quinta-feira, fevereiro 03, 2022

Acordos de Minsk: rastilho perigoso no confronto entre a Ucrânia e a Rússia



As conversações vão continuar mas é difícil vislumbrar solução para a crise ucraniana. O mais provável é a congelação do conflito e a progressiva integração de Ligansk e Donetsk na Federação da Rússia. 

Por José Milhazes 

Quaisquer conversações, por mais inúteis e longas que possam parecer, são sempre melhor do que um conflito armado. A Rússia conseguiu que o Ocidente finalmente lhe prestasse atenção, os Estados Unidos dizem estar prontos a analisar algumas das preocupações de Moscovo sobre a sua segurança, nomeadamente no que diz respeito à redução dos mísseis de curto e médio alcance na Europa, mas viu recusada a sua exigência de impedir a entrada da Geórgia, Moldávia e Ucrânia na NATO. A bola está nas mãos do Kremlin e vamos ver qual vai ser a resposta de Vladimir Putin à resposta dos Estados Unidos e da NATO.

Entretanto, existe um problema de muito difícil resolução em todo este conflito: o cumprimento dos Acordos de Minsk, assinados no início de 2015 pela Rússia, Ucrânia, França e Alemanha. Este documento visava resolver gradualmente o conflito entre Kiev e os seus territórios separatistas de Lugansk e Donetsk, estes apoiados por Moscovo.

É de sublinhar que esses acordos foram assinados num momento em que as tropas ucranianas sofriam pesadas derrotas na luta contra os separatistas russófonos e “voluntários” russos.

Esta é uma das razões que leva os actuais dirigentes ucranianos a recusarem-se a cumprir o estipulado e a exigirem a sua revisão. Alexey Danilov, secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia, declarou a este propósito: “O cumprimento dos Acordos de Minsk significa a destruição do país. Quando eles foram assinados sob a mira dos canhões russos, enquanto os alemães e franceses observavam, todas as pessoas sensatas compreenderam que a realização desses documentos é impossível”.

Moscovo, pelo contrário, insiste em que o Ocidente obrigue a Ucrânia a cumpri-lo. “Quando foi analisada a situação na Ucrânia, Serguei Lavrov apelou a que, em vez de incentivar a retórica política e equipar as forças armadas ucranianas com vários tipos de armamentos, os Estados Unidos devem utilizar a sua influência sobre as autoridades ucranianas para obrigá-las a cumprir completamente os Acordos de Minsk”, lê-se num comunicado publicado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros após a conversa telefónica entre os chefes da diplomacia norte-americana e russa: Antony Blinken e Serguei Lavrov.

As principais divergências dizem respeito principalmente à ordem como devem ser cumpridos os parágrafos dos acordos. Estes preveem, inicialmente, a realização de eleições nas regiões separatistas após a revisão da Constituição da Ucrânia e a aprovação de uma lei que concede um estatuto especial a Lugansk e Donetsk. Depois, as fronteiras entre a Rússia e a Ucrânia, na região do conflito, passarão a ser controladas por tropas ucranianas.

Ora Kiev exige, primeiramente, o controlo da fronteira e só depois a realização das restantes propostas. Isto porque as autoridades ucranianas receiam perder parte do seu território, pois centenas de milhares de habitantes das regiões separatistas já receberam o passaporte russo, o que permitirá eleger forças pró-russas e utilizar a autonomia a favor de Moscovo, transformando as duas regiões como trampolim para alargar a sua influência a novas regiões da Ucrânia. A federalização do país poderá levar à sua desintegração territorial.

“A escalada nas fronteiras não está ligada ao início de uma guerra de grandes dimensões contra a Ucrânia, embora esse risco exista sempre, mas para obrigar a Ucrânia a cumprir os Acordos de Minsk. Se não compreendem que os actuais acordos significam a perda da independência e da soberania da Ucrânia, leiam o documento”, declarou Iúlia Timoshenko, uma dos líderes da oposição.

O Presidente ucraniano Vladimir Zelenski nunca apoiou os documentos assinados pelo seu antecessor Petro Poroshenko, que hoje também protesta contra a sua implementação, pois, se ceder nesta matéria, arrisca-se a ser varrido do poder não só pela oposição, mas por muitos dos seus apoiantes.

“Se eles [Estados Unidos, NATO e União Europeia] existirem no cumprimento dos actuais Acordos de Minsk, isso será muito perigoso para o nosso país. Se a sociedade não aceita esses acordos, isso pode provocar uma situação política interna, e a Rússia aposta nisso”, avisa Alexey Danilov.

Os membros do “Quarteto da Normandia”, que elaboraram o citado documento, tencionam continuar as conversações, mas é difícil vislumbrar uma solução para este problema. Um dos cenários mais prováveis a congelação do conflito e a integração cada vez maior de Ligansk e Donetsk na Federação da Rússia.

Observador (PT)

Em destaque

STF DECIDE QUE TRIBUNAIS DE CONTAS TERÃO PALAVRA FINAL EM PARTE DOS JULGAMENTOS DE CONTAS DE PREFEITOS

  Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Mantena News (@mantenanews)

Mais visitadas