terça-feira, agosto 30, 2022

Risco de atentado à democracia: as suspeitas que levaram Moraes a autorizar operação contra empresários




O ministro do STF Alexandre de Moraes aceitou um pedido da PF para realizar uma operação contra empresários bolsonaristas

Incitação ao crime, golpe de Estado, formação de organização criminosa e risco de atentado à democracia.

Esses foram alguns dos possíveis crimes elencados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes na decisão que autorizou uma operação de busca e apreensão em endereços ligados a oito empresários na semana passada. A íntegra da decisão foi divulgada nesta segunda-feira (29/8).

Na terça-feira passada (23/8), empresários que são contrários ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foram alvo da Polícia Federal depois que reportagens publicadas no portal Metrópoles mostraram que alguns deles afirmavam preferir um golpe de Estado a um terceiro mandato de Lula.

Além de terem seus telefones apreendidos, os empresários tiveram suas redes sociais bloqueadas e foram alvo de quebra de sigilo bancário, telefônico e telemático (e-mails).

As reportagens tiveram como base mensagens trocadas pelos empresários em um grupo de WhatsApp. O petista lidera as principais pesquisas de intenção de voto, seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), que busca a reeleição.

Os empresários investigados são: Luciano Hang (das lojas Havan), José Koury (do Barra World), Afrânio Bandeira (da rede de restaurantes Coco Bambu), Marco Aurélio Raymundo (da marca de roupas Mormaii), André Tissot (do grupo Sierra Móveis), Meyer Nigri (da construtora Tecnisa), José Isaac Péres (da rede de shoppings Multiplan) e Ivan Wrobel (da construtora W3 Engenharia).

Os empresários vêm negando seus envolvimentos com a organização de "golpe" ou outros atos antidemocráticos.

A decisão de Alexandre de Moraes foi tomada em resposta a um pedido feito pela Polícia Federal, que investiga a conduta dos empresários.

Nos últimos dias, porém, o ministro vinha sendo alvo de críticas por conta da operação. Na semana passada, por exemplo, Bolsonaro classificou a operação como uma "escalada contra a liberdade".

"Espero que o ministro Alexandre de Moraes apresente a fundamentação sobre essa operação [contra os empresários] o mais rápido possível. A escalada contra a liberdade tem se avolumado em cima desses empresários", disse o presidente.

Em sua decisão, o ministro aponta cinco supostos crimes mencionados pela PF e que precisam ser investigados: incitação ao crime, associação criminosa (quando três ou mais pessoas se unem para praticar crimes), golpe de Estado, abolição violenta do estado democrático de direito e organização criminosa (compor, promover ou financiar organizações criminosas).

Os crimes podem levar a penas que podem ir a doze anos de prisão.

Confira as principais razões que levaram Alexandre de Moraes a autorizar a operação:

Potencial financiamento de ataques à instituições democráticas

De acordo com a decisão, os fatos noticiados pelo portal Metrópoles teriam relação com fatos investigados em inquéritos em curso no STF como o que apura a organização de atos antidemocráticos.

O inquérito é relatado por Alexandre de Moraes e investiga uma rede formada por empresários, políticos e influenciadores digitais que atuaria de forma a financiar e realizar ataques a autoridades e instituições democráticas.

"As condutas noticiadas nestes autos e identificadas pela Polícia Federal estão abarcadas pelo objeto do referido inquérito, notadamente pela grande capacidade socioeconômica do grupo investigado, a revelar o potencial de financiamento de atividades digitais ilícitas e incitação à prática de atos antidemocráticos", diz um trecho da decisão.

"Não há dúvidas de que as condutas dos investigados indicam possibilidade de atentados contra a Democracia e o Estado de Direito, utilizando-se do modus operandi de esquemas de divulgação em massa nas redes sociais, com o intuito de lesar ou expor a perigo de lesão a independência do Poder Judiciário, o Estado de Direito e a Democracia", disse o ministro na decisão.

Suposta tentativa de influenciar votos

Outro ponto destacado na decisão é a suposta tentativa de influenciar o voto de funcionários de empresas de integrantes do grupo. A suspeita parte de uma mensagem enviada pelo empresário José Koury.

"Alguém aqui no grupo deu uma ótima ideia, mas temos que ver se não é proibido. Dar um bônus em dinheiro ou um prêmio legal pra todos os funcionários das nossas empresas", diz a postagem.

"Quanto ao ponto, cumpre ressaltar que a autoridade policial apontou que um dos investigados, José Koury, publicou mensagem em que busca meio de tentar influenciar os votos de seus funcionários", diz outro trecho da decisão.

Risco de continuidade dos supostos crimes investigados

O ministro também citou o risco de continuidade dos supostos crimes investigados ao justificar o bloqueio de contas bancárias e de redes sociais.

Alguns dos empresários investigados têm milhares de seguidores em redes sociais. No Twitter, Luciano Hang tinha mais de 835 mil seguidores até sua conta ser bloqueada.

"Em virtude da presença de fortes indícios e significativas provas apontando a existência de uma verdadeira organização criminosa, de forte atuação digital e com núcleos de produção, publicação, financiamento e político [...] com a nítida finalidade de atentar contra a Democracia e o Estado de Direito", disse o ministro na decisão.

De acordo com Alexandre de Moraes, a PF entendeu que a mensagem indica que o empresário buscava influenciar os votos de seus funcionários.

Empresários negam envolvimento em crimes

Procurados na semana passada, os empresários negaram participar de irregularidades.

José Koury

"Tenho 64 anos, trabalho pelo menos 12 horas por dia, desde os 16 anos de idade, e sempre fui defensor da democracia e da livre liberdade de expressão e de pensamento. No grupo estão reunidos empresários e executivos que geram milhares de empregos, homens de bem, que têm família, pagam impostos e batalham muito para tornar o Brasil cada dia melhor. Aquele que for eleito, seja de que partido for, terá nosso apoio integral", disse o empresário.

Luciano Hang

Empresário Luciano Hang é um dos apoiadores mais conhecidos do presidente Jair Bolsonaro

"Que eu saiba, no Brasil, ainda não existe crime de pensamento e opinião. Em minhas mensagens em um grupo fechado de WhatsApp está claro que eu nunca, em momento algum falei sobre Golpe ou sobre STF", afirmou Hang.

Em nota enviada por sua assessoria após a divulgação da decisão do ministro, Luciano Hang disse que a manifestação de Alexandre de Moraes não aponta quais seriam os atos ilegais supostamente praticados por ele. "Eu e meus advogados tomamos conhecimento da decisão do Ministro Alexandre de Moraes pela imprensa, já que não foi nos dado acesso aos autos do processo. A decisão nada traz de novo e em nada nos surpreende, ela sequer indica quais seriam as minhas mensagens que constituiriam um ato antidemocrático", diz um trecho da nota.

Afrânio Barreira

Afrânio Barreira Filho é dono da rede de restaurantes Coco Bambu, que tem 64 unidades. Ele é um conhecido apoiador do presidente Jair Bolsonaro

"Estou absolutamente tranquilo, pois não posso ser acusado por participar de um grupo de Whattsup (sic). Não há uma única frase de minha autoria sobre esse assunto", diz um trecho da nota.

José Isaac Péres

A assessoria de imprensa da Multiplan, da qual é um dos sócios, infirmou que não haveria manifestação sobre o assunto.

Ivan Wrobel

Ivan Wrobel é dono da construtora W3 Engenharia, fundada em 1977. Ele é um dos empresários que foram alvo da operação da PF nesta terça-feira

"Descendente de família polonesa judia, o Sr. Ivan sempre soube o perigo que ditaduras podem causar. Cumpre ressaltar em 1968, quando aluno do IME, foi convidado a se retirar da instituição por ter se manifestado contrário ao AI-5. Foi convivendo e defendendo a democracia que o Sr. Ivan traçou toda sua vida, tanto familiar como profissional", disse um trecho de uma nota enviada pela assessoria do empresário.

André Tissot

Sua assessorial de imprensa informou que não haveria manifestação sobre o assunto.

Marco Aurélio Raymundo

A assessoria de imprensa do empresário informou que ele se colocou à disposição das autoridades.

Meyer Nigri

Meyer Nigri é fundador da construtora Tecnisa, especializada em imóveis residenciais

Procurada, a Tecnisa disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que a empresa é "apartidária" e que "defende valores democráticos".

BBC Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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