quinta-feira, agosto 18, 2022

Os dois planos de Lula para a infraestrutura




PT quer um plano ‘emergencial’ e outro ‘estratégico’

Por Daniel Rittner (foto)  

O PT e a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva querem a adoção de dois planos - um “emergencial” (com largada já nos primeiros meses de um eventual novo governo) e outro “estratégico” (de médio a longo prazo) - para a infraestrutura. Eles têm, como pré-requisito, mudanças na regra atual do teto de gastos para fortalecer investimentos públicos e o papel do Estado como indutor de projetos liderados pelo setor privado.

O plano emergencial prevê uma aceleração de obras do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) nas rodovias federais e da estatal Valec na Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), injeção de recursos na faixa 1 do programa habitacional Casa Verde e Amarela (antigo Minha Casa Minha Vida), agilidade nos leilões em fase adiantada de estruturação (os lotes de estradas no Paraná e terminais portuários), retomada de obras em concessões problemáticas por meio de uma repactuação dos contratos ou de relicitação.

O plano estratégico envolve um pente-fino na carteira de concessões e a elaboração de uma prateleira mais ampla de projetos. A ideia central é privilegiar investimentos em vez de outorgas. Na avaliação de colaboradores de Lula, há um esgotamento de rodovias e aeroportos superavitários, que se sustentam exclusivamente com as tarifas cobradas dos usuários. Por isso, fala-se em apostar fortemente em PPPs, com aportes da União - até hoje não existe nenhum contrato federal de parceria público-privada firmado na área de infraestrutura. Bancos públicos devem ser acionados para atuar em um sistema de garantias para a obtenção de financiamento de longo prazo.

Tudo indica que haverá uma nova modelagem para ativos como o Porto de Santos e a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). A mudança mais provável é em Santos. O governo Jair Bolsonaro tem trabalhado na privatização da autoridade portuária, mas o cronograma planejado atrasou. O Ministério da Infraestrutura ainda quer publicar o edital de desestatização neste ano, mas não será mais viável realizar o leilão e assinar o contrato até dezembro. Escorregou para o próximo mandato, em 2023.

Auxiliares do ex-presidente que participam da elaboração do programa de governo dizem não sentir conforto suficiente para levar adiante esse processo. Eles admitem a necessidade de aperfeiçoar a gestão dos portos, mas preferem alternativas como a abertura de capital da Santos Port Authority (antiga Codesp) ou a concessão de atividades específicas, como o serviço de dragagem. Veem a privatização como arriscada demais para o maior porto da América Latina: ele pode virar propriedade das companhias de navegação e ter suas operações verticalizadas, futuras expansões de terminais podem dar preferência a cargas que não são necessariamente de interesse público, a experiência internacional não endossa esse como o melhor caminho, o país ainda não testou o modelo de autoridades portuárias sob controle privado (a Codesa, no Espírito Santo, teve leilão em março deste ano e o contrato com a empresa vencedora só deve ser firmado em setembro).

O caso da FCA é considerado mais complexo. A renovação antecipada das concessões de ferrovias deu seus primeiros passos no fim da gestão Dilma Rousseff, avançou sob Michel Temer e foi sacramentada por Jair Bolsonaro. Mais de R$ 20 bilhões estão sendo investidos por Rumo, Vale e MRS como contrapartida para os 30 anos adicionais de contrato. Sobrou a FCA, que tem a maior malha de trilhos e cruza vários Estados.

A concessão atual vence em agosto de 2026. Ficou perto do prazo final. Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo divergem sobre as obras compensatórias. O que muitos questionam agora no PT é, se a esta altura do campeonato, não valeria mais a pena esperar o encerramento do contrato e preparar a relicitação da FCA.

“Em um ambiente econômico tão difícil, o setor privado não responde a contento e o Estado precisa puxar os investimentos em infraestrutura”, afirma uma pessoa que tem se dedicado ao programa do candidato petista na área. “É preciso juntar os aportes de ambos os lados para termos uma efetiva retomada dos investimentos”, acrescenta.

O diagnóstico da equipe é que o privado não assumiu o espaço deixado em aberto pela queda de aportes da União ou dos Estados. Encolheram juntos. O orçamento em transportes é o mais baixo em duas décadas. Avalia-se, no entorno de Lula, que o Dnit teria condições de reativar rapidamente seu leque de contratos. No auge do PAC, a autarquia chegou a ter dois terços das rodovias federais cobertos por Crema (serviços de conservação ou restauração do pavimento com cinco anos de duração) ou contratos até mais abrangentes, de restauração. Em 2020, a cobertura diminuiu para menos de 15% do total. O índice de qualidade das estradas, que é medido pela CNT, também caiu.

Há outras ideias em gestação: aperfeiçoar o mecanismo das debêntures incentivadas, testar regras que favoreçam a entrada de novos grupos nos leilões de infraestrutura, pensar em uma repactuação com os órgãos de controle, evitando que recursos bloqueados ou obras paradas se apresentem como indicadores de eficiência no trabalho deles. Um aperitivo das propostas - que não pode, entretanto, ser confundido com um programa de governo - está em artigo recém-publicado dos “Cadernos Teoria e Debate”, da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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