo/benefício, compatíveis com um orçamento militar inferior ao do Reino Unido e equivalente a menos de 10% do oficialmente disponível ao Pentágono. Contra as mais de 800 bases e instalações militares dos EUA em 80 países, a Federação Russa tem apenas dez (na Síria, Quirguistão, Cazaquistão, Armênia, Bielorrússia, Abcázia, Ossétia do Sul, Tajiquistão e Transnístria). Com exceção da Síria, todas se situam em antigas repúblicas soviéticas e a maioria delas abriga estações de radar, vigilância e ensaios, sendo desprovidas de capacidade ofensiva.

Sob tais critérios, o estabelecimento de infraestruturas militares ofensivas na América Latina não faria o menor sentido para a Rússia. A alternativa teria custos econômicos e políticos de tal magnitude que superariam em muito as eventuais vantagens estratégicas. Dificilmente, por exemplo, as nações latino-americanas veriam com bons olhos a instalação de potenciais alvos de uma retaliação militar estadunidense na sua vizinhança. De resto, as Forças Armadas russas podem perfeitamente dispensar bases próximas para alinhar ameaças críveis ao território estadunidense, para o que a ampliação do seu formidável arsenal de mísseis hipersônicos (contra os quais os EUA não têm defesas viáveis) representa uma opção muito mais econômica e efetiva.

Portanto, o Brasil, às voltas com uma plêiade de problemas sérios, não tem motivo algum para preocupar-se com elucubrações do gênero. Ao contrário, o País pode e deve tratar de ampliar e melhorar a pauta comercial bilateral (atualmente, em desvantagem para o Brasil) e aprofundar as oportunidades de cooperação com a Rússia. Áreas promissoras são a energia nuclear, tecnologia aeroespacial, pesquisa científica e tecnológica avançada e outras, além de atuar em sinergia com iniciativas que reforcem a consolidação de uma ordem de poder multipolar e cooperativa nas relações internacionais.

Um exemplo das possibilidades foi proporcionado pelo veto russo no Conselho de Segurança das Nações Unidas à resolução que pretendia incluir as mudanças climáticas entre as ameaças de segurança nacional, em dezembro último. Se tivesse sido aprovada, a proposta tinha um sério potencial de criar problemas para o Brasil, no tocante à possibilidade de considerar a imposição de uma “proteção” do bioma Amazônia como requisito de segurança internacional.

Finalmente, é importante contextualizar que todo este quadro estratégico decorre da derrota estratégica da “Nova Ordem Mundial” estabelecida na esteira da dissolução da União Soviética, em 1991. O pensamento hegemônico ocidental não assimilou a ressurreição estratégico-militar da Rússia, na qual muitos veem a inspiração de uma autêntica revolta global contra a “Nova Ordem” e a cultura do “identitarismo” fomentada pelos seus mentores como um instrumento de guerra irregular contra os Estados nacionais enquadrados na sua agenda. Recorde-se que, no Brasil, a emergência da “Nova Ordem” motivou o abandono da sua política externa independente, gerando uma acomodação às pautas da “globalização”, entre elas, a renúncia a certas tecnologias de ponta e a submissão passiva aos ditames do ambientalismo-indigenismo. Por conseguinte, nada mais natural que, nos seus estertores, o Brasil se empenhe para recuperar a sua independência externa e a noção plena da sua grandeza como coprotagonista das mudanças globais em marcha.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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