quinta-feira, dezembro 29, 2022

Legado contraditório de Bolsonaro




A esperança é de que o novo governo seja capaz de manter as conquistas dos últimos anos e de corrigir os disparates promovidos pela gestão Bolsonaro

Por Nilson Teixeira (foto)

O presidente Bolsonaro consolidou-se como o principal líder da direita, em particular no que se refere à agenda conservadora de costumes. Nos últimos 40 anos, não surgiu nenhum nome com peso relevante nesse espectro político. Apesar do seu comportamento recluso após a derrota eleitoral e das enormes desavenças com grande parte da imprensa, Bolsonaro tem condições de ocupar a liderança da oposição e, caso decida concorrer, será um forte candidato na eleição presidencial de 2026.

A liderança de Bolsonaro tende a ser ainda mais sólida se o futuro governo não conseguir nos próximos anos entregar uma inflação baixa e um crescimento econômico robusto, com menor desemprego e maior renda para a camada mais pobre da sociedade.

Os governadores eleitos de São Paulo e do Rio Grande do Sul seriam opções de liderança, com a vantagem de efetivos defensores dos preceitos liberais para a economia. Todavia, ambos, em particular o governador eleito de São Paulo, estarão focados, ao menos em 2023 e 2024, nos seus respectivos mandatos e em questões estaduais e, portanto, terão maior dificuldade de promover uma oposição ferrenha ao governo federal nesse período.

O desempenho da economia doméstica durante o governo Bolsonaro - em termos do crescimento e da inflação - foi aquém das expectativas daqueles que julgavam que seria implementada uma ampla agenda liberal. Essa avaliação, porém, precisa ser relativizada à luz da enorme tragédia sanitária dos últimos anos. No acumulado de 2019 a 2022, o crescimento do PIB do Brasil será próximo a 6,5%. Essa expansão não será tão baixa, quando comparada com a variação do PIB de 1% na África do Sul, -1% no México, 20% na China, 7% nos EUA e 3% na Área do Euro. Por outro lado, a inflação ao consumidor acumulada no período de 26% superará os 22% da África do Sul, 22% do México, 8% da China, 18% dos EUA e 16% da Área do Euro.

Apesar de a dívida bruta como percentual do PIB de 88% do Brasil pela métrica do FMI ser muito mais alta do que a da maioria dos países emergentes, sua elevação de 2,5 pontos percentuais (pp) frente ao fim de 2018 foi reduzida. Essa alta foi de 16 pp na África do Sul, 10 pp no México, 23 pp na China, 15 pp nos EUA e 7 pp na Área do Euro, com a dívida bruta alcançando o atual patamar de, respectivamente, 68%, 57%, 77%, 122% e 93%. Em suma, tomando por base apenas esses indicadores, o desempenho da economia do Brasil foi melhor do que o da África do Sul e o do México, mas pior do que o da China e o dos Estados Unidos.

Apesar do desempenho muito aquém do necessário, a agenda econômica do atual governo teve avanços importantes nos últimos quatro anos. O marco do saneamento, por exemplo, que vinha evoluindo desde o governo anterior, avançou de forma significativa. Salvo ajustes específicos para aprimorar a legislação, uma eventual proposta do futuro governo de impor restrições ao modelo atual seria um retrocesso por reduzir a probabilidade de atração de vultosos investimentos para o setor nos próximos anos. Ademais, esse caminho contrariaria a meta do futuro governo de melhoria das condições de vida da população mais vulnerável.

Os processos de desestatização do atual governo tendem, do mesmo modo, a ter repercussões positivas para a economia nos próximos anos. Apesar de as exigências dos parlamentares para a aprovação dessas operações, em particular a da Eletrobras, terem tido impactos negativos e sido muito custosas financeiramente, a desestatização elevará a eficiência da economia e direcionará o empenho do setor público para a área da regulação setorial. Seria positivo se o futuro governo mantivesse esses processos, ao menos em áreas com benefícios diretos favoráveis para os mais pobres.

Embora as renúncias tributárias tenham aumentado, a intervenção do BNDES na economia por meio de subsídios diminuiu neste governo. A instituição vendeu participações acionárias e dedicou maior atenção à preparação dos entes regionais para a venda de concessões, por exemplo, no setor de saneamento. Com a candidatura à OCDE, a atual equipe também acelerou a agenda do governo anterior de redução da burocracia e de melhoria das condições de negócios no país, com novas versões para a Lei de Falência, a Lei das Licitações e o Marco Cambial.

O legado do presidente Bolsonaro embute, porém, contradições. Apesar de suas conquistas, a avaliação dificilmente deixará de ser muito negativa por conta de tantas políticas erradas em áreas cruciais como a da saúde pública, da educação, do meio ambiente e dos direitos humanos. O desmazelo com a saúde pública, em particular durante a pandemia, é inquestionável. A trágica perda de quase 700 mil vidas pela contaminação por covid-19 dificilmente será desassociada da atual gestão. O descaso com a educação pública também foi enorme. O aumento do déficit de aprendizagem de crianças e de jovens durante o longo período sem aulas presenciais na pandemia, frente às metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação, terá efeitos negativos no médio prazo em termos de distribuição de renda e de crescimento potencial.

As consequências da equivocada política de meio ambiente do governo Bolsonaro, alavancada pelo discurso de confronto com nações estrangeiras, também trouxe prejuízos, como a menor inserção do Brasil nos fóruns internacionais e a diminuição dos investimentos estrangeiros no país. Finalmente, além do desrespeito contínuo ao direito das minorias, os velados ataques à democracia atraíram receios há muito esquecidos.

A esperança é de que o futuro governo seja capaz de manter as conquistas dos últimos anos e de corrigir os disparates promovidos pela gestão Bolsonaro. Não é uma tarefa, porém, que terá pleno apoio de toda a sociedade, haja vista que não são poucos os que concordam integralmente com as atitudes e decisões do atual governo. Assim, o presidente eleito precisará de muita habilidade para contornar a oposição de parlamentares conservadores no que diz respeito, dentre outras agendas, à pauta dos direitos de minorias.

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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