quarta-feira, agosto 31, 2022

O que dizem, o que fazem




Por Carlos Brickmann (foto)

Perguntem a qualquer dos participantes do debate quem foi o vencedor. Cada um garantirá, com firmeza, que foi ele. Ninguém admitirá que não foi tão bem assim, ninguém fará autocrítica. E não adianta pesquisar: sempre a pesquisa indicará que o eleitor de cada candidato o considera vitorioso.

Mas, se não há maneira objetiva de indicar quem ganhou, há indícios mais que suficientes para saber quem perdeu. A reação das equipes de campanha é imediata e as providências são tomadas com a urgência possível. Vejamos, por exemplo, a reação das equipes de Lula e Bolsonaro. Ambas resolveram restringir ao máximo a participação nos próximos debates. Lula pretende ir somente a mais um, o da Rede Globo.

Dizem que o tema da corrupção será levantado em todos eles e o pessoal da campanha prefere que o candidato aborde o assunto só em redes sociais e entrevistas – menos audiência, menos repercussão. Não é bem assim: Lula, num dia ruim, estava longe de sua fama de debatedor. A equipe de Bolsonaro se preocupa com seus arroubos, Ele usa o tempo de que dispõe para atacar “a mídia” e repórteres como Vera Magalhães - ótima jornalista, mas que não provoca emoções no eleitor que o levem a preferir o presidente. O fato é que Bolsonaro parecia irritado quando o confrontavam, mexia-se sem parar, envolveu-se na política interna de outros países – outro tema que não emociona muita gente.

Bolsonaro só irá ao debate da Globo por medo do significado da cadeira vazia.

 A grande evidência

E há ainda um indício fatal de que a candidatura de Bolsonaro está longe do sucesso: o marqueteiro da campanha, Duda Lima, próximo ao presidente do partido de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto, não foi ao debate. Apareceu outro, ligado à ala ideológica do bolsonarismo, que abomina o Centrão, mas não pode fazer nada porque sem o Centrão o governo não anda: é Sérgio Lima. Não se discute aqui a qualidade do trabalho de ambos, mas o fato de o Centrão não ter enviado seu homem de marketing para o debate indica o suficiente: Bolsonaro e o Centrão estão afastados, ou se afastando. Como o Centrão não larga o poder, talvez esteja trocando o poder atual pelo próximo.

Os favoritos

Em resumo, os dois favoritos foram mal. Quem apareceu bem foram Ciro, Simone e Soraya. Ciro fala bem, é experiente em debates, não foi surpresa: onde ele costuma dizer coisas difíceis de explicar é em entrevistas. Soraya mostrou ousadia e coragem e disse a Bolsonaro aquilo que Lula não disse. E Simone, que já vinha aparecendo bem, confirmou sua boa imagem, batendo em Bolsonaro e dizendo que não tem medo de suas ameaças.

As duas, Soraya e Simone, tiveram ainda a chance extra (que aproveitaram) de defender as mulheres, citando os inúmeros casos em que Bolsonaro atacou repórteres por serem mulheres e defendeu teses como as de que mulheres devem mesmo ganhar menos quando desempenham o mesmo cargo que colegas homens.

Juca já previa...

Num bom artigo, o colunista Juca Kfouri disse, no UOL, que Lula perdeu a chance de ouro de atacar Bolsonaro por corrupção. Quando Bolsonaro, na primeira pergunta a Lula, perguntou sobre casos de corrupção, Lula deu uma resposta burocrática – o que é imperdoável, já que até as garrafinhas de água mineral do estúdio já sabiam que esse tema seria abordado.

Juca escreveu que Lula deveria ter respondido algo como “Bolsonaro, e você vem falar nisso? Você com as rachadinhas, as rachadinhas dos filhos, o Queiroz, todos os casos da vacina?” – e daí por diante. Pois o Juca escreveu num dia; e no dia seguinte estourou o caso da compra de imóveis pela família Bolsonaro. De 1990 até hoje, como comprova reportagem no UOL de Thiago Herdy e Juliana dal Piva, jornalistas muito bons, foram comprados 107 imóveis. Sim, 107 imóveis em 32 anos. Ou R$ 19,5 milhões em valor histórico. Corrigidos pelo IPCA, R$ 25,6 milhões. Os salários no Legislativo devem ser ótimos!

...mas havia mais!

Desses 107, houve 51 com pagamento em dinheiro vivo. Isso não é ilegal: dinheiro vivo é moeda de curso corrente no país e de uso forçado. Mas é estranho. Uma comparação: digamos que alguém ande na rua com um facão nas mãos. Não, não é ilegal. Digamos que o facão esteja pingando sangue. Não, não é ilegal: o portador do facão pode ter ido matar alguns frangos para ajudar no churrasco do vizinho. Digamos que a tal pessoa tenha uma tatuagem no braço com uma caveira e dois ossos cruzados. Não, não é ilegal. Tatuagem, seja do que for, está dentro da lei.

Mas o caro leitor preferiria ou não atravessar a rua e ficar longe do facão?

 Que maldade!

   Bolsonaro não quis falar sobre o tema imobiliário aos repórteres Thiago Herdy e Juliana dal Piva. O colunista Chico Alves, também do UOL, estranha essa posição do presidente da República, justo ele, que sempre citou o versículo bíblico “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Brickmann.com.br

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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