quarta-feira, agosto 31, 2022

Político não guarda mágoa na geladeira



Bolsonaro errou ao não deixar o “fígado” em Brasília

Por Andrea Jubé 

Em algumas situações, tratados científicos e ditados populares equiparam-se como fonte de sabedoria. O notório “quem avisa, amigo é” não precisa partir de um Einstein para atingir o alvo. Se o destinatário do alerta confia no conselheiro - um amigo, ou um aliado - deveria ouvi-lo para tomar a melhor decisão no momento.

O mau desempenho do primeiro e do segundo colocados nas pesquisas sobre a sucessão presidencial no debate promovido pela TV Bandeirantes (em “pool” com a TV Cultura, portal UOL e “Folha de S.Paulo”), pode ser atribuído, parcialmente, à resistência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente Jair Bolsonaro em ouvir os aliados e acatar, ao menos parcialmente, os respectivos conselhos.

Erros e constrangimentos poderiam ser evitados, na avaliação de integrantes da coordenação das duas campanhas, se Lula e Bolsonaro fossem menos teimosos. Ou se não tivessem “compromisso com o erro”, para relembrar a oportuna lição de Juscelino Kubitschek.

Diante do resultado negativo para ambos, Lula e Bolsonaro avaliam não comparecer mais a debates, ao menos no primeiro turno. Já está decidido que não irão ao debate programado para 24 de setembro, promovido pelas emissoras CNN e SBT, em “pool” com a “Veja”, o jornal “O Estado de S. Paulo”, o portal Terra e a rádio Nova Brasil FM. A presença de ambos no debate promovido pela TV Globo, no dia 29 de setembro, ainda é incerta nas duas campanhas.

A história registra, infelizmente, que os líderes das pesquisas ganham mais faltando aos debates. Com esse comportamento, perde o eleitor, perde a democracia. Mas na ponta do lápis, o saldo de votos ao final compensa a pecha de “fujão”. Bolsonaro venceu o pleito em 2018, com margem folgada, sem discutir propostas com adversários.

Em 2006, no embate pela reeleição, Lula se manteve na liderança das pesquisas, bombardeado pelas denúncias do Mensalão, mas ausentou-se do debate da TV Globo na véspera da votação do primeiro turno. Após manter suspense, ele enviou um comunicado à emissora alegando que faltaria ao evento para evitar uma "arena de grosserias e agressões, em um jogo de cartas marcadas".

Naquele ano, Lula amargou o constrangimento da exibição pelas câmeras da Globo de um lugar vazio, ostentando o seu nome, durante as três horas de debate. Mesmo assim, o petista passou ao segundo turno com 48,6% dos votos válidos, contra 41,6% do tucano Geraldo Alckmin - uma margem de sete pontos percentuais de diferença. E venceu o adversário na etapa final. Passados 16 anos, Alckmin é hoje o festejado candidato a vice-presidente na chapa lulista, em uma dessas artimanhas da história que ninguém explica. Nem Freud.

Na linha do “quem avisa, amigo é”, Bolsonaro foi alertado pelos caciques do Centrão de que deveria vestir o figurino “moderado” no debate da Band e, para isso, era necessário “deixar o fígado em Brasília”. Contudo, ao invés de obedecer à recomendação, quem Bolsonaro deixou para trás na capital federal foi justamente o marqueteiro Duda Lima, o mais tarimbado para orientá-lo nos bastidores do evento.

Além disso, um estrategista da campanha bolsonarista ponderou à coluna que Bolsonaro excedeu-se com a jornalista Vera Magalhães sem necessidade, porque ele tinha resposta para a pergunta sobre a vacinação pública. A avaliação da ala política é que a presença de Duda Lima no estúdio teria ajudado a manter Bolsonaro concentrado em não perder a linha.

Num momento em que tem que correr atrás do votos das mulheres, segmento onde enfrenta altíssima rejeição, Bolsonaro deveria dar ouvidos a pelo menos uma delas e uma das mais informadas em política: Dona Ida Maiani de Almeida, ou Dona Mora, personagem do livro “A história de Mora - A saga de Ulysses Guimarães”, do jornalista Jorge Bastos Moreno (morto em 2017).

“Aprendi com meu marido a não ter ressentimento. Na atividade de Ulysses [a política], o ressentimento é mortal. Tanto que ele costuma dizer que não faz política com o fígado, nem guarda mágoa na geladeira”, diz Mora, em trecho do livro de Moreno.

Políticos experientes argumentam que os líderes das pesquisas, ao menos aqueles que despontam no primeiro e no segundo lugar da corrida eleitoral, não deveriam comparecer aos debates, a despeito do prejuízo ao eleitor. Isso porque a boa colocação transforma esses candidatos em alvo preferencial da artilharia dos adversários, como ocorreu com Lula e Bolsonaro no evento da Band.

Simone Tebet ganhou projeção inédita até agora e Ciro Gomes (PDT) foi bem - embora Bolsonaro tenha lembrado que o pedetista também tem flertes com o machismo. Resta saber se esse desempenho se refletirá nas próximas pesquisas, embora não haja tempo hábil para superarem Lula ou Bolsonaro - salvo o improvável. “Debate é escada para quem está atrás subir”, resume um político com muitas horas de voo em eleições, que descarta qualquer mudança no cenário de polarização.

Retomando o “quem avisa, amigo é”, uma ala da campanha lulista sustentava que ele não deveria comparecer ao debate da Band para que o petista surfasse por mais tempo a onda positiva proporcionada pelo ótimo desempenho na sabatina do “Jornal Nacional” no dia 25 de agosto. Há quem acredite, por exemplo, que os momentos de aparente “apagão” e nítido constrangimento a que Lula se submeteu no domingo neutralizaram o ganho obtido no confronto com William Bonner e Renata Vasconcellos.

Como nenhum outro veículo proporcionaria a vitrine com a audiência de dezenas de milhões de espectadores do “JN”, a equipe de Lula defende que ele não participe mais nem mesmo de sabatinas. Mas isso está sub judice.

Em outra frente, Bolsonaro já decidiu que comparecerá às sabatinas promovidas, preferencialmente, por canais de televisão abertos. Ele irá às entrevistas da Rede TV e SBT e também à TV Jovem Pan. Ele quer intensificar a pauta da corrupção. Bolsonaristas acreditam que o PT ainda não alinhou o discurso de defesa sobre esse tema.

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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