domingo, fevereiro 27, 2022

Militares russos avançam sobre Kiev por terra e ar




Forças russas chegaram a entrar na cidade e houve explosões e combates nas ruas. Militares da Ucrânia resistem, e Kremlin tenta controlar bases aéreas próximas da capital. Presidente recusa oferta para deixar o país.

Militares russos apertaram o cerco a Kiev com ataques aéreos e entraram por terra na capital ucraniana neste sábado (26/02). Eles foram recebidos com resistência das forças armadas da Ucrânia e há centenas de feridos e mortos, no terceiro dia da invasão do país pela Rússia ordenada pelo presidente Vladimir Putin.

Ao longo da madrugada, explosões foram registradas por jornalistas e moradores em diversos pontos da capital. Há confrontos no leste, no oeste e no sul de Kiev, segundo múltiplos relatos. Ataques aéreos partiram um edifício residencial ao meio e destruíram pontes e escolas.

A agência ucraniana de notícias Interfax afirmou que militares russos estavam tentando controlar uma das estações geradoras de energia de Kiev, que poderia ter o objetivo de cortar o fornecimento de luz à cidade. O acesso à internet na capital enfrenta grave instabilidade, segundo a organização NetBlocks.

Na manhã de sábado, autoridades públicas de Kiev informaram os moradores da cidade que há combates ocorrendo em ruas da capital contra militares russos, e pediu que os moradores permaneçam abrigados, evitem se aproximar de janelas ou varandas e tomem precauções para evitar serem atingidos por destroços ou tiros.

Na noite de sexta-feira, o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, alertou a população que a madrugada de sábado seria "muito difícil" e decisiva para o destino do país e publicou um vídeo em frente ao palácio presidencial para afastar rumores de que teria deixado a Ucrânia. Na manhã deste sábado, Zelenski publicou um novo vídeo, em frente à residência presidencial, e disse que seu país não irá se render. “Vamos proteger nosso país, porque nossa armas são a nossa verdade. A verdade é que esta é a nossa terra, nosso país, nossas crianças, e vamos protegê-los todos. Glória à Ucrânia”, afirmou.

Confrontos e explosões

As forças armadas da Ucrânia afirmaram ter repelido um ataque a uma base militar em Kiev, mas não foi possível confirmar a informação de forma independente.

Também há relatos do governo ucraniano de que militares russos tentaram controlar um trecho da Avenida Peremohy (Vitória), a principal da capital, e foram repelidos. Veículos destruídos e incêndios pontuais foram avistados no local, segundo a BBC.

Testemunhas divulgaram em redes sociais relatos de confrontos na estação de metrô Beresteiska, que fica nessa avenida.

A BBC reportou que houve uma grande explosão próxima à Praça Maidan, símbolo da onda de protestos pró-Europa ocorridos em 2013 e 2014 que derrubaram o então presidente Viktor Ianukovytch, aliado de Moscou. Também foram ouvidas várias explosões em Troieshchyna, onde fica uma usina termoelétrica.

Segundo o jornal Kyiv Independent, mais de 50 explosões e uso de artilharia pesada foram relatados na região do zoológico da capital e no bairro de Shuliavka.

Milhares de moradores de Kiev passaram a noite em abrigos antibomba e estações de metrô. A ONU estima que 100 mil ucranianos já deixaram o país após o início do conflito, e o exôdo poderia chegar a 4 milhões se o confronto escalar ainda mais.

'Ucranianos buscam abrigo em estação de metrô em Kiev'

Disputa por bases aéreas

Forças ucranianas relataram confrontos pesados próximos da base aérea de Vasylkiv, a cerca de 40 quilômetros ao sul de Kiev. O local é estratégico para a Rússia desembarcar paraquedistas.

Uma militar ucraniana relatou à mídia local que soldados ucranianos haviam sido mortos e que a Rússia havia conseguido que muitos de seus paraquedistas chegassem ao solo em segurança. "Temos muitas vítimas, muitos feridos – [cerca de] 200, infelizmente", disse a militar, Natalia Balasinovich.

As forças armadas da Ucrânia afirmaram terem derrubado na noite de sexta-feira um avião de transporte russo Ilyushin IL-76 com paraquedistas a bordo. O chefe militar do país, Valerii Zaluzhnyi, escreveu no Facebook que o avião caiu na região de Vasylkiv e disse que era uma vingança por um avião com paraquedistas ucranianos abatido no aeroporto de Lugansk em 2014.

Os aviões IL-76 são de grande porte e podem levar até 125 paraquedistas. Os militares russos não comentaram o incidente, confirmado por uma autoridade da inteligência dos Estados Unidos.

Neste sábado, um segundo IL-76 russo foi derrubado próximo a Bila Tserkva, a 85 quilômetros ao sul de Kiev, segundo duas autoridades de inteligência dos Estados Unidos.

A madrugada registrou combates em outras cidades, como Vasylkiv, a cerca de 30 quilômetros ao sul de Kiev, segundo a CNN. A emissora americana também reportou intenso combate na cidade de Kherson, no sul do país, pelo controle de uma ponte estratégica.

Houve também ataques aéreos na noite de sexta-feira próximos às cidades de Sumy e Poltava, no nordeste do país, e em Mariupol, ao sul. Segundo as forças armadas ucranianas, mísseis de cruzeiro Kalibr foram lançados contra o país a partir do Mar Negro.

Assessor de Zelenski ressalta resistência ucraniana

Mykhailo Podolyak, assessor de Zelenski, afirmou neste sábado que há muitos confrontos em Kiev e no sul do país, mas que os militares ucranianos estariam tendo sucesso em repelir os ataques russos.

Podolyak disse que pequenos grupos de forças russas se infiltraram em Kiev e entraram em confronto com militares ucranianos. Ele afirmou que Moscou deseja assumir o controle da capital e destruir a atual liderança do país, mas que os militares russos não obtiveram ganhos.

Segundo Podolyak, as forças russas estão priorizando o sul do país, onde há intensos combates nos portos de Mykolaiv, Odessa e Mariupol, mas não conseguiram obter vitórias significativas. "A Ucrânia não somente resistiu. A Ucrânia está vencendo", afirmou.

Já o Ministério da Defesa russo afirmou na manhã de sábado que seus militares haviam assumido o controle da cidade de Melitopol, que tem cerca de 150 mil habitantes e também fica no sul da Ucrânia. Seria a primeira cidade relevante a cair sob o domínio de Moscou desde o início da invasão, há três dias.

Possível reunião

Zelenski segue disposto para resistir e disse ter recusado uma oferta dos Estados Unidos para deixar o país. "A luta está aqui. Preciso de armas, não de uma carona", afirmou ele, segundo um oficial de inteligência dos Estados Unidos.

Representantes da Ucrânia e da Rússia deve entrar em contato nas próximas horas para discutir local e horário para uma reunião para tratar do confronto, afirmou Sergii Nykyforov, porta-voz do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski.

O Kremlin havia sugerido uma reunião em Minsk, capital de Belarus, e o governo ucraniano sugeriu Varsóvia, capital da Polônia. A divergência provocou uma "pausa" nos contatos, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

"A Ucrânia estava e permanece pronta para conversar sobre um cessar-fogo e paz", disse Nykyforov em um post no Facebook. 

O porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price, afirmou que a oferta da Rússia por uma reunião era uma tentativa de realizar diplomacia "na mira de uma arma", e que as forças de Putin precisavam interromper o bombardeio da Ucrânia se a Moscou tivesse uma proposta séria sobre negociações.

A Otan enviou reforços para proteger as nações do Leste Europeu que integram a aliança militar.

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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