quarta-feira, agosto 28, 2024

O Legado Amargo da CHESF em Paulo Afonso


O Legado Amargo da CHESF em Paulo Afonso

Paulo Afonso, cidade marcada pela presença da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), carrega uma história de contradições e injustiças. Desde sua criação, a CHESF se beneficiou dos recursos da região, especialmente das águas do Rio São Francisco e das terras dos municípios de Paulo Afonso, e de vários outros municípios da Bahia e de Pernambuco, para gerar energia elétrica.


No entanto, a empresa negligenciou suas responsabilidades com esses municípios e impôs barreiras ao desenvolvimento de Paulo Afonso, que ainda era parte de Glória. A cidade recebeu milhares de trabalhadores do dia para a noite, gerando uma demanda por serviços públicos absurda que nem a sede, nem a pequena povoação, tinham como suprir. Enquanto as ruas da cidade, que se formavam desorganizadamente, sofriam sem água, energia, saneamento e pavimentação, a Vila construída para receber engenheiros, médicos e outros profissionais da CHESF era separada do resto da povoação por cercas e, depois, por um muro de pedras, e tinha uma infraestrutura de fazer inveja à maioria das cidades num raio de 300 km.


Até 1988, a CHESF não pagava nada ao município pelos recursos naturais utilizados. O orçamento de Paulo Afonso era menor do que o gasto da CHESF com a manutenção das ruas e praças do "acampamento". A empresa não pagava impostos como o IPTU, não apoiava eventos culturais e sociais, nem compensava o uso das terras alagadas ou a produção de energia. Todo o lucro era apropriado pela CHESF, enquanto a cidade ficava sem os benefícios econômicos de sua própria riqueza. Além disso, a CHESF, que foi contrária à emancipação da cidade, usou seu poder político para impedir a industrialização local, bloqueando a entrada de empresas para manter mão de obra barata. O objetivo sempre foi fazer o que foi feito anos depois com Itaparica, em Pernambuco, que virou uma vila fantasma.


A CHESF, de caso pensado, prejudicou o desenvolvimento econômico de Paulo Afonso e manteve a cidade dependente dela. Após o final das obras, a cidade deveria morrer, mas o povo de Paulo Afonso não aceitou esse destino. Em 1988, foi instituída na Constituição a cobrança de royalties sobre a produção de energia elétrica, fruto de uma luta liderada pelo prefeito Zé Ivaldo, com apoio da população. Enfrentando forte oposição da CHESF, que ameaçou seus funcionários de demissão caso assinassem o documento da Emenda Popular, a luta significou uma segunda emancipação para Paulo Afonso. Alguns anos depois dessa vitória histórica, os cofres municipais passaram a ser irrigados com a justa compensação financeira, após a regulamentação da lei.


O hospital Nair Alves de Souza é outro símbolo dessa relação desigual. Por anos, funcionários da CHESF foram tratados com regalias e tinham benefícios especiais, enquanto o restante da população recebia tratamento semelhante ao dado a indigentes, muitas vezes voltando para casa sem atendimento, isso só mudou de fato com o advento do SUS.

Quando a Justiça transferiu a gestão do hospital para o município a pedido da CHESF, impôs uma despesa além da capacidade do município, que passou a arcar com dois hospitais e sem auxílio financeiro. A Justiça deveria ter obrigado a União, então dona da CHESF, a assumir o hospital e não colocar mais esse peso sobre o município. A CHESF se livrou do hospital com o objetivo de viabilizar sua futura privatização; além disso, o processo de transferência para a UNIVASF, que havia sido acordado anteriormente entre o estado da Bahia e a CHESF, foi travado pelo Ministério da Educação do governo Bolsonaro.


É inaceitável, portanto, que a CHESF cobre do município pela energia que mantém o hospital em funcionamento, gerada pelas usinas da empresa em Paulo Afonso e utilizando recursos da cidade. Pagar as contas de água e de energia elétrica do hospital era o mínimo que a CHESF poderia e deveria fazer. Já não basta a ponte, construída para uma cidade de 50 mil habitantes, e agora a cidade já precisa de outra, assim como a via de acesso (BA-210) sobre o dique, sem possibilidade de expansão, que em breve se tornará obsoleta. Tudo isso é Divida da CHESF com Paulo Afonso.


Além disso tudo, a prefeitura argumenta que a decisão judicial que transferiu o HNAS para o munícipio, não determinou que a prefeitura assumisse débitos anteriores com energia elétrica. Portanto, essa cobrança é uma afronta ao nosso povo e a cidade, e quem apoia essa atitude, principalmente se apoia por motivos eleitorais, presta um desserviço a Paulo Afonso. A CHESF foi muito importante pra nossa história, mas deve muito mais a Paulo Afonso do que o contrário.


A privatização da ELETROBRAS/CHESF, (a preço de banana, frise-se aqui), não deveria servir como perdão para os inúmeros erros que a empresa cometeu e pelos prejuízos causados com a construção dos lagos de suas barragens, que gerou a inundação de terras e a desapropriação que promoveu, retirando a força pessoas de suas casas, e depois jogando-as ao léu, como aconteceu no BTN por exemplo. A CHESF precisa reconhecer e corrigir as injustiças históricas com a cidade que tanto lhe deu e pouco recebeu em troca.

https://www.tribunadopovo.net/noticia/2433/paulo-afonso/politica/o-legado-amargo-da-chesf-em-paulo-afonso.html


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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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