sábado, janeiro 29, 2022

O brasileiro típico acha que com educação todo mundo vive bem

 




Ora, é muito mais fácil encontrar bom-senso num pedreiro analfabeto do que numa doutora em estudos de gênero. 

Por Bruna Frascolla (foto)

Volta e meia escrevo sobre algum problema cultural e aparece alguém na caixa de comentários dizendo que a solução é a educação, referindo-se à escolar e não à doméstica. De fato, creio que possamos dizer que a educação, a escola boa, são, no senso comum brasileiro, uma espécie de óleo de peixe elétrico: cura espinhela caída, cura misandria, cura dependência de drogas lícitas ou ilícitas, cura a criminalidade. A educação está para o brasileiro médio como o dinheiro está para o burocrata médio. O burocrata típico acha que com dinheiro todo mundo vive bem; o brasileiro típico acha que com educação todo mundo vive bem.

Ainda acho o brasileiro mais sensato do que o burocrata, já que vemos por aí gente fazendo muita besteira com dinheiro. Cheirar cocaína é vício caro. Comprar coisas de alto luxo pode significar apenas apreço por ostentação, em vez de real desfrute de uma qualidade superior… Em índices sociais, a maior quantidade de dinheiro pode significar também mero alto custo de vida, já que as pessoas precisam de mais para bancar o básico. Marcadores abstratos como a linha da pobreza consideram apenas a renda per capita mensal de um indivíduo, e deixam de lado propriedade. Ou seja: se um pequeno proprietário rural que se locomove por tração animal ganhar x reais, estará pior no índice do que um favelado da metrópole que ganhar 2x e gastar x com aluguel e transporte. Burocrata é um negócio impressionante.

Mas se podemos olhar para endinheirados usando dinheiro para fazer mal a si mesmos, que dizer do hospício a céu aberto que as universidades proporcionam ao público? Ora, é muito mais fácil encontrar bom-senso num pedreiro analfabeto do que numa doutora em estudos de gênero. “Isto é resultado da doutrinação!”, dirá o brasileiro médio. “Precisamos de verdadeira educação para combater a doutrinação!”, acrescentará, sem desapear da magnífica eficácia do seu óleo de peixe elétrico.

Concordo plenamente que doutrinação é um obstáculo à educação. Inclusive por aspectos práticos, porque ou bem você se dedica a ensinar politicagem, ou bem se dedica a ensinar a ler e escrever. Ainda assim, dá para devolver a pergunta: os homens de letras são mais doutrinados por frequentarem um ambiente ideologizado, ou o fato de um ambiente ser cheio de homens de letras o torna mais propenso à ideologização? Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?

Falta de humildade é defeito de letrado

Eu fico com a segunda explicação. Vamos para uma coisa menos maluca do que ideologia de gênero, e que gozou de muita reputação entre os letrados de um modo geral: comunismo. No século passado, não era difícil encontrar em ambientes de classe média e alta quem o defendesse. Nas faculdades, então, era uma coqueluche. Quanto mais alguém estudasse, maiores as chances de ser comunista. E quanto menos estudasse, maiores as chances de sequer saber o que é comunismo.

Imagine-se agora explicando para um peão analfabeto o que é comunismo. Não o comunismo real, mas a miragem que seduziu tanta gente: um mundo em que nada é de ninguém porque tudo é de todos, e todos trabalham para todos de boa vontade, sem ninguém precisar nem obrigar. É possível que o peão analfabeto acredite em tal coisa? Só se houver um elemento sobrenatural no meio, do tipo: “Jesus voltará à terra, e então todas as coisas serão de todo mundo, e o trabalho não será mais um suplício. Todos viverão para sempre sem pobreza e carestia, porque todos trabalharão para todos como irmãos.” Aí, sim. Com um toque de milagre, a coisa fica crível para quem já crê em milagres – e peões analfabetos em geral creem num mundo cheio de elementos sobrenaturais.

Mas chegue para um peão analfabeto e diga: “Vamos pegar em armas, matar os donos de tudo e fazer com que ninguém mais possa ser dono de nada depois!”. Além do óbvio problema moral – matar os proprietários –, quais as chances de isso dar certo, aos olhos de um peão? No entanto, para os letrados isso era perfeitamente plausível. O milagre é que é inacreditável.

Acho que o leitor pode concordar comigo quanto à maior religiosidade ou supersticiosidade dos menos estudados e ao maior ateísmo dos letrados. Caso queiramos procurar um ateu, vamos às universidades e redações; caso um pesquisador queira resgatar as crenças mais ancestrais, um analfabeto é a fonte ideal. Os ateus estão desproporcionalmente presentes entre a gente de letras e a burocracia. Isso não se deve a uma “cristofobia estrutural” (embora haja um grande preconceito contra evangélicos nesse meio), mas sim a uma cosmovisão bastante racionalista. O letrado vê a natureza como um ambiente controlável; o ignorante, ao contrário, a vê povoada por espíritos, santos e demônios que ele não pode controlar. Não é um acaso que os três grandes planificadores do século XIX – Saint-Simon, Comte e Marx – sejam ateus e racionalistas. Assim, a crença na capacidade humana é exacerbada. Os letrados costumam não ser nada humildes, e sua arrogância os leva a formular grandes os sistemas de planificação que são propagados no ambiente acadêmico. A ideologização é consequência de uma disposição arrogante dos homens de letras, e não o contrário.

Simplicidade pode ajudar

Como há mais devotos do que ateus, digamos que, no que concerne à visão de mundo, a sociedade tende a ser mais parecida com o analfabeto do que com o homem de letras, e que o primeiro pode ser visto como uma resistência conservadora involuntária no campo da moralidade.

Não adianta nem a TV falar “todes”, que ele simplesmente não vai entender o que ela quer dizer com isso. Ele não lê coisas em rede social, porque não sabe ler. Ele não vai entender ideias complexas e abstratas, porque não está acostumado a entender ideias complexas e abstratas. Tente explicar a um analfabeto que a distinção entre cis e trans é diferente da distinção entre homo e hétero, de modo que homem cis (com pênis) que gosta de mulher trans (com pênis) é hétero e não homo (De acordo com a ideologia de gênero, isto que acabei de escrever é verdade). O analfabeto não apreende esses conceitos, nem está interessado. Sabe apenas o que é “uma bicha” e o que é “um traveco”; qualquer conversa sobre “macho” gostar do membro viril alheio é coisa de gente doida.

No caso do comunismo, também há todo um jargão complexo que, para ser apreendido, demanda mais miolos do que um analfabeto quer gastar.

Analfabetos não vão bolar raciocínios complexos. Se só existissem analfabetos, não haveria física newtoniana nem romances complexos como o Quixote. Mas complexidade não é uma coisa boa em si mesma. Como a nossa sociedade vem valorizando as coisas complexas como boas em si mesmas, ficando boquiaberta com qualquer falastrão que apresente números e use jargão, essa simplicidade dos analfabetos acaba se tornando uma virtude.

Importância social da opinião entre os letrados

Por fim, a gente simples, tendo apenas opiniões simples e sendo dada a discutir apenas coisas banais, não é julgada em função de suas opiniões. É julgada por sua conduta: por aquilo que faz, não pelo que diz. No mundo das letras, opinião é trabalho; assim, faz sentido que as pessoas se julguem em função de suas opiniões. O juízo que começa no plano intelectual (“Fulano é um idiota para acreditar numa estupidez dessas”) logo passa ao plano moral (“É impossível que Fulano acredite nessa estupidez que diz. Ele está esperando algum ganho com isso!”). E como as pessoas são muito julgadas pelo que dizem, acaba-se negligenciando o que fazem. Eis o palco armado para a hipocrisia se instaurar.

De resto, como falar é fácil, cria-se também o espaço ideal para a irresponsabilidade. E assim ficamos na atual situação em que os letrados são pressionados por seus pares para falar bobagem em uníssono, sem ligar para a realidade dos fatos. E como o que importa, para julgar alguém, é tão somente o que a pessoa diz, essa pressão só tende a aumentar.

Creio que assim se formem as bolhas de opinião. E não creio que o ensino formal da população ajude nesse processo, já que isso só faz com que mais gente pense com cabeça de letrado.

Gazeta do Povo (PR)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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