domingo, fevereiro 24, 2008

Artigo - Uma Perestroika ao melhor estilo cubano

Leandro Area, cientista político da Universidade Central da Venezuela
I - Pater familiae
Fidel Castro parece ter dado adeus à vida, e não ao poder. Essa é uma primeira impressão que se tem ao observar sua longa despedida. Televisionada, além disso, como se todos estivéssemos presentes no seu velório. Muito à cubana, né? Porque atores não faltaram, e espectadores, muito menos. Mais de uma pessoa já enxugou a lágrima ao ver aquele "Cavalo de Tróia" convertido em um hospitaleiro ancião recebendo as visitas do doente em traje esportivo. Tão pouco militar. Foi um adeus entre aspas, com reticências. Uma longa agonia tratando de deixar tudo em ordem como exige a honra de um pai de família.
Em um plano aparte do cenário sussurram outras vozes. Os filhos legítimos ou não, movem suas cartas. Fidel Castro já não possui o controle da continuidade, mas se sabe de uma força superior que na qual se combinam medo e respeito. O temor da orfandade se mescla ao justo preço ganho em mil batalhas, nem todas honrosas, celebradas com a fruição do que sabe ou supõe lutar por "causas nobres", ligadas a títulos honoríficos como liberdade, dignidade, soberania, povo, justiça, pátria. Palavras chaves para uma luta contra o imperialismo, a barbárie, a morte.
II - O inimigo
Olho para Fidel com afeto nas fotos que Raúl Corral (Corrales) tirou nos dias da "Playa Girón" e recordo ao longe suas palavras frente àquela multidão concentrada ne Praça da Revolução: "... porque o que não podem perdoar os imperialistas é que estejamos aqui, o que não podem perdoar os imperialistas é a dignidade, a integridade, o valor, a firmeza ideológica, o espírito de sacrifício e o espírito revolucionário do povo de Cuba". E não os perdoariam.
Como castigo, cometeram centenas de erros e deslizes políticos, contra Fidel, Cuba e seu povo. No que se refere a ataques pessoais nos conta o historiador Paul Johnson em seu Tempos Modernos: "Em diferentes ocasiões houve planos no sentido de utilizar os pistoleiros para atacar funcionários cubanos, difundir o rumor de que Castro era o anti-Cristo e que o Segundo Advento era iminente, enviar um submarino para bombardear a costa, atacar os trabalhadores do açúcar com produtos químicos não-letais e utilizar sais de tálio para provocar a queda da barba de Castro, mesclar seus cigarros com produtos químicos destinados a confundir sua mente ou impregná-lo com o letal bacilo botulínico, fornecer à sua amante, Marie Lorenz, cápsulas de veneno, utilizar pistoleiros cubano-americanos para assassiná-lo por contrato, presenteá-la com equipamento de natação submarina impregnado com um bacilo da tuberculose e um fungo que atacava a pele" (pp. 627 y 628).
No político, há decisões erráticas por parte dos Estados Unidos e de outros países e organizações internacionais, como a OEA que, em 31 de janeiro de 1962 - na oitava reunião de consulta de ministros das Relações Exteriores celebrada em Punta del Leste, Uruguai, com o voto salvo da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador e México - decidiu expulsar Cuba do Sistema Interamericano. Em outubro deste mesmo ano se produzem os eventos que dão o que falar sobre a tensão nuclear mais perigosa que viveu a humanidade, ao descobrir-se que a União Soviética havia instalado armas nucleares em Cuba e que já se encontravam em operação. O ataque nuclear em massa, a invasão ou o bloqueio, são algumas das alternativas que repousam sobre a mesa do presidente John F. Kennedy. Se decide pelo bloqueio que, apesar do clamor internacional, ainda persiste.
E não o perdoam, dizia. Assim, o converteram em ilha, mais isolado do que nunca fizeram dele um herói, um vilão, um arquiinimigo, uma figura histórica, o que é. O colocaram contra a parede, como ele colocou muitos, e o satanizaram de tal maneira que todo o socialismo, o comunismo, o antiamericanismo conquistaram justificativa política e psicológica em um ser excluído. "A história me absolverá", respondeu.
Cuba deixou de ser o bordel dos Estados Unidos para converter-se no aliado dos soviéticos e exemplo parasitário para América Latina. Se produziu uma onda de despertar na esquerda latino-americana e nos movimentos guerrilheiros. Se a guerra civil espanhola é um marco para compreender o presente, a revolução cubana e a brutalidade internacional também o são.
III - Onde estamos?
O muro de Berlim foi derrubado em novembro de 1989, mas esta elusiva linha divisória que separa Cuba de boa parte do resto do planeta ainda persiste. Castro sabe que sua morte pode ajudar determinada reconciliação e que é muito difícil fazê-lo em vida, pois o passado limita o presente. Despontam as palavras de Simón Bolívar: "Se minha morte contribui para que cessem os partidos e se consolide a união, irei tranquilo ao sepulcro".
E acaba que em Cuba se mostram alternativas para a abertura, pequenos passos, detalhes, gestos que na diplomacia valem ouro, que acompanham a queda física de Castro. Preparando a transição? Para onde? Com quem?
Em 19 de fevereiro de 2008, o diário oficial Granma publicou uma carta de Fidel, onde desiste, a dias das próximas eleições, de ser chefe do governo. Igualmente renuncia ser o presidente e comandante-em-chefe. A renovação acompanha sua queda. Há no fundo e na forma ritmo e melodia. Como na música cubana. Aparecem três rostos. Raúl, seu irmão, nascido em 3 de junho de 1931, que conta com o apoio das Forças Armadas e do Partido Comunista; Carlos Lage Dávila, nascido em 15 de outubro de 1951, vice-presidente da República, médico como Che Guevara e licenciado em ciências sociais; Felipe Pérez Roque, nascido em 28 de março de 1965, ministro de Relações Exteriores, que realizou um trabalho estupendo.
Em todo caso, o que acontecerá está, em boa medida, nas mãos de Fidel. Seu poder, a diferença de seu estado físico, não mudou. Ao contrário, em tempos de despedida deve ser maior. Uma Perestroika à cubana ronda sua mente.
IV - A outra herança
O presidente da Venezuela tem sido o melhor aliado não só de Cuba, mas sobretudo de Fidel. Ter um filho aos 80 anos não é pouco, e quando se é rico, melhor. Mas além dos petrodólares, existe uma relação afetiva que não se pode esconder. Que eles próprios mostraram com orgulho ao mundo. Há uma paixão paterno-filial evidente. "Fidel, pai nosso que estás na terra" disse Chávez. Mas Hugo Rafael, além disso, calcula e escuta que ele pode ser o herdeiro, com na Canção do eleito, de Silvio Rodríguez: "Sempre que se faz uma história, se fala de um velho, de uma criança ou de si". E esta opção agrada a Chávez. Foi feita para estes cenários dramáticos, militares, cheios de sangue e fogo, que é como a busca de um destino trágico, ainda que no final, talvez, morra como Fidel, em uma cama de hospital. Castro matuta.
Mas será que aos cubanos não interessa esta queda? Não está claro, nem mesmo para Fidel. Tudo depende de planos, circunstâncias e atores. Porque o Brasil e Lula são outra alternativa, que segundo alguns cubanos abre as portas de um destino mais claro e sólido. O Brasil pode entrar na Casa Branca e no mundo ocidental. Chávez não. O Brasil possui uma economia mais sólida. Não se fala espanhol, mas tem menos inimigos. A Venezuela é volátil, caudilhista, petroleira e adversária. A quem preferir, o império pode ser um aliado.
Nada é eterno. Tudo flui. Só os dinossauros continuam ali.
leandro.area@gmail.com
Fonte: JB Online

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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