sábado, janeiro 29, 2022

O impacto da geringonça bolsonarista




Visão predatória e de curto prazo do país guia aliança do Centrão com o bolsonarismo

Por Fernando Abrucio* (foto)

Todos os países democráticos precisam montar coalizões para produzir governabilidade. Nestes tempos de grande complexidade social, essas alianças se tornaram ainda mais amplas e, por vezes, inusitadas. Assim é o caso da Alemanha atual, com a parceria entre social-democratas, verdes e liberais - a chamada “coalizão semáforo” por causa das cores dos três partidos. Também foi o caso recente de Portugal, com sua Geringonça, que gerou uma improvável junção na esquerda durante cerca de seis anos.

O presidente Bolsonaro, inicialmente avesso a qualquer pactuação com os partidos políticos, também montou sua geringonça, presente no casamento entre bolsonarismo e o Centrão. O efeito desse pacto, aparentemente estranho, já é visível - e negativo - para o país, mas poderá ter impactos ainda mais profundos se não entendermos qual bicho surgiu dessa junção.

O casamento entre o bolsonarismo e o Centrão nasceu de uma circunstância de sobrevivência e de uma oportunidade de fortalecimento inédito. A circunstância de sobrevivência foram os vários fatos que desgastaram Bolsonaro e sua família: a prisão de Fabrício Queiroz, o amigo que sabe tudo do passado; as crises com o STF e a possibilidade de abertura de um processo de impeachment após cada arroubo autoritário e desmedido do chefe maior e/ou do séquito.

O pior é que o próprio governo se tornou fonte de crimes, sendo as mortes gigantescas e evitáveis ocorridas na pandemia de covid-19 o maior escândalo do país desde a redemocratização - afinal, milhares de vidas perdidas ou de pessoas sequeladas por inépcia e incentivo governamental é algo mais grave e profundo do que qualquer problema dos governos anteriores.

Para evitar o pior, Bolsonaro entregou boa parte do poder paulatinamente a parlamentares do chamado Centrão, comandados por Arthur Lira. Aqui está a oportunidade de um fortalecimento inédito, pois se a maioria desses deputados (e alguns senadores) serviram aos mais diversos governos, nunca lhes fora dada a chave do cofre federal como agora, além do comando de toda a pauta legislativa da Câmara.

Mas se engana quem pensa que tal união aparentemente insólita serviu para acabar com o modelo original do bolsonarismo. Trata-se de um casamento em que se mantiveram, em alguma medida, as individualidades e no qual se produziu um novo ser, que junta o que cada qual tem em comum com o outro. Por isso, é uma soma em que as partes se mantêm como atores do jogo político.

Vale então entender cada um dos elementos da geringonça à brasileira. O primeiro remete ao bolsonarismo-raiz, que entregou sim parte do poder, mas continua fazendo uma política centrada em valores e na definição de inimigos que devem ser atacados. A entrega do cofre ao Centrão não acabou com a lógica de guerra cultural que move os bolsonaristas, a qual, ressalte-se, também está ligada à defesa dos interesses de certos grupos pertencentes a essa facção política. Em poucas palavras: o bolsonarismo não está atrelado apenas a questões de moralidade; ele é igualmente relacionado a nichos de poder e renda.

Um dos principais instrumentos do bolsonarismo de mobilização política e (tentativa) de destruição dos inimigos é a sabotagem das instituições e políticas públicas construídas desde 1988, marco da redemocratização no Brasil. O presidente Bolsonaro e seu séquito atuam continuamente em prol da desmoralização e inviabilização de várias partes desse pacto constitucional. É uma lógica de guerrilha permanente contra estruturas institucionais e setores como a ciência, a universidade, as escolas, a cultura, os artistas, os ambientalistas e todos aqueles identificados como alvos preferenciais de uma cruzada destinada a construir a coesão do bolsonarismo.

A política da sabotagem se soma ao incentivo a grupos e ideias vinculados à destruição não só dos fundamentos do pacto constitucional, como também de uma concepção mais moderna de sociedade. Daí a defesa da autonomia e rebelião dos policiais, do armamentismo e da lógica brucutu de segurança pública, como igualmente da visão conservadora das ações culturais e educacionais, buscando deslegitimar os especialistas e valorizando a prevalência das escolhas das famílias, o que gera pautas como a Escola sem Partido e o homeschooling. Na mesma linha, fica-se do lado do senso comum contra a ciência, em prol da perspectiva do “homem comum” e suas decisões livres de ordenamento estatal. Por fim, apoia-se propostas legais que favorecem um modelo predatório de ganhar dinheiro sem as peias da regulação do Estado, como os garimpeiros e/ou empresários que não querem regulamentação ambiental - até sobre cavernas!

Muitas das propostas bolsonaristas não geraram até agora transformações estruturais das instituições e das políticas públicas. Mesmo assim, o modelo da sabotagem ou da defesa de ideários radicais resultam em confusões, desorganizações setoriais, perda de recursos para investir em áreas-chave (como a social, a científica e a ambiental), além de servir para mobilizar o bolsonarismo em sua guerrilha permanente. Mas talvez não seja necessário transformar o modelo estatal dos “inimigos”, até porque não se saberia o que colocar no lugar e nem se acredita, no fundo, em tudo o que se propaga nas redes sociais - os bolsonaristas sabem que o homeschooling em larga escala é inviável, mas o importante é desmoralizar a escola.

Algumas propostas do bolsonarismo, no entanto, vão adiante, em particular as que geram ganhos para certos grupos predatórios em relação aos interesses coletivos e ao meio ambiente. Como sempre no Brasil, há muitos atores se organizando para algum ganho patrimonialista e de curto prazo junto ao Estado brasileiro - e ninguém pode dizer que vários deles não tiveram sucesso em governos distintos.

De todo modo, o bolsonarismo, na hipótese mais otimista sobre seus efeitos, impede a continuação de qualquer processo modernizador do Brasil. Assim, além da circunstância de sobrevivência que moveu o presidente Bolsonaro, há um sentido mais profundo que dá a liga do casamento com o Centrão.

Todos os governos desde a redemocratização fizeram alianças com partidos classificados como Centrão para montar uma coalizão governista. No entanto, há três características inéditas nessa parte da geringonça bolsonarista. A primeira é o grau de independência, com um poder incontrolável e intransparente, que foi repassado a esse condomínio de deputados e (em menor medida) senadores. Antes, havia um Ministério da Fazenda e algumas áreas estratégicas que faziam o contrapeso. Hoje, todo o poder orçamentário foi repassado aos fisiológicos.

Além disso, em segundo lugar, as coalizões montadas pelos outros presidentes buscavam combinar negociação e repartição do poder (com maior ou menor sucesso) com um processo de universalização e impessoalização das regras de funcionamento das políticas públicas. A lógica delas foi paulatinamente se desvencilhando da maneira clientelista de agradar apenas a um público escolhido pelos políticos de ocasião. Foi isso que permitiu a construção do SUS, a expansão inédita da educação brasileira em todos os níveis, um programa de transferência de renda - o Bolsa Família - que não precisava de padrinhos, um sistema meritocrático de financiamento da ciência, o investimento em moradias populares, a criação de agências regulatórias independentes e, para não esquecer, a responsabilidade fiscal como peça-chave da estabilização econômica.

É claro que nem todos os bolsões clientelistas foram destruídos pelos tucanos e petistas, sendo que em alguns casos eles geraram fontes corruptas para financiamento de campanhas eleitorais. Mesmo assim, havia uma trilha mais universalista e impessoal que era crescente, especialmente na lógica do Orçamento da União e na expansão das políticas públicas sociais. Podem não ter vencido o atraso, mas tinham mais afinidade com a modernização.

O novo modelo bolsonarista de governar é um passo para trás na modernização da gestão do dinheiro público. O clientelismo cresceu brutalmente e com dois elementos perversos: os gastos estão se tornando menos transparentes e as principais políticas públicas do país, que servem aos mais pobres e à construção do futuro da nação, estão perdendo recursos, aumentando os problemas estruturais.

O terceiro elemento dessa aliança do Centrão com o bolsonarismo é o que os une mais: uma visão predatória e de curto prazo do país. Não importa se a PEC dos Precatórios vai quebrar o Brasil daqui a alguns anos, se o Ministério da Saúde contribui para a morte de milhares de brasileiros, se o MEC fechou os olhos para o maior apagão da educação brasileira em décadas, o que inviabiliza nosso futuro como nação em termos econômicos, sociais e políticos. Prestem atenção, leitores: o bicho que resultou dessa geringonça à brasileira é a defesa do atraso socioinstitucional. Desse modo, o casamento inusitado se transforma em união perfeita.

Mesmo com todos esses estragos, o bolsonarismo pode ter entre 20% a 25% dos votos em outubro, tendo hoje mais chances do que outros de chegar ao segundo turno, no qual Lula por ora é favorito. Porém, a guerra pela manutenção no poder será feita por um belicismo inédito na democracia brasileira. E mesmo que Bolsonaro perca, os frutos da geringonça bolsonarista não serão desmontados tão facilmente pelo próximo governo.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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