domingo, fevereiro 27, 2022

O triângulo invertido dos sonhos de Lula




Memória da diarquia e da saga das Diretas Já é essencial para abrir uma fresta no nosso sombrio destino a partir de 2023

Por Bolívar Lamounier* (foto)

O governador João Doria ainda não percebeu que, insistindo em se candidatar à Presidência da República, em vez de postular a reeleição, entregará São Paulo de mão beijada ao PT. Lula deve estar rezando o terço várias vezes por dia para que Doria faça exatamente isso, e sorrindo de contentamento ao ver que Doria logo chegará ao ponto de não retorno.

Em política, 20 anos são uma eternidade. Em 2002, todos os ventos sopravam a favor de Lula. Hoje, sopram na direção contrária. Lula provavelmente vencerá com um pé nas costas, mas o panorama que descortinará a partir do Planalto é o de um país em escombros. No Congresso, uma maioria amorfa e subserviente de nada lhe servirá; ao contrário, será uma maioria disposta a tudo para arrancar nacos em seu minguante erário. As massas que antigamente o idolatravam não irão às ruas com o mesmo entusiasmo.

Guardo na memória uma instigante palestra feita dez anos atrás na Fundação Fernando Henrique Cardoso pelo ex-presidente uruguaio Julio María Sanguinetti. Do alto de sua experiência e de seu conhecimento das realidades de nossa triste América Latina, ele observou que o populismo viceja quando a economia vai bem, mas emagrece e sai de cena quando ela vai mal. Todo líder populista precisa de recursos financeiros em abundância, pois é com dinheiro (público, obviamente) que ele compra políticos dispostos a controlar de dentro para fora o Parlamento, e líderes sindicais, estudantes e padres de esquerda, que o façam de fora para dentro.

Esperto, Lula sabe que o apoio de banqueiros não sai barato e que não fará reformas relevantes. Mas, em sonhos, já anteviu o triângulo que poderá ao menos livrá-lo de um fim de carreira desastroso. Refiro-me, é claro, aos governos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O de São Paulo, principalmente, por sua dimensão populacional e econômica.

Meu leitor e minha leitora certamente se lembram do dia 25 de abril de 1984. Naquela data, a bancada de apoio ao governo militar derrotou no Congresso a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que se tornou conhecida pelo nome de seu proponente, o deputado Dante de Oliveira (MDB-MT). Que tem isso que ver com a sucessão presidencial de 2022? Mais do que se imagina, como tentarei mostrar a seguir.

No início de 1984, com o objetivo de mobilizar apoio popular para a emenda Dante de Oliveira, a oposição reunida no MDB lançou a campanha das Diretas Já, que, se aprovada, tornaria direta a sucessão do último general-presidente, João Baptista de Oliveira Figueiredo, retirando-a do Colégio Eleitoral, onde Paulo Maluf tentaria garantir em trajes civis a continuidade do regime.

A principal rede de televisão do País ignorou a campanha mesmo quando os comícios já ganhavam certo vulto. A 25 de abril, o quadro era bem outro. Derrotada no Congresso, a oposição imediatamente redirecionou a campanha, aceitando decidir a parada contra Maluf no Colégio Eleitoral. O resto da história é bem conhecido, mas preciso voltar ao triângulo.

O agigantamento da campanha popular seria impensável se, nas eleições para governador realizadas dois anos antes, a oposição não tivesse saído vitoriosa em São Paulo (com Franco Montoro), no Rio de Janeiro (com Leonel Brizola) e em Minas Gerais (com o próprio Tancredo Neves). Com essa tríplice vitória, a correlação de forças entre governo e oposição tornou-se aproximadamente diárquica, tendo em vista a soma de poder representada pelos três grandes Estados.

Penso, pois, que a memória da diarquia e da consequente saga das Diretas Já é essencial para abrirmos uma fresta no sombrio destino que – nem se engane – ainda nos fará companhia a partir de 2023. Não me parece estritamente necessário, mas ressalto que não estou comparando Lula a Jair Bolsonaro. A obrigação de escolher entre os dois é um escárnio embutido em nossa tragédia. A esta altura, as necessidades urgentes de nosso país são mais que conhecidas. A primeira é desfazer a polarização entre Lula e Bolsonaro, que já deu o que tinha para dar, que era nada; ela já nasceu perempta. Segundo, por mãos à obra para dar um jeito nas contas públicas e deflagrar a magna reforma do Estado, desmontando o entulho patrimonialista e corporativista que o corrói de alto a baixo. Retomar o crescimento, reorientando-o para que os miseráveis tenham do que viver, sem o imperativo de recorrer à esmola pública. Isso, só os muito obtusos não percebem, depende de um vigoroso aprimoramento em nosso sistema de ensino. Travar a expansão da criminalidade organizada, que obviamente tem crescido a uma taxa muito mais alta do que o PIB (a soma dos bens e serviços produzidos em um ano).

A conclusão que se há de extrair dessas relembranças só pode ser uma. O triângulo invertido dos sonhos de Lula não lhe garantirá a propalada “governabilidade”. Esta ele não terá porque não a tem, ponto. Garantirá, isto sim, um preocupante desequilíbrio de poder entre o lulopetismo e os que de fato querem ver o Brasil sair do atoleiro.

*Sócio-diretor da Augurium Consultoria, é membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências

O Estado de São Paulo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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