sábado, dezembro 31, 2022

Um país bloqueado entre o alívio e o medo




Estagnado, o Brasil troca uma direita reacionária que idealiza a ditadura por uma esquerda nostálgica do passado que inventou. 

Por Jerônimo Teixeira 

“Sensação geral de alívio”, anotou Carlos Drummond de Andrade em seu diário. A expressão me veio à memória no dia 30 de outubro, quando se anunciou a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro. No meu círculo de amigos e conhecidos, mesmo aqueles que sempre se opuseram ao PT, o sentimento predominante foi mesmo o alívio. Ufa!, exclamávamos: encerrou-se um governo marcado pelo descaso com a saúde e a vida, pelo fetiche militarista e autoritário, pela retórica vulgar e agressiva, pelo permanente atrito institucional.

O meu alívio veio carregado de cautela e reticência. A cautela impõe-se pelo óbvio motivo de que o partido do mensalão, do petrolão e da recessão está voltando ao poder. A reticência têm a ver com a figura macambúzia que deixa o Palácio do Planalto. Não estou convencido de que o país tenha superado Bolsonaro.

Digo isso não apenas porque Lula só venceu por uma estreita vantagem de 1,8% dos votos válidos, ou porque o próximo Congresso abrigará a galeria lombrosiana do bolsonarismo, ou porque enquanto escrevo segue acampada na porta dos quartéis a agremiação de aloprados que eu chamo de Horda Canarinha (que os ferozes mongóis da Horda Dourada me perdoem!). Esses fatos duros são sintomas de uma realidade cuja amplitude é de difícil digestão para os que estão aliviados (ou entusiasmados, no caso dos petistas) com o resultado das urnas: os derrotados não se dispersarão tão cedo. Para além de um movimento político, o bolsonarismo estabeleceu-se como uma nova cultura, cultivando um conjunto de valores, hábitos e manias que a antropologia ainda está para catalogar. Incluem-se aí as teorias conspiratórias compartilhadas em grupos de WhatsApp, o esquisito panteão de heróis e mártires que vai do coronel Brilhante Ustra a Daniel Silveira, o uniforme verde-amarelo e as mais pitorescas coreografias de protesto.

Como é próprio de um credo reacionário, o bolsonarismo galvaniza-se em torno não de propostas, mas de rejeições. Sob a rubrica do esquerdismo ou do comunismo, rejeitam-se em bloco a imprensa, o judiciário, a universidade. Quero me deter em um dos inimigos eleitos pela essa turma: o showbiz. A caricatura do artista parasita que vive da Lei Rouanet tornou-se um lugar comum entre os reacionários. Não lembro de Lula ter falado tanto em política cultural em uma campanha como fez neste ano, e isso deve ter sido uma resposta ao filistinismo militante de Bolsonaro. Neste ano novo, aliás, o Brasil volta a ter um ministério da Cultura, sob comando da cantora Margareth Menezes.

A beligerância da nova direita contra medalhões da cultura foi consolidando a miragem de que toda manifestação artística seria uma forma de resistência – pois não bastava fazer oposição ao governo Bolsonaro: era preciso resistir. Até a vetusta Academia Brasileira de Letras converteu-se de instituição careta em bastião progressista ao aceitar entre os imortais Gilberto Gil e Fernanda Montenegro, ambos hostilizados e detratados por figuras minúsculas do governo. Não foram poucos os comentaristas políticos, críticos e intelectuais que propagaram a ilusão romântica de que certos momentos da arte nativa – a Bossa Nova e a MPB, Guimarães Rosa e Machado de Assis – representam o Brasil verdadeiro, a autêntica alma nacional, em oposição ao reacionarismo bolsonarista, que só pode ser um corpo estranho incrustado no país. Há um fundo nitidamente elitista nessa ideia. Só merece ser chamada de brasileira a gente fina que ouve Chico e Caetano e posta foto de livros no Facebook em sinal de apoio a Lula. A malta grosseira que curte Gusttavo Lima e quer golpe militar está no país errado.

Não condeno o elitismo por si mesmo. Eu mesmo cultivo alguns arrogantes desprezos. O que realmente me intriga é que em resposta a um movimento político que idealiza o passado autoritário do Brasil tenha emergido o desejo de restaurar um outro e impreciso passado, um tempo idílico em que o país era gentil e cultivava a Beleza, com maiúscula.

A promessa do governo que agora toma posse não é de renovação, mas de restauração. Lula passou a campanha lembrando as maravilhas do tempo em que foi presidente e esquivando-se de perguntas sobre o descalabro econômico engendrado pela sucessora que ele ungiu. Ao mesmo tempo, ele falava em pacificar um país dividido. As duas propostas não são inteiramente compatíveis: embora raramente alcance a virulência verbal de Bolsonaro, Lula também é um promotor da divisão, que lança a carta do “nós contra eles” sempre que acuado por circunstâncias desfavoráveis. A terceira pessoa do plural já acomodou a “imprensa golpista” e o rico que não quer viajar de avião ao lado do pobre. Nos últimos tempos, “eles” são os especuladores (termo empregado por Lula) que derrubam o Ibovespa sempre que se relativiza a importância de manter as contas públicas em dia.

No discurso em que celebrou a vitória na eleição, Lula levou o ímpeto restaurador ao paroxismo: prometeu nada menos que a reconstrução da “alma deste país”. Essa alma, porém, está cindida. Embora no mesmo discurso Lula tenha prometido ser o presidente de todos os brasileiros, ele não fez qualquer gesto de conciliação ou aproximação para os 58 milhões de eleitores que o rejeitaram. Talvez esse gesto nem seja possível, tal o fosso de ressentimento e incompreensão separando a esquerda que volta ao poder imbuída de nostalgia por seus governos passados e a direita que, inconformada com a soberania das urnas, anseia pela volta de um regime militar. O Brasil parece estagnado entre esses desejos retroativos. É como se vivêssemos naquele “país bloqueado, enlace de noite, raiz e minério” de que Drummond fala em Áporo.

De volta, pois, a Drummond e à “sensação geral de alívio”. Omiti acima a data em que o poeta fez essa anotação em seu diário: 1º de abril de 1964. Drummond registrava o sentimento que captou em um passeio por Copacabana quando o golpe estava em curso. Em um lance irônico, minha memória buscou essa passagem para definir meu próprio alívio com a derrota de um admirador da ditadura militar.

Drummond estava ele mesmo aliviado. Sim, o poeta que em Nosso Tempo prometia se empenhar para deter “a marcha do mundo capitalista” aplaudiu a deposição de João Goulart, um presidente de esquerda. Em O Observador no Escritório, livro nos qual o autor mineiro reuniu trechos cuidadosamente selecionados de seu diário, as anotações dos dias que se seguem ao golpe já acusam o caráter autoritário do regime militar recém-instaurado. Alívio não é entusiasmo. Ambos, no entanto, costumam ser passageiros.

Espero que ninguém leia aqui qualquer paralelo entre a situação de 1964 e o momento atual. Nem acho que o PT vá instaurar a ditadura bolivariana, nem acredito que os quartéis ouvirão as súplicas golpistas da Horda Canarinha. O momento não é de ruptura, mas de complicadas e opacas reacomodações entre os atores da política. Creio que o risco futuro está na condução da economia: se o socorro aos necessitados – urgente e necessário, sim – for mal calibrado, a promessa de um retorno à relativa bonança do primeiro governo Lula pode degenerar na reedição do pesadelo recessivo de Dilma Rousseff. O país bloqueado vive entre o alívio e o medo.

Revista Crusoé

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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