quinta-feira, agosto 18, 2022

Quando a História desmente a narrativa




Tendência do presidente é subir o tom de novo, tanto no ataque às urnas quanto em novas medidas para tentar se viabilizar eleitoralmente

Por Vera Magalhães (foto)

O pessoal da contenção de danos que Jair Bolsonaro pode causar à própria candidatura tentou colocar de pé nas últimas semanas uma narrativa heroica. De acordo com ela, um presidente sensível aos problemas de seu povo começaria a ser reconhecido pelo eleitor pela generosidade na concessão de benesses e pela melhora na economia.

Concomitantemente, esse presidente, por vezes incompreendido por seus “arroubos retóricos”, se moderaria (de novo) e fecharia um “acordo” com a Justiça Eleitoral, que acataria algumas das sugestões dadas de boa-fé por ele e pelas Forças Armadas para aprimoramento do processo eleitoral.

O tal “acordo” passaria por uma inflexão do novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, a quem Bolsonaro, vejam só, até presenteou com uma camisa do Corinthians, na maior amizade.

Faz tempo que uma eleição não vê uma profusão do que chamamos no jargão jornalístico de “spin doctors” como esta. São aquelas fontes cuja especialidade é vender a nós, jornalistas, em off, versões convenientes, pouco importando que sobrevivam a ser cotejadas com os fatos ou com a história recente.

A versão do Bolsonaro moderado já foi testada e frustrada em episódios anteriores, o mais notável deles o pós-Sete de Setembro do ano passado, em que ele usou o antecessor, Michel Temer, como emissário de um tratado de paz com Moraes nunca cumprido.

O que tornaria crível a ideia segundo a qual o novo presidente do TSE, que tem sido linha-dura contra fake news, discursos de ódio e outras práticas incentivadas pelo presidente não só no âmbito eleitoral, mas também no Supremo Tribunal Federal (STF), cederia justo agora?

Aceitar algumas “sugestões” das Forças Armadas significaria enfraquecer a Justiça Eleitoral ainda mais do que o convite para que os militares passassem a se imiscuir nesse assunto que não lhes diz respeito já enfraqueceu.

A posse de Moraes na presidência do TSE foi o mais robusto ato de reação das instituições aos ataques de Bolsonaro à democracia. O discurso duríssimo de Moraes constrangeu o presidente diante de todas as autoridades da República, de quatro ex-presidentes, dos principais candidatos e de 22 governadores, entre outras autoridades.

A ida de Bolsonaro à posse nesta terça-feira foi inserida nesse roteiro de mostrar um presidente mais propenso a aceitar as regras do jogo eleitoral.

No fim, Bolsonaro foi espectador de um ato que foi a antítese e o antídoto daquela solenidade que ele próprio promoveu para vender mentiras e pregar contra o processo eleitoral diante dos mesmos embaixadores que lotaram a plateia do TSE ontem. Uma resposta que Bolsonaro jamais imaginaria.

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Essa não foi a única frente em que o “renascimento” da campanha de Bolsonaro, simbolizado também pela ida a Juiz de Fora, palco da facada de 2018, foi malogrado.

A pesquisa Ipec revelou que a abertura da caixa de ferramentas de medidas populistas, até aqui, não se mostrou suficiente para alavancar a candidatura do presidente.

Significa que Bolsonaro esteja morto e que não crescerá mais? De jeito algum, mas a intenção desta semana que abre oficialmente a campanha era virar duas páginas de uma vez: as tretas institucionais e a larga vantagem de Lula nas pesquisas. Não deu certo.

A tendência de Bolsonaro, diante desse duplo revés, é subir o tom de novo, tanto no ataque às urnas quanto em novas medidas tiradas da cartola para tentar se viabilizar eleitoralmente.

Aliás, ele nunca chegou nem a fingir que desistiu: ontem mesmo voltou a convocar seus apoiadores para o 7 de Setembro. Tudo como dantes no quartel de Abrantes, para desespero dos que tentam vender terrenos na Lua e um inexistente Bolsonaro paz e amor. Mas o TSE, viu-se ontem, está preparado para a guerra.

O Globo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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