sábado, dezembro 31, 2022

Os políticos mais perigosos são os que querem salvar o mundo




Célebre teórico do conservadorismo, o filósofo húngaro-americano John Kekes toma a defesa da moderação na política. 

Entrevista a Carlos Graieb

John Kekes é um autor pouco conhecido no Brasil, que nenhuma editora cuidou de traduzir até hoje. Mas sua obra é indispensável para qualquer discussão das ideias conservadoras no século XXI, em particular A Case for Conservatism (Uma Defesa do Conservadorismo) e Against Liberalism (Contra o Liberalismo), ambos lançados em 1998 e já clássicos.

No seu livro mais recente, publicado em novembro, Kekes decidiu qualificar sua posição filosófica e política com um adjetivo. Moderate Conservatism (Conservadorismo Moderado) foi concebido como “uma crítica ao extremismo político e um alerta contra as consequências destrutivas da politização de aspectos da vida que deveriam ser deixados a critério dos indivíduos”. Como bom conservador, Kekes evita generalizações e insiste que escreveu pensando apenas nos Estados Unidos. É fácil perceber, no entanto, que as circunstâncias que o preocupam estão presentes também no Brasil.

Kekes nasceu na Hungria, em 1936, e imigrou para os Estados Unidos na década de 1960. Deu aulas até recentemente no Union College, do estado de Nova York. A filosofia moral é a outra grande vertente de sua obra, com títulos como The Roots of Evil (As Raízes do Mal) e Wisdom – A Humanistic Conception (Sabedoria – Uma Concepção Humanística).

Kekes respondeu as perguntas que Crusoé lhe enviou.

Algum incidente específico o levou a escrever Moderate Conservatism?

Não foi tanto um incidente quanto um processo que avança rapidamente – o da politização da vida, inclusive a vida privada. Em circunstâncias normais, a política é uma discussão tediosa entre profissionais do metiê, sobre como utilizar recursos que são sempre escassos. Isso mudou, não apenas nos Estados Unidos, mas em países do mundo todo. Políticos de diferentes partidos não concordam mais em discordar. Eles agora questionam os pressupostos da ordem política. Eles querem mudar, e mudar radicalmente, os consensos sobre o passado e o futuro do país de cujos problemas eles deveriam cuidar.

O subtítulo do livro é “Recobrando o Centro”. Centro é um sinônimo de moderação política?

O centro e a moderação política estão intimamente ligados, mas não são a mesma coisa. Chamo de centro aquilo que está implícito para os cidadãos, o substrato da vida pública. São tradições, processos, um senso básico de civilidade, a ordem costumeira da convivência interpessoal. São as decências básicas do nosso dia a dia. Moderação é evitar os extremos, que não são sempre a mesma coisa. É possível ser moderado em um regime brutal, em uma sociedade que se desintegra ou no meio de uma revolução. Isso é bem exemplificado pelas facções da Revolução Francesa de 1789. Não havia centro, mas havia moderados. Ou pensemos na Revolução Russa de 1917. Alexander Kerensky era um moderado, Vladimir Lenin era um extremista, mas ambos se opunham ao que costumava ser o centro na organização política czarista.

Moderação, no seu livro, não parece ser apenas o oposto de excesso, mas também, e talvez mais importante, o oposto de crenças absolutas. Quais são os inimigos políticos da moderação?

Os inimigos da moderação são os ideólogos de esquerda e direita que têm um programa político que promete nos levar ao BEM, com maiúsculas, seja como for que eles o definem. Talvez seja seguir a vontade divina, como querem os ortodoxos de todas as religiões; ou a busca de um bem supremo, como a igualdade, para os igualitários; ou a liberdade, como querem os libertários; ou uma sociedade em que os recursos produtivos estão nas mãos do Estado, como querem os socialistas. Os piores excessos não vêm dos vigaristas que desejam riqueza e poder, mas daqueles que acreditam genuinamente ter encontrado o bem, encaram qualquer opositor como um inimigos da humanidade e atribuem si próprios a missão de calar esses adversários. Os inimigos são teóricos em busca de um ideal, que renegam a prática política e desejam respostas do tipo “tudo ou nada”. Os inimigos são aqueles que ignoram que escolhas políticas dependem do contexto em que são feitas e são influenciadas pelas condições históricas. Eles não aceitam que entre liberdade, justiça e igualdade há um conflito que a cada momento terá de ser resolvido de maneira diferente. Os inimigos mais perigosos da moderação são aqueles políticos que querem salvar o mundo.

Como o senhor responde a quem diz que uma posição moderada é tímida, fraca ou descompromissada?

Mais uma vez, a questão é aquilo que você está tentando moderar. Não se deve moderar o espírito humano em sua curiosidade, imaginação, desejo de explorar. A vida do espírito é uma coisa; a vida política, algo muito diferente. Estão conectadas, é claro, mas é crucial, para o bem estar da sociedade, que permaneçam independentes.

Como um conservador moderado consegue se fazer ouvir quando há populistas de direita e de esquerda gritando ao seu redor? A moderação pode ser uma posição política combativa ou isso seria um paradoxo?

Esse é de fato o grande problema dos moderados. O melhor que podemos fazer é explicar repetidamente aos extremistas que suas ações põem em risco, precisamente, o tipo de sociedade que lhes permite gritar seus slogans. Podemos lembrar aos extremistas que, se a Paz de Westfália tivesse sido assinada algumas décadas antes, no século 17, a Guerra dos 30 Anos não teria devastado a Europa. Ou que se o rei francês Luís XVI tivesse ouvido os conselhos do estadista Malesherbes (por sinal, avô e modelo de outro grande moderado, Alexis de Tocqueville), a Revolução Francesa de 1789 não teria acontecido. Suspeito, no entanto, que esse tipo de resposta não seja útil, porque extremistas não têm senso histórico.

A civilidade parece ser a primeira vítima quando a polarização política toma conta de um país. O que se perde com isso é algo de importância central ou periférica?

A perda da civilidade é sintoma de algo mais profundo e de importância central. Alguns exemplos de pessoas que souberam manter a civilidade mesmo em meio às mais sérias discordâncias políticas são o inglês Edmund Burke, quando escreveu sobre a Revolução Francesa, o filósofo americano Michael Oakeshott, nos seus ensaios, e os três autores de O Federalista, o conjunto de panfletos que ajudou a dar forma à constituição americana. Refiro-me a Alexander Hamilton, James Madison e John Jay.

O senhor afirma diversas vezes que suas reflexões se aplicam apenas aos Estados Unidos. Sob quais condições é possível aplicá-las a países em que a tradição democrática não é tão profunda, como o Brasil?

Por ignorância, não me arrisco a fazer comentários sobre o Brasil. Mas, falando de maneira geral, o conservadorismo moderado pode surgir em um país quando seus cidadãos concordam que há algumas coisas – tradições, instituições, traços culturais – que eles desejam preservar, e não perder. Se uma parcela substancial da população de um país vive em condições desesperadoras, falar em conservadorismo moderado pode ser uma causa perdida. Segurança e nutrição adequada são pré-condições para que existam discordâncias políticas civilizadas entre conservadores, liberais e esquerdistas.

Em termos históricos, quais são os exemplos que um conservador moderado daria de seus princípios postos em prática?

O grande exemplo é a Inglaterra no período entre a Reforma de 1867, que ampliou o direito de voto, e a Primeira Guerra Mundial – ou até mesmo a Segunda Guerra. A Europa entre a queda de Napoleão Bonaparte e o começo da Segunda Guerra talvez seja um bom modelo também. Os livros do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger são muito bons a esse respeito. Aliás, de modo geral, recomendo toda sua obra.

O relacionamento entre os poderes da República se tornou tenso no Brasil. O conservador moderado tem algo a dizer sobre a separação de poderes?

Na Inglaterra, essa separação é tácita, ambígua, e essa é a maneira pela qual os ingleses desarmam questões explosivas. Já nos Estados Unidos, a separação está bem no centro da tradição política. O problema é que a separação de poderes e o sistema de pesos e contrapesos que impede que um deles saia do controle vivem em um permanente estado de conflito. Ao contrário do que se poderia imaginar, quanto maior é a separação, menor é o controle que os poderes exercem uns sobre os outros. E vice-versa. Esse é um assunto ainda mal estudado. Se eu fosse um estudante à procura de um assunto para uma tese, escolheria esse.

Qual a posição do conservador moderado sobre liberdade de expressão?

Quem estabeleceu as balizas modernas para essa discussão foi o filósofo inglês John Stuart Mill, no livro Sobre a Liberdade. Eu o vejo como o vilão da história. No começo desse manifesto ele anuncia o que chama de “um princípio simples”, que é o da liberdade negativa, ou seja, a imunidade do indivíduo contra interferências em sua liberdade. Ele então usa o resto do texto para voltar atrás na sua afirmação original. Aliás, alguém espirituoso já disse que todo manifesto é assim: um texto em que você diz algo, e depois se retrata. O conservadorismo moderado tem uma concepção diferente, que eu chamo de liberdade limitada. Trata-se de reconhecer que a liberdade é um dos bens políticos primários, mas não um bem político que se sobrepõe a todos os outros. A liberdade pode ser restringida em contextos e condições em que há bons motivos para acreditar que a justiça, a igualdade política entre os cidadãos, a preservação do Estado de Direito ou a propriedade privada devem ter precedência sobre ela.

Um país polarizado pode se curar?

Creio que sim. Mas temo que às vezes seja preciso o ataque de alguma força estrangeira para que isso aconteça.

Revista Crusoé

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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