domingo, fevereiro 27, 2022

Invasão da Ucrânia tem semelhanças com guerras recentes, da Bósnia ao Iraque

por Mayara Paixão | Folhapress

Invasão da Ucrânia tem semelhanças com guerras recentes, da Bósnia ao Iraque
Foto: Reprodução / G1

Se a sombra da Guerra Fria é um dos principais elementos para entender o pano de fundo da invasão da Ucrânia, há também outros eventos dos últimos 30 anos que dialogam com a guerra iniciada pela Rússia no país do Leste Europeu. As guerras da Bósnia (1992), de Kosovo (1999), da Geórgia (2008) e da Síria entram nessa equação. E até a guerra no Iraque ajuda a entender o contexto.
 

Os conflitos, que ocorreram na Europa após a dissolução da União Soviética e deixaram saldo de mortos que pode chegar a 1 milhão, têm características que dialogam com o que acontece na Ucrânia --seja as disputas étnicas de alguns, a participação da Otan (aliança militar ocidental) em outros, a capacidade de organização militar russa ou a disposição dos EUA de interferirem (ou não) num conflito.
 

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GUERRA DA BÓSNIA (1992 A 1995)
 

O conflito civil na Bósnia, que deixou mais de 100 mil mortos, está inserido no longo processo de desintegração da Iugoslávia, uma ex-república soviética que aglutinou uma infinidade de nações (ou etnias). O fim da União Soviética foi alavanca decisiva para que os movimentos separatistas regionais ganhassem força.
 

Depois de Eslovênia, Croácia e Macedônia alcançarem suas independências, foi a vez da Bósnia e Herzegovina, região complexa devido à multiplicidade de etnias. O conflito foi marcado pela tentativa de limpeza étnica da população muçulmana local, no maior crime de genocídio cometido em território europeu no pós-guerra.
 

Qual elemento dialoga com a Ucrânia? Tanto a Bósnia quanto a Ucrânia, países descendentes de povos eslavos, são Estados multinacionais, explica Angelo Segrillo, professor de história contemporânea da USP especializado em Rússia. "Isso cria uma riqueza sociocultural, mas também potenciais conflitos étnicos".
 

O último censo populacional ucraniano diz que mais de 130 nacionalidades e grupos étnicos convivem no país, sendo a maioria ucraniana (77%) e russa (17%). O fator pode não ser o principal motor da invasão russa, mas tem enorme peso: Vladimir Putin diz que a população dos países constitui "um só povo", e duas regiões de maioria russa do leste da Ucrânia, no Donbass, autoproclamaram-se independentes e foram reconhecidas por Moscou.
 


 

GUERRA DE KOSOVO (1998 A 1999)
 

Também parte do imbróglio da ex-república socialista da Iugoslávia, a província de Kosovo, de maioria albanesa e minoria sérvia, tentou proclamar sua independência. A reação iugoslava, sob o comando de Slobodan Milosevic, foi brutal. Mais de 10 mil morreram, e centenas de milhares ficaram desabrigados ou emigraram.
 

Qual elemento dialoga com a Ucrânia? A Otan (aliança militar ocidental criada 50 anos antes), que está no centro do conflito atual, interveio na guerra do Kosovo. A aliança, transgredindo normas do direito internacional e sem mandato específico do Conselho de Segurança das Nações Unidas, enviou tropas para a região. O Kosovo só viria a se tornar independente, de fato, em 2008, mas a participação ocidental no conflito teve peso histórico.
 

A intervenção foi um dos maiores exemplos da predisposição da Otan, que ao mesmo tempo engolfava Polônia, Hungria e República Tcheca, para mexer no xadrez do Leste Europeu. Isso contribuiu para a frustração dos russos, que, de 1991 a 1998, ensaiaram uma proximidade com o Ocidente, explica Pedro Feliú, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.
 

"Houve uma tentativa de aproximação russa do Ocidente, mas os EUA viraram as costas, mesmo que entre lideranças americanas tenha havido divergências sobre a necessidade e o quão estratégico seria a expansão da Otan", diz. "Esse fator abriu espaço para o avanço do ultranacionalismo russo." Vladimir Putin, que chegou à Presidência em 1999, é fruto desse sentimento.
 


 

GUERRA DA GEÓRGIA (2008)
 

A Geórgia, uma pequena ex-república soviética na região do Cáucaso, foi invadida pela Rússia por duas razões principais: primeiro, porque estava há muito no satélite da Otan, e o governo russo quis impedir que o país se soma-se à aliança militar; segundo, porque o governo do georgiano Mikheil Saakashvili, aliado do Ocidente, tentou incorporar duas áreas de maioria étnica russa: Abkházia e Ossétia do Sul.
 

O governo russo respondeu. Morreram cerca de 1.100 pessoas, sendo 400 civis, e aproximadamente 200 mil perderam seus lares no conflito.
 

Qual elemento dialoga com a Ucrânia? Primeiro, a guerra foi um contundente exemplo da disposição russa em contrabalançar o poderio americano na região, destaca Feliú. Além disso, se havia uma Rússia enfraquecida nos conflitos da Bósnia e de Kosovo, aqui há um país que viu despontar sua capacidade de organização militar e investiu na renovação das Forças Armadas.
 


 

GUERRA NA SÍRIA (2011 ATÉ HOJE)
 

A guerra civil síria pode não ter relação territorial com a Rússia, mas isso não significa que não tenha a participação de Moscou --os russos são, aliás, um dos principais atores do conflito.
 

A crise, que começou com levantes populares que pediam o fim da ditadura de Bashar al-Assad, perdura até hoje, e o terrorismo, com a participação de grupos como o Estado Islâmico (EI), se somou ao conflito.
 

O governo de Putin dá suporte à ditadura de Assad --o sírio, aliás, foi um dos poucos que manifestaram apoio à invasão da Ucrânia. O Centro de Documentação de Violações sírio diz que pelo menos 7.300 mortes de civis e combatentes na guerra podem ser atribuídas a forças russas.
 

Qual elemento dialoga com a Ucrânia? Uma das principais desavenças russas na guerra síria é com a Turquia, que apoia algumas forças locais contra a ditadura de Assad. A Turquia é membro da Otan e funciona como uma espécie de fronteira de contenção à influência russa na região do Oriente Médio, explica Feliú, da USP. "A Guerra na Síria é emblemática do poderio militar russo para ir um pouco além do entorno estratégico do Leste Europeu", adenda.
 

O contrabalanço turco à influência do governo de Putin fica claro também na invasão da Ucrânia. O país condenou prontamente a ação militar russa e tem sido instado com frequência pela chancelaria ucraniana e pelo presidente Volodimir Zelenski a apoiar o país, por exemplo bloqueado o acesso de companhias russas ao seu espaço aéreo.
 


 

GUERRA DO IRAQUE (2003 a 2011)
 

Alegando que o Iraque possuía armas de destruição em massa --argumento que cairia por terra anos depois--, os EUA invadiram o país em 2003 e derrubaram o ditador Saddam Hussein. As tropas americanas permaneceram no país e foram retiradas em 2011. Retornaram, porém, em 2014, para combater o Estado Islâmico (EI).
 

Qual elemento dialoga com a Ucrânia? O conflito conversa menos com a Rússia e mais com os EUA, principais atores da Otan. Isso porque é um exemplo do interesse americano em empregar sua força militar numa crise. Feliú, da USP, lista três elementos que pesaram para o interesse dos EUA no Iraque: 1) lobby doméstico, especialmente de empresários; 2) interesse estratégico pelas reservas de petróleo e 3) a política externa americana que prioriza Israel (Estado rival do Iraque).
 

Além de sanções a empresas e indivíduos russos, da venda de armas para a Ucrânia e do envio de tropas para o entorno estratégico, o governo americano não parece disposto a investir com maior intensidade na defesa ucraniana. Em parte porque o país não é membro da Otan --a própria aliança havia dito que não enviaria tropas justamente por esse motivo no caso de uma invasão.

Bahia Notícias

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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