sexta-feira, agosto 30, 2024

Clientes acusam Marçal de enganação, lavagem cerebral e cobranças indevidas

 Foto: Divulgação/Arquivo

Pablo Marçal30 de agosto de 2024 | 06:50

Clientes acusam Marçal de enganação, lavagem cerebral e cobranças indevidas

brasil

Conhecido pelo império digital que construiu graças às suas mentorias, o influenciador Pablo Marçal (PRTB), hoje candidato à Prefeitura de São Paulo, costuma dizer que mudou a vida de milhares de pessoas. Parte de seus consumidores, porém, o acusam de “enganação”, “lavagem cerebral”, cobranças indevidas e falhas na entrega dos produtos.

Marçal e suas empresas são alvo de ao menos 18 processos judiciais movidos por consumidores insatisfeitos, segundo levantamento da Folha. Outras centenas escreveram reclamações em sites destinados a este fim –a maioria não recorreu à Justiça.

O empresário é hoje uma das maiores referências no ramo de produtos digitais. Ele afirma ter enriquecido a partir de seus cursos e mentorias, com pitadas de auto-ajuda e messianismo, pelos quais diz cobrar até R$ 250 mil.

O influenciador promete ajudar as pessoas a melhorar suas vidas de forma rápida, desafiando os alunos a adotar mudanças na mentalidade e em seus hábitos.

No Método IP, um dos cursos mais famosos, os alunos pagam R$ 20 mil pela promessa de aprender, segundo o site de Marçal, a “governar a sua mente, vontade e emoções”; “destravar a prosperidade, que é completamente natural”; “criar hábitos desencadeadores de sucesso”; “ressignificar crenças e reprogramar trilhas neurais” e “instalar drives mentais de alto impacto emocional”.

Entre as 18 ações, em seis a empresa de Marçal foi condenada ou houve acordo para ressarcir os consumidores. Outras duas foram julgadas improcedentes e as demais estão em curso ou foram arquivadas por abandono da parte autora.

A Folha questionou a campanha de Marçal sobre os processos movidos pelos consumidores, mas não obteve resposta.

Um dos processos em curso foi movido em abril deste ano pela produtora de eventos Katia Scalone, que pede a devolução de R$ 85 mil por serviços não prestados e mais R$ 100 mil em danos morais.

Na petição inicial, Katia fala sobre um passado conturbado, com brigas em sua família de origem e em seu casamento, que a colocaram em uma situação de vulnerabilidade. “Então um dia na internet conheceu Pablo Marçal que dizia que até para nascer as pessoas precisam dos pais e do médico e ‘até quando estaria tentando fazer tudo sozinha’???”, diz o texto do processo.

Ela narra que, depois de descobrir o influenciador pela internet, comprou um ingresso para assistir a uma palestra presencial em dezembro de 2023, em Alphaville, na Grande São Paulo. “A autora ficou entusiasmada por estar adentrando no ‘ecossistema’ de Pablo Marçal”, afirma a petição.

Katia conta que então comprou o Método IP, curso que ela diz que “pega muito no emocional” e leva o aluno a se sentir culpado por não estar ajudando aos outros. No segundo dia, de acordo com ela, Marçal tentou convencê-los a adquirir outra mentoria, chamada O Conselheiro, mais cara e voltada para um grupo mais seleto.

A produtora de eventos afirma que naquele dia Marçal espatifou no chão um relógio de mais de R$ 1 milhão, para convencer as pessoas “que nada tinha a ver com dinheiro”. O influenciador já contou sobre um episódio em que quebrou um relógio da marca de luxo Patek Philippe na tentativa de “acessar” os alunos, que não entendiam o que ele dizia.

“Fui para casa aquele dia me sentindo mal por não ter aquele dinheiro que era para ajudar o meu sonho de ajudar pessoas!!! Fiquei mal a quinta inteira!”, diz a petição. “E aí a vendedora me chama diz que eu ouvisse meu coração que Deus me capacitaria!”

Katia afirma que, depois de ter sido alvo de “verdadeira lavagem cerebral”, “num momento de total envolvimento emocional” com Marçal, decidiu pegar um empréstimo no banco no valor de R$ 75 mil para pagar pelo curso mais seleto.

Então, segundo ela, a vendedora afirmou que, na verdade, a mentoria custava R$ 79,5 mil, e encaminhou uma ficha de adesão com o valor rasurado. No documento, anexado ao processo, constam os dados de Katia, o valor do curso escrito à caneta e rasurado, e o cabeçalho: “Termo de compromisso de pagamento e de aquisição de serviço mentoria O Conselheiro”.

A produtora de eventos narra que começou a perceber que poderia ter sido ludibriada. “Voltando sua consciência questionou: ‘Como não era apenas dinheiro se já foram logo mostrando a adesão??? Naquele dia participei de um curso sobre montar mentoria e no final Pablo veio vender para gente mais 60 mil reais e aí falei que não tinha mais dinheiro e ele disse que faltava então mais empenho para fazer mais dinheiro!!!’”, afirma a petição.

Ainda segundo o relato, Katia tentou desistir da compra e uma funcionária do setor financeiro orou com ela e tentou convencê-la a não voltar atrás. Ela diz ainda que descobriu que seu contato com o influenciador “seria como todo mundo 20 minutos por Zoom ou quando ele quisesse fazer algum evento”.

Sem conseguir a restituição do valor, a produtora procurou a Justiça. Marçal ainda não foi citado nesse caso e, portanto, não apresentou defesa. A reportagem conseguiu os detalhes do processo, que é público, mas não conseguiu falar com Katia.

Em um site de reclamações, há mais de 300 relatos críticos à empresa do influenciador. Um deles conta sobre a experiência com o Método IP presencial por R$ 10 mil. A autora diz que os alunos chegaram a ser guiados a imitar um leão no chão, ajoelhados de quatro, e a passar a mão no solo e depois no rosto, o que ela descreveu como humilhante.

Outro, de Renato Yuri da Silva, trabalhador do setor de turismo, descreve a mentoria de Marçal como um “curso superficial de lavagem cerebral”. “O curso é caríssimo para ouvir Pablo orando e fazendo a gente imaginar uma vida maravilhosa. Os cursos bônus são medianos ou ridículos, e tudo vem com uma promessa de vc avançar 10 anos em 1, o que não aconteceu”, escreveu.

Procurado pela Folha, Renato diz que comprou o curso em 2021, por R$ 3.000, e se arrependeu. Ele afirma que os áudios de Marçal inseridos no pacote já estavam disponíveis gratuitamente no YouTube. “Descobri que o melhor conteúdo dele é o gratuito”. Além disso, Renato fala que a compra incluía outros cursos ensinados por amigos de Marçal, que eram “extremamente rasos”.

“Essa parte só ficou disponível depois que passou o tempo de garantia. Quando me dei conta que não prestava, entrei em contato para solucionar, mas ninguém respondia.”

Ainda assim, Renato ainda é um admirador do trabalho do influenciador. Afirma apoiar “todo o trabalho de pessoas ricas e bem-sucedidas que ajudam os outros” e que ele é a melhor opção para a prefeitura.

Ana Luiza Albuquerque/FolhapressPoliticaLivre

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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