quarta-feira, agosto 31, 2022

Pesquisas: tudo como dantes no quartel d'Abrantes.




Como disse a ex-presidente Dilma, se faz o diabo para vencer. E quem paga a conta é quem mora no inferno. 

Por Alexandre Borges (foto)

Começam a aparecer as primeiras pesquisas eleitorais realizadas após as sabatinas do Jornal Nacional. Nesta segunda-feira (29), saiu o resultado das pesquisas Ipec (antigo Ibope) e BTG/FSB, mostrando uma impressionante estabilidade dos números. Não mudar nada é a grande notícia dos últimos dias.

A pesquisa Ipec trouxe um resultado surpreendente: os dois candidatos que lideram a corrida presidencial não variaram seus índices nem na margem de erro. Seus índices simplesmente não mudaram em nada. Tanto no levantamento de 15 de agosto quanto no que foi divulgado mais recentemente, Lula obteve 44% das intenções de voto (estimulada) para o primeiro turno. Bolsonaro ficou nos 32%. Com esse resultado, Lula tem 51% dos votos válidos e vence sem a necessidade de um segundo turno.

O Ipec é um instituto criado por executivos egressos do finado Ibope, com a estatística e cientista política Márcia Cavallari à frente. Ele entrevistou 2.000 pessoas entre os dias 26 e 28 de agosto em 128 municípios, com margem de erro de 2 pontos. Quando colocamos uma lupa nos "clusters", ou agrupamentos de eleitores por cortes específicos, identificamos algumas variações leves e ainda longe de apontarem novas tendências.

Para o eleitor de baixa renda, alvo de sucessivas canetadas presidenciais que estouraram o teto e acabaram com qualquer resquício de âncora fiscal, na mais cara tentativa de reeleição da história do país, as mudanças são irrisórias. No levantamento anterior, 60% dos eleitores com renda até 1 salário mínimo diziam votar em Lula. Na pesquisa divulgada nesta segunda, o petista caiu para 54%. Considerando a estonteante montanha de dinheiro público gasta para seduzir o eleitor, faltando um mês para a eleição, é muito pouco para animar o campo bolsonarista.

Quando se considera apenas os eleitores com alguém em casa recebendo benefício do governo federal, Lula mantém rigorosamente o mesmo índice da pesquisa da quinzena anterior, 52%. Vale lembrar que os governistas previam uma disparada de Bolsonaro já nessa altura da campanha, o que ainda não se refletiu nos números. Um sinal amarelo está aceso e não é por acaso.

Quando as tropas de Napoleão invadiram a Península Ibérica, tinham na liderança seu homem de confiança, o general Jean-Andoche Junot. Em 1807, uma das primeiras cidades lusitanas a cair sob o controle francês foi Abrantes, na região do Médio-Tejo. Ali nasceu a expressão irônica que zombava da aparente tranquilidade gerada pelo novo governo: "tudo como dantes no quartel d’Abrantes". A frase também era uma autocrítica, já que os lusitanos não ofereceram muita resistência às tropas napoleônicas. O próprio rei D. João VI havia fugido, com toda corte, para o Brasil.

A estabilidade nos números das pesquisas, mesmo com tantos cartuchos queimados pelo bolsonarismo, começa a diminuir o leque de opções dos seus estrategistas neste momento. O movimento atual é apostar todas as fichas no antipetismo, concentrando fogo nos casos de corrupção dos tempos lulistas, na tentativa de crescer seu índice de rejeição e viabilizar o segundo turno, visto como uma nova eleição.

Todo presidente brasileiro que tentou se reeleger foi bem sucedido, considerando os pleitos a partir de 1989. Ao mesmo tempo, nas oito eleições presidenciais após a redemocratização, todos os candidatos que terminaram na liderança no primeiro turno conseguiram vencer. É o copo meio cheio e meio vazio.

Bolsonaro parece com poucas ferramentas à disposição, o que não é nada bom para alguém com seu temperamento e com o controle que exerce sobre muitas mentes do país, muitos investidos na ideia estapafúrdia de que há uma "batalha espiritual do bem contra o mal". Nessas horas que, como disse a ex-presidente Dilma, se faz o diabo para vencer. E quem paga a conta é quem mora no inferno.

Gazeta do Povo (PR)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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