domingo, fevereiro 27, 2022

Filhos da Guerra Fria




O conflito russo-ucraniano veio, mais uma vez, mostrar o perigo das cruzadas ideológicas. A Ucrânia foi encorajada pelos “aliados” a desafiar a Rússia mas, na hora da verdade, ficou sozinha. 

Por Jaime Nogueira Pinto 

Os poetas, mais que os comentadores políticos, têm às vezes um sexto ou sétimo sentido que adivinha o tempo que vem. Sarhiy Zhadan é um poeta ucraniano, nascido em Starobilsk, no Lugansk (agora república separatista), autor de Catálogo de Barcos, um livro cujos poemas espelham um clima de tensão e guerra que parece profetizar as imagens das cidades da Ucrânia invadida que agora nos entram em casa. Zhadan parte da Ilíada, do mítico Catálogo dos Barcos da expedição contra Troia, mas não é de Troia que fala:

“Então vou falar disto

Do olho verde de um demónio no céu colorido

Um olho que espreita do lado de fora do sono de uma criança.”

*

“Ucrânia Oriental, no fim do Segundo Milénio

O mundo transborda de música e fogo

Peixes voadores e animais que cantam vozeiam na escuridão

Entretanto, quase todos os que aqui se casaram morreram

Entretanto, os pais da gente da minha cidade morreram

Entretanto, muitos heróis morreram.”

Foi este o tempo que chegou à Ucrânia na quinta-feira de manhã, quando os mísseis e a artilharia russa bombardearam as bases militares e as cidades, e os tanques entraram, à desfilada, em eixos de invasão que cortam o país a meio, de Norte a Sul. E com os mísseis e os tanques chegam as imagens das tragédias e dos desastres da guerra que, quem a eles foi poupado, se habituou a ver em Bruegel, em Goya ou em filmes e documentários: gente que sofre, gente que foge, gente que leva crianças pela mão, gente que morre para vir depois a engrossar a lista das “vítimas colaterais”.

O grande irmão americano

Segundo o Politico, os rumores do ataque iminente chegaram a Washington em primeira mão. O Presidente Biden disse aos aliados europeus que Putin atacaria a 16 de Fevereiro e deu instruções aos americanos na Ucrânia para abandonarem o país o mais depressa possível. Nos dias seguintes, os jornais e televisões do outro lado do Atlântico foram repetindo os avisos, com Biden a insistir que os russos não brincavam e que iam mesmo atacar; e que, em caso de ataque, a América não lutaria contra a Rússia, mas imporia sanções.

O modo como o Presidente dos Estados Unidos foi sucessivamente anunciando datas para uma invasão russa da Ucrânia lembra os pueris “Não és homem, não és nada …” dos tempos em que parecia mal não ser “homem” e se esperava que o acicatado, ofendido na sua masculinidade e sem olhar a consequências, provasse desvairadamente que o era. E quanto mais provocável, belicoso e suscetível de perder a cabeça fosse o desafiado, melhor (ou pior). Muitas vezes, o provocador, o que dizia “Não és homem não és nada”, era também o que, aparentemente preparado para uma luta em que não fazia tenção de se arriscar, pedia aos que o rodeavam: “Agarrem-me que eu vou-me a ele”.

O trágico resultado ficou à vista na quinta-feira, 24 de fevereiro.

A insistência e o ruído da “informação programada”, numa escalada com velhos processos de desinformação de parte a parte, serviu para alimentar um clima de suspeição e desafio que contribuiu para que o Presidente russo ficasse na confortável alternativa diabólica de “invadir ou perder a face”. E como o Presidente russo é um “artista”, tratou de reconhecer as “repúblicas” de Donetsk e Lugansk, na região do Donbass, arranjando um pretexto e deixando ao “Ocidente” o ónus da resposta. E a resposta veio em coro de Washington e das capitais europeias: haveria retaliações económicas, mas o uso de força armada estava fora de questão. Moscovo interpretou a mensagem como um sinal verde, ou, quando muito, amarelo, e sentiu-se confiante para avançar.

Embora a História nos ensine que há sempre o risco de que a razão – e até o interesse próprio – fiquem esquecidos em processos de escalada e jogadas de prestígio, hoje, com armas nucleares, uma guerra global seria totalmente irracional. As declarações euro-americanas de que a NATO não iria intervir militarmente vêm também nesse sentido – mas talvez fosse melhor que não tivessem sido tão veementemente declaradas.

Conhece o teu inimigo

Em 1815, no Congresso de Viena, os vencedores da guerra contra o Império napoleónico tiveram o cuidado de não humilhar a França, de fazer de conta que a Revolução e Napoleão eram os únicos culpados dos 25 anos de guerra na Europa, que esses anos de guerra e sofrimento não tinham nada a ver com o povo francês e que a restauração dos Bourbon curava as feridas passadas.

Cem anos depois, os vencedores da Grande Guerra fizeram do Tratado de Versalhes uma paz punitiva para a Alemanha e para o povo alemão, pondo a primeira pedra para o que seria a vertiginosa ascensão de Adolf Hitler.

Em 1945, as políticas seguidas com a Alemanha e o Japão vencidos foram diferentes. A Alemanha ficou dividida, mas como a Guerra Fria começou logo a seguir, soviéticos e ocidentais, depois dos primeiros tempos de brutal ocupação, tiveram o cuidado de tratar bem os “seus” alemães.

A vitória do Ocidente na Guerra Fria resultou da aliança de uma tríade – Reagan, Thatcher, João Paulo II – que, alimentando a resistência polaca, rearmando militarmente e usando o bluff da SDI-Guerra das Estrelas, forçou Gorbachev a “reformar” o sistema, retirando-lhe aquilo que o sustentava – o medo.

Assim, as Repúblicas Soviéticas, usando as suas constituições “independentes”, abandonaram uma estrutura que era mantida pela hegemonia do Partido Comunista e pelo sistema securitário. Porém, uma das preocupações nas negociações finais entre americanos e soviéticos foi a salvaguarda de um certo espaço livre entre as fronteiras da NATO e da Rússia.

O Presidente George H. Bush e os seus colaboradores, especialmente o Conselheiro Nacional de Segurança, general Brent Scowcroft, homens de formação realista, avessos a paixões ideológicas e conhecedores da História e da mentalidade russas, prepararam com toda a cautela o soft landing da URSS, percebendo que um Estado com semelhante poder militar e nuclear tinha de ser respeitado e bem tratado para não dar origem a fenómenos de ressentimento nacional de tipo hitleriano.

Fenómenos que não estiveram longe de vingar. No princípio dos anos 90, o líder do Partido Liberal Democrático da Rússia (PLDR), Vladimir Zhirinovski, um radical populista que prometia nos seus discursos dar “um homem a cada mulher e uma garrafa de vodka a cada homem”, lançou-se numa corrida ao poder, apelando aos sentimentos de frustração e vingança do povo russo.

O PLDR teve um certo sucesso eleitoral em 1993, o que levou ao aparecimento de outras formações semelhantes, uma das quais a do general Alexandre Lebed, que criou o movimento Pátria e Honra e ficou em terceiro lugar na eleição presidencial de 1996, ganha por Yeltsin, logo seguido pelo candidato comunista Zingarov.

Entretanto, Bill Clinton, na euforia da vitória da Guerra Fria, de que fora herdeiro e não artífice, e daquilo que então foi chamado pelos optimistas “o fim da História” (a Era em que o capitalismo e a democracia iam entender-se urbi et orbe) estimulou a avançada para Leste da NATO e da influência americana, numa espécie de grande cruzada democrática.

Mas, na América, nem todos ficaram eufóricos.

Em 1998, numa entrevista a George Friedman para o New York Times, George Kennan, o grande inspirador da estratégia de contenção dos Estados Unidos face à URSS durante a primeira Guerra Fria, foi claro no aviso, quanto à política da Administração Clinton de expansão da NATO para Leste:

“Penso que é o princípio de uma nova Guerra Fria. Os russos vão reagir, gradualmente, de modo hostil, porque esta expansão vai afetá-los. Penso que é um erro trágico. Ninguém agora ameaça ninguém. E este nosso expansionismo faria os nossos Founding Fathers revirarem-se nas sepulturas. Comprometemo-nos a proteger uma série de países, embora não tenhamos nem os recursos nem a intenção de o fazer de um modo sério. A expansão da NATO foi uma decisão tomada de ânimo leve por um Senado que não se interessa particularmente por política externa.”

Kennan acrescentava que o que mais o irritava era a manifesta “superficialidade” e “falta de informação” da discussão no Senado. Com lucidez e liberdade, o autor do “Longo Telegrama”, que tinha sido embaixador em Moscovo, lembrava que a política de expansão para Leste mostrava falta de conhecimento e compreensão da História da Rússia. Kennan estava certo de que, quando confrontados com a reação de Moscovo no futuro, os responsáveis ocidentais iriam dizer que a culpa era dos russos, que eram assim, maus e imperialistas, mas que a provocação vinha dos “ocidentais”.

Infelizmente o seu aviso não foi seguido. No mesmo sentido, mas em relação à Ucrânia, escreveu Henry Kissinger em 2014:

“O Ocidente deve perceber que, para a Rússia, a Ucrânia nunca pode ser apenas um país estrangeiro. A História da Rússia começou no que foi a chamada Rússia de Kiev. A religião russa disseminou-se dali. A Ucrânia fez parte da Rússia durante séculos e as duas histórias estiveram entrelaçadas desde então. Algumas das mais importantes batalhas pela liberdade da Rússia, a começar pela batalha de Poltava, em 1709, foram travadas em solo ucraniano. A frota do Mar Negro, o instrumento de projeção do poder russo no Mediterrâneo, está baseada, por um aluguer de longo prazo, em Sebastopol, na Ucrânia. Mesmo dissidentes famosos, como Alexandre Soljenitsin e Jozeph Brodski, insistiram que a Ucrânia é parte integrante da História da Rússia e, na verdade, da Rússia.”

“Never corner an opponnent”

Nos últimos vinte anos, as guerras da América no Médio Oriente, da invasão do Iraque à guerra do Afeganistão e sua humilhante conclusão, deviam servir de lição para presentes e futuros entusiasmos e pretextos ideológicos, sobretudo em conflitos que podem, pela primeira vez na História, envolver potências nucleares. O realismo não é de esquerda nem de direita e, neste momento, faz muita falta. Perante alguém como Putin, um jogador de xadrez, com sentido estratégico, os apelos à retórica nunca iriam contar muito. Vladimir Putin tem – ou, pelo menos, tinha – um retrato de Nicolau I na antecâmara do seu gabinete e há, por isso, quem sublinhe o seu perfil nacional-autoritário e de defensor do cristianismo ortodoxo para o comparar com o Czar que reprimiu os Dezembristas, defendeu a autocracia e foi para a guerra da Crimeia contra turcos, ingleses e franceses. É também conhecida a sua afirmação de que o desmantelamento da União Soviética foi o maior desastre geopolítico do séc XX. E apesar de a Rússia de hoje não ter nada que ver com a ideologia marxista-leninista, persiste em Putin, como noutros contemporâneos e servidores da URSS, a nostalgia do que era também um grande Império. Os dados estavam todos lá.

O pôr de parte, à cabeça, a dissuasão militar (embora não se visse na Europa nem nos Estados Unidos grande vontade popular em morrer por Kiev) foi uma espécie de garantia de imunidade. Para as sanções económicas, Putin está preparado, com a quarta maior reserva financeira do mundo, parte em ouro e uma “opinião pública” autocraticamente controlada.

Na crise de Cuba, John Kennedy foi firme mas foi também inteligente e subtil, metendo-se na pele de Kruschev e pondo-se no lugar dos russos. No fim, trocaram-se os mísseis de Cuba pelos mísseis americanos na Turquia. Kennedy percebera bem a recomendação de B. H. Liddell Hart, outro realista e um dos grandes historiadores militares e mestres de Estratégia do século XX, sobre a atitude que um líder político na idade nuclear deveria ter; recomendação que o Presidente citaria no Saturday Review of Literature:

“Keep strong if possible. In any case, keep cool. Have unlimited patience. Never corner an opponent and always assist him to save his face. Put yourself in his shoes – so as to see the thing through his eyes. Avoid self-righteousness like the devil – nothing is so self-blinding.”

Os conselheiros do Presidente Biden deviam ter-lhe recomendado a leitura deste texto. Agora, é tarde, mas pode sempre vir a servir para o futuro.

Observador (PT)

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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