terça-feira, agosto 30, 2022

A redefinição da ordem europeia: o papel da guerra ideológica da Rússia contra a Ucrânia




Mais do que uma guerra de territórios, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia é uma guerra ideológica, que marca o pontapé de saída de uma série de potenciais conflitos latentes. 

Por João Pires 

A mais recente fase do conflito russo-ucraniano, iniciada pela invasão de 24 de fevereiro, marca uma rutura da ordem pluralista europeia emanante do pós-II Guerra Mundial, estabelecendo a materialização de uma permanente tensão entre as necessidades securitárias russas ao nível da sua política externa e as três principais características desse mesmo ordenamento estabelecido a partir de 1945 – a concretização de uma liderança militar norte-americana, de uma liderança económica tácita da Alemanha e de uma vertente pluralista, multipolar e, no limite, supranacional. Esta rutura, aliada a uma retração do típico papel unipolar de destaque norte-americano, coloca pressão inusitada sobre toda a ordem internacional, evidenciando um conjunto de pontos de pressão além de meras considerações sobre equilíbrios e distribuições de poder. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia é, portanto, uma guerra que nos envolve a todos, enquanto sociedade, e que ameaça o modelo construído, a nível político e ideológico, pelo Ocidente nos últimos 70 anos.

O conflito russo-ucraniano, pese embora a notoriedade e o destaque obtidos na comunidade internacional na sequência da invasão perpetrada pelas forças de Moscovo em fevereiro deste ano, encontra as suas raízes contemporâneas no desmoronamento da União Soviética e na perceção securitária russa a partir desse período. Desde a anexação ilegal da Crimeia em 2014 ao apoio das forças rebeldes na região do Donbass a partir desse período, a oposição entre ambas as forças tem apresentado um propósito ideológico, assente em reivindicações russas inerentes ao passado comum e partilhado entre as duas Nações e, principalmente, entre os dois povos, com origem na Rus do século VIII e com capital em Kiev, e um propósito securitário, assente na necessidade, ao nível da Política Externa, de controlo da Planície da Europa do Norte, do porto de Sebastopol enquanto único porto de água temperada no Inverno («warm-water port»); portanto, enquanto garante de uma infraestrutura comercial de peso para a economia do urso russo, e, por último, do aprofundamento da profundidade estratégica como fator fundamental à sua capacidade de defesa ao longo da História, nomeadamente em 1812 e em 1941.

Nesse sentido, 2022 marca uma esperada universalização de um conflito regional que, no fundo, se afigura como expressão do confronto entre duas ordens e duas visões do Mundo distintas – entre o modelo demo-liberal e o modelo das «democracias soberanas e musculadas»; e entre a ordem europeia pluralista e a ordem de afirmação hegemónica russa na Europa, assente num eventual equilíbrio de poder favorável a Moscovo. Alheios a considerações morais de qualquer tipo, Putin, Lavrov e o seu conjunto de agressores visa, então, demolir uma ordem objetivamente contrária às pretensões russas, construída sob um modelo antagónico ao historicamente perpetrado pelos vários Estados antecessores da atual Federação Russa – Grão-Ducado da Moscóvia, Império Russo e União Soviética – e com o objetivo concreto de conter a Alemanha e a Rússia, por forma a afirmar a hegemonia russa no continente europeu e a multipolaridade a nível mundial, em confronto com a China e os Estados Unidos.

Sobre o falhanço da ação da Alemanha e sobre uma instabilidade norte-americana, materializada numa dupla face associada à falta de ação decisiva, por um lado, neste conflito específico, e à concretização de movimentações desfasadas do tempo histórico adequado, como a visita da speaker Pelosi a Taiwan, a ordem europeia acabará, mesmo, por ruir, pressionando a ordem mundial e atestando um conflito que se distancia muito de uma dimensão regional e que, por isso, exige uma ação concertada de todo o bloco ocidental. Mais do que uma guerra de territórios e de movimentações políticas e diplomáticas, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia é uma guerra ideológica, que marca o pontapé de saída de uma série de potenciais conflitos latentes, no continente europeu – entre a Sérvia e o Kosovo, e.g. – e fora dele – entre as Duas Chinas., e.g. – e que potencia a entrada numa nova era da diplomacia mundial – mais propícia ao conflito armado como chave de resolução de eventuais disputas e contendas previamente confinadas ao campo das soluções pacíficas encetadas por uma ordem herdeira das suas principais sucessoras – Viena e Vestefália.

Do Fim da História apregoado por Francis Fukuyama em 1991, o Mundo atravessa, na contemporaneidade, um refluxo do seu processo de democratização, mesmo em estruturas previamente consolidadas e institucionalizadas – influenciando as Relações Internacionais para um campo eminentemente mais moral e ideológico e para uma separação em blocos que seja cara a essas mesmas dimensões. Esta reorientação, alinhada com o progressivo fim do Sistema Internacional unipolar assente na ascensão económica e, progressivamente, militar e naval da China, exige uma reestruturação da Política Externa norte-americana e, de forma mais importante, das principais forças inerentes ao continente europeu, com incidência especial sobre a Alemanha e sobre a ação de Olaf Scholz, ao nível do rearmamento militar e da caracterização de um novo sistema de equilíbrio de poderes que permita a contenção do poder bélico russo. Disso dependerá o futuro da Europa e, pela sua influência em redução, mas considerável, de todo o Mundo, a nível económico, político e social. Mark Leonard afirmou o século XX como o século da Europa. Errou. Mas a Europa (e os Estados Unidos) apresentam um papel determinante e crucial para evitar um século XXI como um século de autoritarismo.

Observador (PT)

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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