sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Globo quer cortar "Linha direta": um absurdo

Por: Pedro do Coutto

Li há alguns dias numa coluna da "Folha de S. Paulo" - está na internet - que a direção da Rede Globo pretende suspender o "Linha direta" que vai ao ar às quintas-feiras e, sem dúvida, figura entre os programas de melhor qualidade da emissora. Incrível destacar o "Big brother" e cortar o LD, inclusive com boa audiência para o horário. Se confirmado o corte, terá sido um equívoco grave. Mais que isso: um absurdo.
Há 54 anos no jornalismo, infelizmente, me acostumei a absurdos, a começar pelos que aconteceram, por exemplo, no "Correio da Manhã", jornal em que trabalhei. O "Linha direta" focaliza (ou focalizava) muito bem o eterno conflito humano que se desloca para as investigações policiais e daí para as decisões judiciais. Dois campos que, no mundo todo, em todas as épocas, motivaram obras extraordinárias. Não só livros de grande repercussão, mas filmes de altíssima qualidade também. Para citar um exemplo de sucesso duplo, total, nos dois campos, aí está o "Código Da Vinci" do jornalista Dan Brown. A vida e a arte convergindo.
Há uma infinidade de romances e contos, de um lado, e de filmes, de outro. No meio, peças de teatro como as inspiradas nos textos de Agatha Christie, a grande dama da história policial. São, no fundo, a fusão da reportagem e do vôo livre que caracteriza e realça a arte, síntese da realidade com a ficção. Pois os autores têm inevitavelmente sempre que partir de um ponto. O que torna muito tênue a linha que separa um plano do outro. Separa? Ou complementa? Tenho dúvida.
"Linha direta", acentuado pela atuação impecável de Domingos Meireles, sempre levou para a tela da principal rede de TV do País reportagens muito importantes, elucidativas até. O crime do Sacopã, ocorrido em abril de 52, uma delas. O acusado, tenente Jorge Alberto Bandeira, daquele ano até 2006, quando faleceu, sempre afirmou inocência. Muito bem. Quando Meireles convidou-o para dar seu depoimento, recusou.
Ficou no ar uma confissão tácita. O que não é suficiente para esclarecer o mistério em torno dos caminhos percorridos e pela convergência dos personagens envolvidos. Mas este é outro assunto. Outra matéria excelente, a que focalizou o terrível labirinto do cabo Anselmo. O crime da mala, ocorrido na década de 40. O assassinato do advogado Stélio Galvão Bueno pela própria mulher. A morte do cartunista Roberto Rodrigues, irmão de Nelson, na redação do jornal "A Crítica", de seu pai, por Sílvia Tibau.
Além destas, uma série de outras histórias que sempre receberam um tratamento de nível, tanto no que se refere à apresentação, quanto pela qualidade da imagem e das simulações feitas por atores pouco conhecidos, exatamente para conduzir a um processo semelhante ao do cinema-verdade. Processo que notabilizou Roberto Rossellini, notadamente com "Roma cidade aberta": o clássico "Paisá"; "O general de la Rovere". Todos com base na presença do nazismo na Itália e suas conseqüências no após guerra. "Roma cidade aberta", que tem Fellini como roteirista, o que poucos sabem, foi realizado ainda em meio a combates entre as forças militares e civis que lutavam pela cidade. O LD seguiu esta trilha. Percorreu muito bem o caminho.
Isso de um lado. De outro, contribuiu para a elucidação de uma seqüência de crimes até então insolúveis e para a prisão de criminosos que se encontravam foragidos da Justiça. Suas faces eram projetadas diante da multidão do outro lado da tela. Foram encontrados e presos.
A violência, a paixão, o ciúme, o ódio, o roubo, claro, fazem parte da tragédia humana. A pilhagem também. As figuras criminosas são de todas as épocas. Os conflitos humanos, também. Obras de arte definitivas foram produzidas a partir deles e com base neles. Estão tanto em Skakespeare quanto em Howard Koch, autor e roteirista de "Casablanca". Encontram-se em Dias Gomes, em Janete Clair, em Manoel Carlos, em Aguinaldo Silva. Situam-se nos romances de Alexandre Dumas. Os "Mosqueteiros" são para sempre. O western de John Ford, também.
Sem o conflito e o confronto é impossível fazer-se obras de arte. Como é igualmente impossível escrever-se a história. Seja das cidades, dos estados, dos países, do próprio universo. História? Lembremo-nos da divisão magistral de Marshall McLuhan: a era do relato, que antecede a imprensa de Gutemberg, que surgiu em 1440, e a do registro que a sucede. A cerca de 200 anos surgia a fotografia. Cem anos depois, o cinema. Na década de 1930 começava a televisão.
Hoje, com a internet, a pesquisa se amplia e consolida. Todas estas etapas pertencem ao processo da comunicação. Com os textos e as imagens, os personagens e os fatos tornam-se cada vez mais expostos. Nem por isso os conflitos desapareceram ou diminuíram.
Por isso, se a Globo cometer o erro de retirar o "Linha direta" do ar, o registro dos dramas e dos impasses se enfraquece, da mesma forma que o limite entre o legal e o ilegal na consciência coletiva. Será como deixar uma estante vazia, numa decisão que inclusive contradiz com os seriados da televisão a cabo que se baseiam em fatos reais que terminaram em crimes. Não se deve esquecer que é a realidade que inspira a ficção e não a ficção que inspira a realidade.
Afinal de contas, como digo sempre, ninguém até hoje escreveu algo que não tenha acontecido. O jogo das situações e das palavras é outra coisa. E a televisão, como o cinema, reflete o comportamento humano. "Linha direta" nunca inventou fatos. Apenas os refletiu, em nível alto, como um espelho da vida.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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