terça-feira, agosto 30, 2022

Além do inferno na economia, Argentina tem uma grave crise política.




Pode um presidente insinuar o “suicídio” de um promotor de Justiça? Processo por corrupção de Cristina Kirchner está incendiando um país já em transe. 

Por Vilma Gryzinski

O Brasil próximo das eleições parece um caldeirão fumegante? Pois comparada à Argentina, a temperatura política nacional mal daria para fritar uma linguicinha para fazer um delicioso choripán.

É claro que as respectivas crises têm muitos pontos em comum, pois o modus operandi das esquerdas populistas é muito parecido, principalmente quando envolve empreiteiras, obras públicas e grandes quantidades de dinheiro não contabilizado.

Mas imaginem o que aconteceria se o atual presidente brasileiro insinuasse o “suicídio” de um integrante do poder judiciário de quem discorda.

Pois foi o que fez o presidente Alberto Fernández, depois que o procurador Diego Luciani apresentou as provas no processo em que pede doze anos de prisão e cassação vitalícia dos direitos políticos para Cristina Kirchner – um dos três casos que correm contra ela, como ex-presidente, na justiça. A relação das mais de 50 obras públicas concedidas a um ex-bancário amigo da família é devastadora.

Fernández, que não fala mais com sua patrona e entregou o comando da economia para Sergio Massa, evocou nada menos do que uma comparação com Alberto Nisman, um dos casos mais explosivos da história argentina. O juiz que apresentaria uma denúncia contra Cristina por cooperação com o Irã para obstruir o papel do regime islamista como arquiteto do atentado contra a associação judaica AMIA, apareceu “suicidado” no banheiro de seu apartamento em janeiro de 2015.

O caso se arrasta há anos, mas a justiça por fim decidiu investigá-lo como homicídio, baseada na posição do corpo, da arma, nos ferimentos internos constatados em necrópsia e em outros indícios que confirmam as suspeitas universais de que foi um atentado muito bem planejado para parecer suicídio.

Na época, o próprio Fernández, que estava rompido com Cristina, fez declarações sobre o absurdo das versões oficiais.

Na semana passada, numa entrevista de televisão, ele achou que era uma boa ideia dizer o seguinte: “O que aconteceu com Nisman é que se suicidou. Eu espero que que o procurador Luciani não faça algo assim”.

Com duas frases, ele tacou fogo num país já fervilhante, a ponto de ter um pedido de impeachment e uma denúncia criminal apresentados pela oposição.

Nos bastidores, dirigentes do kirchnerismo ficaram furiosos: a campanha para apresentar Cristina como uma figura impoluta, vitimada pela “perseguição judiciária e mediática”, foi suplantada pela barbaridade dita por Fernández, que colocou o procurador Luciani no papel de vítima.

“É melhor que ele não ajude mais”, ironizou um dirigente kirchnerista ouvido pelo Clarín.

O kirchneerismo está mobilizado para o pátio dos milagres armado em frente ao apartamento de Cristina na Recoleta, embora, por dentro, as eternas divisões do peronismo estejam fervendo. Sergio Massa assumiu para fazer os cortes nas despesas de governo que inevitavelmente revoltam os “movimentos sociais” – as organizações entre as quais o peronismo distribui o dinheiro dos outros.

Estaria Alberto Fernández sendo esperto e criando fatos políticos que aumentem a temperatura emocional, enquanto Sergio Massa vai fazendo o trabalho inevitavelmente dolorido?

O jornal La Nación abriu essa possibilidade num editorial avassalador: “Dá vergonha ver o chefe de Estado decidido a acompanhar a multiprocessada vice-presidente em sua estratégia de ‘apertar’ juízes e promotores, e disposto a endossar mobilizações e bumbos que só buscam calar a voz da justiça, distrair sobre os efeitos do ajuste e alterar a paz social”.

Estão assim em confluência múltiplos fatores explosivos: a política econômica austera para evitar o apocalipse, endossada por Cristina apenas até o ponto em que a interesse; o estado de emergência que ela decretou para se livrar dos processos na justiça na marra e a composição das forças políticas para a eleição presidencial do ano que vem.

É uma combinação simplesmente infernal.

“As decisões de política econômica vão aumentar o nível de irracionalidade e as medidas que poderiam ter um custo em popularidade vão passar a ser inaceitáveis”, diagnosticou para Jorge Lanata o diretor de um banco de investimentos.

É um modo elegante de dizer que o destino de Massa já está selado.

Seria maravilhoso se a Argentina, jogando em condições tão negativas, invertesse as expectativas e reproduzisse a sensacional vitória do time nacional de rugby, os Pumas, sobre os neozelandeses, em seu próprio território. Nem o legendário haka do time local funcionou.

O problema é que, como sempre, a Argentina está jogando contra si mesma. O haka que dança é o da autodestruição e os recentes incidentes em frente ao apartamento de Cristina Kirchner indicam que o campo está cada vez mais aberto à combustão.

Revista Veja

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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