terça-feira, agosto 30, 2022

Como ficará o Senado em 2023?




Caso eleito, Lula precisará do MDB e do PSD para governar

Por Bruno Carazza* (foto)

Assim como no Brasil, os Estados Unidos vão renovar todo o plenário da Câmara dos Deputados (435 cadeiras) e pouco mais de um terço do Senado (35 dos 100 membros) no próximo dia 8 de novembro. Caso os Democratas percam a maioria nas duas Casas legislativas, o campo de manobra de Joe Biden ficará bastante reduzido, aumentando as chances de retorno de Donald Trump à Casa Branca ou a vitória de um aliado próximo.

As projeções dos analistas políticos convergem na previsão de que o partido Democrata de Joe Biden perderá o controle da Câmara. Quanto ao Senado, que hoje está dividido em 50 a 50, não há nenhuma certeza.

Dos 35 postos de senador em disputa, 21 pertencem atualmente a republicanos e 14 a democratas. Para tentar antever a futura composição do Senado, canais de análise política como Politico e FiveThirtyEight levam em consideração a força dos incumbentes e o perfil dos seus desafiantes, assim como a coloração do eleitorado de cada Estado, se mais azul (democratas) ou vermelho (republicanos).

Aqui no Brasil, como as eleições são concentradas, as campanhas para os cargos legislativos não recebem a atenção que merecem. Afinal, a depender dos deputados federais e senadores eleitos daqui a praticamente um mês, o próximo presidente terá maior ou menor facilidade para ver aprovadas as suas propostas e, assim, governar de forma mais tranquila.

Inspirado na cobertura das eleições de meio de mandato (as famosas midterms) nos Estados Unidos, resolvi especular sobre a configuração do Senado que sairá das urnas em breve levando em consideração as cadeiras a serem renovadas, os candidatos em cada Estado e as pesquisas publicadas até o momento.

Num plenário de 81 senadores, 54 manterão os seus cargos, pois seus mandatos vão até o início de 2027. Levando em conta esses senadores que têm cadeira cativa nos próximos quatro anos, Lula já teria assegurada uma base de oito senadores (cinco do PT, uma do PSB, uma do Pros e um da Rede), podendo ser acrescentados aí mais dois parlamentares do PDT.

O Centrão, que apoia Bolsonaro, tem garantidos 11 senadores em 2023 - seis do PL, quatro do PP e um do Republicanos.

E quanto às 27 vagas em aberto agora em outubro? Qual é a tendência de vitória de cada bloco e como os prováveis eleitos podem mudar a configuração de forças no Congresso em 2023?

Do ponto de vista de Lula, há boas perspectivas com o favoritismo de ex-governadores de esquerda que se lançaram para o Senado, como Camilo Santana (PT-CE), Wellington Dias (PT-PI) e Flávio Dino (PSB-MA). E a conta pode crescer ainda mais, caso se confirmem as vantagens de Márcio França (PSB) em São Paulo e de Ricardo Coutinho (PT) na Paraíba - embora sua candidatura ainda esteja pendente na Justiça.

Pelo lado de Bolsonaro, sua base certamente se ampliará com a vitória de Tereza Cristina (PP-MS) e a reeleição de Wellington Fagundes (PL-MT). Há bons prognósticos para Romário (PL-RJ), Magno Malta (PL-ES) e Mariana Carvalho (Republicanos-RO). No Distrito Federal, Flávia Arruda (PL) e Damares Alves (Republicanos) lideram as pesquisas - e ambas são bolsonaristas. Em Minas Gerais, seu candidato Cleitinho Azevedo (PSC) aparece em primeiro, tendo Marcelo Aro (PP), apoiado pelo governador Romeu Zema e também bolsonarista, correndo por fora.

Há embates entre a esquerda e o Centrão em três Estados: Olívio Dutra (PT) e Hamilton Mourão (Republicanos) no Rio Grande do Sul; Carlos Eduardo (PDT) e Rogério Marinho (PL) no Rio Grande do Norte; e em Sergipe o jogo está embolado entre o Valadares Filho (PSB), de um lado, e Eduardo Amorim (PL) e Danielle Garcia (Podemos), do outro.

Pelas projeções acima vê-se que tanto Lula quanto Bolsonaro precisarão ampliar apoios no Senado além das fronteiras da esquerda e do Centrão para formar maioria.

No caso de Lula, o natural é uma aproximação com o MDB, com quem tem boa relação principalmente junto a dirigentes do Nordeste, e o PSD de Kassab. Cada uma dessas legendas terá pelo menos 8 senadores, com viés de alta, e assim poderão contribuir para a governabilidade num eventual terceiro mandato do petista.

O MDB muito provavelmente ampliará bancada com a eleição de Renan Filho em Alagoas e com o eventual retorno de Romero Jucá, por Roraima. O partido ainda nutre esperanças de obter mais um assento com a primeira-dama de Macapá Rayssa Furlan, principal aposta para frustrar os planos de reeleição de Davi Alcolumbre (União Brasil) pelo Amapá.

O PSD tem como praticamente garantida a reeleição de Otto Alencar na Bahia, além de contar com a vitória de Raimundo Colombo em Santa Catarina. No Amazonas, Omar Aziz (PSD) pontua à frente de Arthur Virgílio (PSDB). E Alexandre Silveira tem chances de reeleição em Minas Gerais.

Outros três partidos despontam como forças médias no Senado 2023.

O União Brasil terá pelo menos seis senadores, e lidera no Amapá (com Alcolumbre) e no Tocantins, com Professora Dorinha até agora desbancando a senadora Kátia Abreu (PP).

O Podemos continuará com seis senadores atuais e pode crescer com a reeleição de Álvaro Dias no Paraná (a se confirmar sua vitória sobre Sergio Moro, do União Brasil). O PSDB encolheu para apenas quatro senadores, mas tem grandes chances de ter mais uma cadeira com o ex-governador Marconi Perillo em Goiás.

Três Estados ainda são incógnitas quanto à corrida pelo Senado. Acre e Pará ainda não tiveram pesquisas confiáveis publicadas nas últimas semanas. Já em Pernambuco, quatro candidatos estão embolados dentro da margem de erro.

O desenho das eleições nos Estados indica que, caso saia vitorioso, Bolsonaro continuará a ter problemas no Senado, uma vez que o Centrão não tem nessa Casa a mesma força de que dispõe na Câmara.

Quanto a Lula, os números sugerem que a ampliação do número de senadores da esquerda, bem como uma provável aliança com o MDB e o PSD pode dar uma certa tranquilidade para o petista.

*Bruno Carazza é mestre em economia e doutor em direito, é autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro” (Companhia das Letras)”. 

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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