quinta-feira, dezembro 29, 2022

Lula é um político ideologicamente do Centro, nada tem de extrema-esquerda

 Publicado em 29 de dezembro de 2022 por Tribuna da Internet

Pedro do Coutto

No programa Em Pauta da GloboNews, noite de terça-feira, foi discutida a caracterização ideológica a ser atribuída ao presidente eleito, Lula da Silva, que assume o governo na madrugada de 1º de janeiro. Alguns debatedores o identificaram como um homem da esquerda, outros de centro-esquerda, e eu acredito que Lula seja melhor definido como de centro avançado, preocupado, aliás como todos os cristãos, com a miséria, com a fome, na busca eterna pelo desenvolvimento e pela justiça social.

A posição de centro avançado inspirada na realidade da população brasileira não se volta, como não se voltou em momento algum, contra a propriedade privada, contra o lucro das empresas, contra os financiamentos estatais à iniciativa privada e à favor de uma política de emprego e de salários, sobretudo para que esses não percam para a inflação, pois neste caso estarão sendo reduzidos através do tempo.

PREOCUPAÇÕES – Foi exatamente isso o que aconteceu com a política do ministro Paulo Guedes adotada pelo governo Bolsonaro. Caso ser da esquerda é preocupar-se com a fome e a miséria, com a falta de saneamento, com a saúde pública e com o atraso registrado de 1,1 milhão processos de segurados não atendidos pelo INSS, tal posicionamento só pode ser considerado de esquerda ou de centro-esquerda se o compararmos com o extremismo da direita conservadora que considera um absurdo (falando ironicamente) que o presidente que desperta na alvorada de janeiro seja um revolucionário.

Reformista é a palavra correta e não representa absurdo algum sustentar simplesmente que todos devem poder tomar o café da manhã, almoçar e se alimentar à noite. O conservadorismo se enraizou de tal maneira no Brasil, sob a capa da mão de tigre do chamado mercado, que qualquer projeto de desenvolvimento social transforma-se em um perigo para o cenário estabilizado do capital que não remunera o trabalho à altura da dignidade do ser humano.

Daí a favelização, do déficit habitacional, a inexistência de esgoto para metade da população brasileira, a falta de água potável para 25% dos habitantes. São dados estarrecedores e preocupantes para com o futuro.

ONDA REFORMISTA –  – Futuro? Será de esquerda combater o desmatamento da Amazônia e o garimpo ilegal ? Será de esquerda combater as fraudes na administração pública e a corrupção sem fronteiras ? Lula da Silva governou o Brasil por oito anos; não deu qualquer sinal de ameaça à democracia e à liberdade. Assumirá um terceiro mandato conquistado nas urnas de outubro, integrando-se na onda reformista que deve renascer com a sua posse no Planalto.

É tempo de alvorada e de reforma social, mas não de um posicionamento na esquerda, sobretudo porque o radicalismo esquerdista no mundo desabou  com o Muro de Berlim em 1989 e com o fim da União Soviética em 1991. O pensamento no sentido da reforma converge com o humanismo que no fundo encontra sua mais forte inspiração no cristianismo surgido há dois mil anos. Hoje, ninguém pode defender a escravidão , a opressão, a fome, a miséria e a tortura diária proporcionada por uma desigualdade que ultrapassa as fronteiras do próprio humanismo e da humanidade.

ELETROBRAS – Numa excelente reportagem, O Globo desta quarta-feira, Manuel Ventura e João Sorima Neto revelam que a equipe de transição de Lula da Silva propõe alterar para melhor a privatização da holding aprovada em junho pelo governo Bolsonaro.  A meu ver, não se compreende a privatização de uma empresa já por si privatizada na medida em que suas ações encontram-se nas Bolsas de Valores de São Paulo, de Nova York e de Madrid.

A manobra efetuada voltou-se para a privatização do comando da empresa, que é algo bem diferente da sua privatização total, e criou uma contradição como sustenta Manuel Ventura e João Sorima Neto de a União não deter o comando de uma empresa da qual detém 42%. Revela-se estranho, portanto, que um grupo que possua 10% ou 12% do sistema acionário possa comandar uma holding 42% estatal. Há outros fatos.

Um deles, o de que Furnas emitiu R$ 180 milhões em debêntures para pagar dívidas em favor da Odebrecht e da Andrade Gutierrez pela construção da Usina de Santo Antônio em Rondônia. O pagamento feito por Furnas foi considerado essencial para que a privatização se realizasse.

DÍVIDA – Ocorre que na empresa subsidiária Santo Antônio Energia, Furnas detinha mais de 35% das ações e outros 35% praticamente divididos em partes iguais pela própria Odebrecht e pela Andrade Gutierrez. Ambas figuram, portanto, entre os proprietários do empreendimento. Assim, a Santo Antônio Energia pagou uma dívida para dois de seus proprietários e o pagamento foi realizado com um endividamento adicional da própria empresa de Furnas.

O ativo da Eletrobras foi subavaliado amplamente. Afinal, quanto vale as usinas de Furnas, da hidrelétrica de São Francisco, da EletroSul e da EletroNorte? Quanto valem as linhas de transmissão através das quais Furnas interliga a produção da Usina de Itaipu ao sistema elétrico brasileiro? Divulgou-se que o ativo foi avaliado por baixo em R$ 176 bilhões. Compare-se esse valor com o valor das transações internacionais de preço muito alto envolvendo empresas muito menores. O grupo de transição de Minas e Energia, no caso Eletrobras, terá muitas tarefas pela frente.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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