segunda-feira, fevereiro 28, 2022

A questão ucraniana e a grandeza do Brasil, um país que soube acolher os refugiados russos

 Publicado em 28 de fevereiro de 2022 por Tribuna da Internet


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Muitos imigrantes eram russos, fugindo do Exército Vermelho

Mathias Erdtmann

Com toda a situação na Ucrânia, não posso deixar de transcrever a história da minha avó, como me foi passada, com todas as imprecisões e defeitos históricos, aos quais acrescento mais algumas incorreções. Mas no geral, “só sei que foi assim” como dizia o genial Ariano Suassuna.

Em 1881 nascia em Saratov, às margens do Rio Volga, Mathias Schaf. Como mais tarde aprenderia, meu bisavô não era russo. Voltando um século na história, entre 1773 e 1778, os Schaf deixavam pela última vez de seu humilde lar, onde o Rio Queich deságua no Reno, respondendo a um pedido da pomerana czarina Catarina, a alemã que se tornou rainha da Rússia com o assassinato de seu marido.

Eles deixavam seu país para colonizar a Rússia, em troca de terras baratas, liberdade religiosa (eram católicos que não haveriam de adotar a ortodoxia russa) e ausência de serviço militar (eram, novamente, muito católicos). Um pequeno asterisco que não atentaram nas regras: não seriam cidadãos russos. Não podiam comprar novas terras ou expandir suas propriedades com o crescimento da família.

NOVAS MIGRAÇÕES – Receberam suas terras na margem do Volga. Quando Mathias Schaf nasceu, 100 anos depois, essas terras já não eram suficientes. Mais uma vez, migraram, para Kerson, na Criméia russa, onde, possivelmente, teriam terras nuas para novamente desenvolver.

Lá Mathias casara e em 1915, nascia, perto de Odessa (atual Ucrânia) Angelina Schaf, minha avó. Após 5 gerações, ela tinha todos os traços russos, mas também não seria considerada russa.

Como era previsível, após o desenvolvimento das lavouras, com o crescimento da família, tiveram que migrar novamente.

Mathias foi com sua família para 4.500 km de distância, para uma região próxima a Novosibirsk, um pouco a leste da fronteira do atual Casaquistão. Lá cultivaram terra nua por alguns anos, e a tornaram fértil.

FICARAM À MÍNGUA – Com a revolução vermelha, toda a promessa dos czares se desfez. O exército vermelho recolheu, ano após ano, a colheita de trigo, deixando os “alemães” à míngua.

Os Schafs cresceram, trabalharam, morreram no território russo por 150 anos, transformando a terra infértil em terra agrária, para em seguida entregar aos Russos. Agora, no entanto, era definitivo. Estrangeiros mal vistos, teriam que abandonar o país e entregar todas suas parcas propriedades sem nada receber, para que russos “de verdade” pudessem morar em suas casas.

A família que não conseguisse equipar cada casa com dois jogos de cama, três panelas e utensílios de cozinha, seria condenado a cinco anos de trabalhos forçados na Sibéria, por não fornecer moradia adequado aos russos.

O PÃO NOSSO… – A travessia do país continental, com enormes riscos, só foi possível agarrando-se na fé e na caridade. O Pai Nosso do Cristão na guerra é muito mais literal do que nas igrejas. “Pão nosso de cada dia”. “Assim como nós perdoamos aqueles que nos tem ofendido”.

Sem descrever os detalhes das penúrias e perdas do caminho, digo que vários dos Schaf conseguiram alcançar um campo de refugiados na Alemanha, incluindo a jovem Angelina. De lá, conseguiram um navio para o Brasil, e a Companhia Territorial Sul Brasil alocou a eles uma pequena gleba no oeste catarinense.

A situação de receber uma terra improdutiva para desenvolver não era novidade. A novidade é que agora os Schaf eram brasileiros. Pela primeira vez em mais de 150 anos, tinham cidadania.

TRABALHO INSANO – A terra, muito trabalhosa: a famosa “plantação de pedra” da piada rural do oeste catarinense: você colhia todos os cascalhos e matacões ao roçar para a plantação, mas na safra seguinte parecia que tinha crescido tudo de novo.

Mas era fértil o suficiente para a família e para dividir com quem precisasse. Nenhum cristão que tenha sobrevivido a tamanha privação teria coragem de ver um irmão passando fome.

Angelina casa-se com Mathias Erdtmann, alemão, meu avô (e que tinha o mesmo primeiro nome que o pai dela). Décadas depois, seria meu nome também. Angelina (pronúncia alemã: Anguêlina) passava a ser chamada pelos netos com a pronúncia brasileira (Anjelina).

UMA RISADA ENORME – Tinha um rosto severo, que não combinava com seu riso de boa vontade e bondade. Tenho lembrança de um café da manhã, somente eu e ela na mesa, café com leite na xícara. Eu devia ter uns 6 anos.

Ela esbarra na xícara e derrama um pouco na mesa, dobrando a borda da toalha para que não espalhasse. Eu, atrapalhado, derrubo um bom terço do líquido, repetindo o gesto dobrando quase toda a toalha na tentativa de contenção. Ela, com aquela cara braba de russa, dá uma risada enorme.

Na Ucrânia estão os irmãos que ficaram nessa travessia, que poderiam ser nós mesmos, e estão no meio de um fogo cruzado de governos que são totalmente alheios ao sofrimento secular dos povos. Esse povo, novamente refugiado na sua própria terra, onde cultivaram e construíram com seu próprio suor, reza novamente o Pai Nosso do cristão na guerra. Livrai-nos do mal.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Caramba, amigo Mathias Erdtmann, você me fez chorar em pleno carnaval. Minha família, por parte de pai e mãe (Azevedo e Quaresma), tinha ascendência judia. Perseguidos pela Inquisição, vieram para o Brasil. Sempre temendo o radicalismo religioso, tentavam mostrar que eram católicos. Justamente por isso, a família Azevedo, em cada lugar no qual se estabelecia no Nordeste, construía logo uma capela. Foi assim que surgiu o vilarejo de Conceição dos Azevedos, no Rio Grande do Norte, que hoje é uma cidade linda e mudou o nome para Jardim do Seridó, porque foi construída num vale acolhedor, às margens do Rio Seridó. Quanto aos imigrantes estrangeiros, o governo brasileiro oferecia passagem paga, concessão de cidadania, lotes de terra livres e desimpedidas, suprimento com primeiras necessidades, materiais de trabalho e animais, isenção de impostos por alguns anos e liberdade de culto. Assim, viva o Brasil! — essa terra acolhedora, que há de ser ainda mais generosa com seus filhos naturais e adotados. Porque, tirando os índios, somos todos estrangeiros. (C.N.) 

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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