domingo, fevereiro 27, 2022

Ucrânia, resistência heroica até a morte; Putin amplia seu alvo para Finlândia e Suécia

Publicado em 27 de fevereiro de 2022 por Tribuna da Internet

Putin ataca centro de Kiev e enfrenta resistência de forças da Ucrânia

Pedro do Coutto

A resistência do governo de Kiev à invasão terrível da Rússia, que inclusive já chegou à uma área de Kiev, capital do país, está sendo heroica.  O presidente Volodymyr Zelensky armou a população civil e está disposto a resistir até a própria morte. Para isso, recusou uma proposta dos Estados Unidos para ser retirado do país. Zelenski mantém-se na capital e disposto a enfrentar os invasores de armas na mão.

A crise mundial se agravou substancialmente nas últimas 24 horas, não apenas com a invasão de Kiev, mas também pela ameaça que Putin dirigiu à Finlândia e à Suécia. Exige que os dois países não ingressem na Otan, o que deixa claro o objetivo de também invadi-los, pois o protocolo da Organização estabelece que a agressão a  um país membro acarretará a reação militar de todos os demais.

ALVOS – Portanto, Putin tem como alvos Helsinki e Estocolmo exatamente para impedir que as forças militares da Otan, incluindo as dos Estados Unidos, entrem em cena. Ficou claro o objetivo do ditador russo, sobretudo numa hora em que o terrível conflito já se generalizou na Ucrânia com a mobilização popular para impedir a progressão das forças russas.

O mundo novamente está à beira de uma tragédia global, fazendo com que a invasão da Ucrânia por Moscou se torne uma agressão mundial ao princípio de pendências dos países e de vontade de suas populações. Afinal de contas, não há a menor lógica na proibição decretada por Putin quanto ao ingresso da Suécia e da Finlândia na Otan. A guerra parece generalizar-se. A tempestade se agravou de sexta-feira para sábado.

Ao que se refere à ameaça à Finlândia e à Suécia, O Globo com base em fontes de Helsinque e Moscou, expõe nitidamente o significado de tal ultimato. Ao que se refere à invasão da Ucrânia e do certo à Kiev, a reportagem de O Globo é de André Duchiade.

PROIBIÇÃO – Na manhã de ontem, sábado, a GloboNews revelou que Putin proibiu também companhias de aviação sobrevoarem a Polônia e a Romênia, países para os quais  refugiados ucranianos se deslocam, principalmente para a Polônia.

A Polônia fica a oeste da Ucrânia, cujo norte tem fronteira com a Biellorrussia, pró-Moscou. E no sul, uma extensa fronteira com a Rússia bloqueia qualquer movimentação das famílias que tentam escapar da guerra para Crimeia. Não tem o menor sentido o ultimato dirigido pelo Kremlin aos governos de Helsinki e Estocolmo. Não pode haver outra razão a não ser a vontade agora não mais oculta de Putin  de invadir as duas nações. O universo está sob ameaça de uma explosão atômica.

POSICIONAMENTO – O Conselho de Segurança da ONU, formado por 15 países, dos quais somente cinco são permanentes e possuem poder de veto, na sexta-feira condenou por 11 votos a um, o da Rússia, a invasão de Moscou para arrasar a Ucrânia. O Brasil aprovou a resolução. Foi importante para o nosso país, pois caso contrário estaria confirmando o silêncio de Bolsonaro.

O voto contrário foi do representante russo, que usou o direito de veto, direito restrito à Rússia, aos Estados Unidos, ao Reino Unido, à França e à China. Essa última, eixo ponto político de grande importância, se absteve e não apoiou a invasão da Ucrânia pelas forças russas.

RECUO – Esse recuo confrontado com a posição inicial de Pequim deve produzir, penso, grande reflexo político internacional na medida em que representa a quebra de uma unidade registrada inicialmente entre os dois países. Abstiveram-se também a Índia e os Emirados Árabes. No caso dos Emirados Árabes, uma surpresa  dada a vinculação com grandes empresas americanas na área do petróleo.

Na Folha de S. Paulo, reportagem de Igor Gielow, enviado do jornal a Moscou, relata amplamente a movimentação das tropas russas cercando Kiev e um novo ultimato de Putin exigindo a rendição do governo de Kiev. O impasse entre a vida e a morte de centenas de milhares de seres humanos está em jogo neste final de semana.

INDICAÇÃO –  O presidente Joe Biden, reportagem de Rafael Balago, edição de ontem da Folha de S. Paulo, indicou a juíza negra Ketanji Brown Jackson que atua na justiça federal para a Suprema Corte do país.

Confirmada pelo Senado, será a primeira  mulher negra a integrar a Suprema Corte americana. Biden cumpre assim compromissos da campanha eleitoral voltados para a inclusão racial em altos postos do país. A embaixadora dos Estados Unidos na ONU também é negra.

APOSENTADORIAS –  Reportagem de André de Souza, Geralda Doca e Marina Mendes, O Globo, destaca a importância da decisão do Supremo Tribunal Federal concluída na sexta-feira, que por seis votos a cinco decidiu aprovar a revisão das aposentadorias e pensões do INSS anteriores à reforma de 1994 quando o teto de contribuição e também, portanto, o teto de aposentadorias e pensões, teve o cálculo alterado do limite de 10 salários mínimos para cinco salários mínimos.

Ocorre que as contribuições dos segurados através das décadas estavam incidindo na base de 11% sobre dez salários mínimos e não sobre cinco. Portanto, houve um corte abrupto da metade do direito assegurado que não foi até hoje restabelecido.  No placar de seis a cinco inclui-se o voto do ministro Marco Aurélio Mello, que se aposentou este ano. Caso o julgamento seja reiniciado, o que não é provável e nem legítimo, votaria o ministro André Mendonça.

PRONUNCIAMENTO – O Ministério da Economia de Paulo Guedes, é claro, já se pronunciou contrariamente, alegando problemas financeiros. Mas na semana passada encaminhou projeto de decreto ao presidente Jair Bolsonaro reduzindo em 25% a contribuição das empresas para com o Imposto sobre Produtos Industrializados apoiando-se no argumento de que a receita tributária de 2021 alcançou o recorde de R$ 1,8 trilhão, superando em 17% a arrecadação de 2020.

Entretanto, como ocorre sempre, a equipe do ministro Paulo Guedes focaliza a receita tributária, mas não diz que o total da Lei Orçamentária para 2022 é de R$ 4,8 trilhões. Uma elevação de 30% em relação à receita total de 2021 que foi de R$ 3,6 trilhões. O Ministério da Economia em matéria de receita pública retira o texto do contexto, da mesma forma que a Petrobras quando se refere às oscilações do dólar nas importações de gasolina e diesel não incluem o mesmo efeito do dólar alto nas exportações de petróleo bruto.

São dois pesos e duas medidas, certamente em favor dos acionistas e do mercado, mas que pesam fortemente no bolso dos contribuintes. A questão é a seguinte: da produção de óleo alcançada no país, uma parte, em face de sua densidade, é refinada fora do país e retorna sob a forma de gasolina, diesel e gás. O outro fato é que são realizadas exportações de petróleo bruto destinados ao consumo de outros países estrangeiros.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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