terça-feira, agosto 30, 2022

Sete constatações sobre um debate desconexo




"O programa de Lula parece se chamar 'Em frente rumo ao passado'; e Bolsonaro não tem muito mais a oferecer do que Deus, família, pátria e liberdade", escreve Philipp Lichterbeck

Por Philipp Lichterbeck*

Primeiro confronto entre candidatos à Presidência na TV foi desordenado e superficial, com um Lula apagado e grosserias habituais de Bolsonaro. Simone Tebet foi a vencedora da noite, avalia Philipp Lichterbeck.

Ficou decepcionado quem esperava que os seis principais candidatos à Presidência do Brasil discutissem propostas para o futuro do país no debate de três horas de duração realizado neste domingo (28/08). A discussão foi desconexa, confusa e, sobretudo, estressante, em parte devido ao formato escolhido e à técnica.

A começar pela iluminação num tom azul frio em todo o estúdio, o que deu a impressão de que os candidatos, alinhados lado a lado de maneira estéril, estavam flutuando no espaço sideral – especialmente aqueles usando terno também azul. Um pouco mais de calor e um posicionamento em meio-círculo teriam contribuído para uma atmosfera mais agradável. Da mesma maneira, teria sido bom melhorar a qualidade acústica – o som era metálico e havia muitos ruídos de fundo.

O ponto fraco do debate, no entanto, foi que não se discutiram temas em blocos. Pelo contrário, a discussão foi desordenada o tempo todo: passava da política para mulheres pelo direito ao armamento até o agronegócio, à gestão da pandemia e à fome. Nenhum tema foi debatido por mais de alguns minutos; os candidatos apresentaram argumentos decorados e não houve muita espontaneidade. Mas quando teve, o debate ficou vivo.

Essa estrutura se mostrou cansativa também porque os candidatos argumentaram partindo de posicionamentos completamente diversos. De um lado, os políticos alfa Lula e Bolsonaro, que sabem que vão decidir o pleito entre si. Do outro, os adversários: Ciro Gomes e Simone Tebet, para os quais está claro que não têm chance, mas que participam do processo mesmo assim – Ciro, porque já é tradição para ele ficar em terceiro lugar nas eleições presidenciais; e Tebet, para se posicionar para tarefas futuras. E também houve os candidatos que transitam debaixo do radar, Soraya Thronicke e Felipe d'Avila, que queriam principalmente lembrar que existem.

Se, mesmo assim, algo dessa longa noite fica na memória, são as sete constatações seguintes.

Vamos começar com Lula. Seu programa para o futuro parece se chamar "Em frente, rumo ao passado!". Toda vez que ele teve a chance de falar sobre seus planos de governo a partir de 2023, falou de sua posse em 2003. Nem de longe Lula esteve tão seguro como durante sua entrevista ao Jornal Nacional na semana passada. Parecia cansado, e a presença de espírito e a eloquência só apareciam quando era provocado – por exemplo, ao lembrar Soraya Thronicke de que ela também tem jardineiro, motorista e empregada (Thronicke não rebateu). Ou quando prometeu a Bolsonaro: "Em um decreto só eu vou apagar todos os seus sigilos". Lula é um gigante, mas durante o debate, ficou longamente adormecido.

Segunda constatação: Bolsonaro não tem muito mais a oferecer do que Deus, família, pátria e liberdade. E grosserias, é claro, comentadas por todos em seguida. Dessa vez, o alvo foi a jornalista Vera Magalhães. Como sempre, os adversários de Bolsonaro ficaram indignados, mas seus apoiadores o consideram genuíno e autêntico.

Bolsonaro se vangloria de ter aumentado os auxílios federais para os pobres. Fato curioso, principalmente porque ele queria eliminar qualquer programa assistencialista. O presidente parecia irritado, insatisfeito. Mas seus eleitores também votariam num toco de madeira se fosse escrito Bolsonaro nele.

Terceira: Ciro Gomes se diverte. Não tem nada a perder, então aproveita. Como sempre, falou das dívidas dos brasileiros, que ele quer eliminar, além de protagonizar uma escaramuça com seu inimigo preferido, Lula, por causa de sua viagem a Paris após o primeiro turno das eleições de 2018. Ciro se mostrou forte quando apontou que foi justamente o PT que fortaleceu o setor privado na área da educação. Ciro é inteligente, autoconfiante e arrogante. Pena que ele não tem mais influência sobre a política brasileira. Ela a tornaria mais divertida.

Quarta: Simone Tebet foi a vencedora da noite, mas não da eleição. Pareceu segura de si, coerente, eloquente e bateu muito melhor em Bolsonaro do que Lula. Mostrou-se especialmente forte quando tratou de reivindicar direitos das mulheres. Apresentou-se como a nova mãe da nação (a primeira foi a presidenta Dilma) – e, se continuar assim, vai fazer concorrência a Ciro pela terceira posição na disputa.

Quinta: o melhor momento de Soraya Thronicke foi quando ela defendeu Vera Magalhães de Bolsonaro: "Quando homens são tchutchucas com outros homens, mas vêm para cima da gente sendo tigrão." Soraya deixou uma pulga atrás da orelha quando fez a seguinte promessa: "Podem ter certeza que, do jeito que está, eu vou começar a entregar muita coisa aqui." Agora todos os brasileiros estão curiosos sobre o que Soraya poderia entregar. Thronicke foi uma grata surpresa por ter trazido, junto com Tebet, e as jornalistas que fizeram perguntas, uma certa seriedade e sobriedade ao debate.

Sexta: Felipe d'Avila é o típico candidato monotemático. Quer eliminar impostos e também o Estado por completo para que o setor privado determine nossas vidas. Infelizmente, ninguém perguntou a ele por que, então, ele quer se tornar chefe de Estado.

Sétima constatação: praticamente não se falou de rachadinha e de orçamento secreto, não se falou de racismo, de negros ou indígenas. Talvez porque houve zero pessoas negras e indígenas presentes no debate.

*Philipp Lichterbeck é correspondente e colunista da DW Brasil

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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